Si bastasse ter um dia de protecção ou de lucta, as mulheres estariam
com tudo, pois, alem dos dias nacional e internacional da mulher, existe
o dia das mulheres do campo e o dia de lucta contra a exploração da
mulher, sem fallar no dia das mães, da vovó, da sogra, da cozinheira, da
enfermeira ou da prostituta.
Mas, em novembro, o dia 25 foi reservado para o thema da violencia
contra a mulher, particularmente interessante porque envolve a aggressão
sexual, chamada de "estupro" quando a vagina é penetrada e de
"attemptado violento ao pudor" quando a penetração forçada viola o cu ou
a bocca da victima. Isso segundo o jargão juridiquez, que
deliberadamente ignora o estupro contra homens, tal como a rainha
Victoria ignorava o lesbianismo. Curioso é que, de meus tempos de
adolescente, lembro-me de certos filmes dublados ou legendados que
traduziam o estupro oral da mulher como "crueldade mental", que, no
original americano, seria, litteralmente, "mental cruelty", figura
juridica ainda mais euphemistica que "attemptado violento ao pudor", e
mais suggestiva das intenções sadicas do aggressor, usada inclusive como
justificativa para pedidos de divorcio por parte da esposa ultrajada...
Para bom entendedor, seria como si dissessem: si a mulher appanha para
chupar, é "physical cruelty"; si chupa para não appanhar, seria "mental
cruelty".
Claro que nem toda a violencia é sexual, mas, geralmente, a mulher dicta
"de malandro" não apenas appanha delle como leva a consequente "surra de
picca". Si ella "gosta de appanhar" nem vem ao caso, ou viria, si, de
accordo com Nelson Rodrigues, "nem todas as mulheres gostam de appanhar,
só as normaes".
Toda a argumentação feminista contra o machismo domestico soa até
anachronica, no seculo actual, face à barbarie commettida pelos
jihadistas islamicos sobre suas escravas, ou antes, prisioneiras de
"guerra sancta", um medievalismo do tempo das cruzadas que volta a
assombrar o mundo, passados tantos seculos. A proposito do tractamento
dado à mulher pelo radicalismo islamico é que fui buscar um sonnetto de
Valentim Magalhães, tão modellar que foi incluido por Bilac em seu
TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO. Em seguida, appresento algo de minha auctoria.
SONNETTO [Valentim Magalhães]
Ante a mesquita de aureos minaretes
açoitam dois telingas a trahidora.
As vergastas, subtis como floretes,
sibilam sobre a carne temptadora.
À vibração das varas, estremescem
seus niveos membros, firmes, delicados,
e, nos espasmos do soffrer, parescem
das contorsões do gozo electrizados.
Geme aos golpes, que as carnes lhe retalham,
e, aberta a rosea bocca, os olhos bellos
perolas vertem, que seu peito orvalham.
Dobram-se as curvas, soltam-se os cabellos,
e do alvo collo, admargurado e exsangue,
- como esparsos rubis - gotteja o sangue.
No livro O GLOSADOR MOTTEJOSO eu tinha glosado o motte abbaixo, corrente
na cantoria nordestina, do qual fiz uma releitura em forma de
sonnettilho no recemlançado livro SACCOLA DE FEIRA. Comparem e notem
que, na primeira leitura, o rhythmo da redondilha não tem accento fixo
na terceira syllaba. Mais recentemente, glosei outro motte, pertinente
ao thema deste mez, e aqui ja mantenho o rhythmo accertado no
sonnettilho. Confiram:
<http://cl.s6.exct.net/?qs=170b59a38d0aa656ed12f2847aefb1c9b455ca74c4c7e7d0397fd2da044ed403>
MOTTE GLOSADO
Na proxima encarnação
eu prefiro ser mulher.
Mais opprimidos, quem são?
Negros? Indios? Pobres? Loucos?
Não quero ser desses "poucos"
na proxima encarnação!
A casta dos sem-visão,
mais baixa que outra qualquer,
ao abuso é de colher!
Si é para chupar caralho
e tomar no cu que valho,
eu prefiro ser mulher!
A VOLTA DO MOTTE DO SEXO [3648]
Um poeta que eu conhesço,
talentoso e creativo,
diz que paga caro o preço
por não ter sexo passivo:
"Eu queria pelo avesso
ter nascido, à luz dum crivo
genital! Sou macho, e esqueço:
de qualquer gloria me privo!"
E elle affirma: a poetiza,
de talento nem precisa,
si tem algo a dar e der...
Não invoca o motte em vão:
"Na proxima encarnação
eu prefiro ser mulher!"
MOTTE GLOSADO
Nas mulheres não se batte
nem siquer com uma flor.
Sobra macho que as maltracte:
chutes, socos, bofetadas...
Só com flores perfumadas
nas mulheres não se batte!
Uma excappa caso accapte
o que exige o seu senhor:
chupa, engole, aguenta odor
com o qual não se accostuma,
um bodum que não perfuma
nem siquer com uma flor.
///
sábado, 28 de novembro de 2015
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
OUTUBRO/2015: VISTA NOCTURNA DA PAIZAGEM DESERTICA
Claro que, para mim, importa mais tractar do dia do cego, que vae cahir
em dezembro, mas o facto é que, na segunda quincta-feira de outubro, é
celebrado o tal do Dia Mundial da Visão, que alguns estupidos resolveram
instituir para a prevenção da cegueira, iniciativa que, por si, nada tem
de condemnavel. Como cego, fico revoltado, não pela decisão de crear um
dia voltado a tal conscientização, mas pela inconveniencia duma data
movel, que só serve para confundir os outros estupidos que montam
kalendarios commemorativos sem a devida checagem das origens de cada
commemoração. Tanto pode cahir num dez como num onze, por exemplo, este
malfadado dia, que me causa ainda mais dor de cotovello, digo, de globo
ocular inchado pelo glaucoma. Motivos não faltam, comtudo, para a
revolta dos demais cegos e "normovisuaes". Sinão, vejamos.
Agorinha mesmo, em 2014, internautas se perguntavam como era possivel
que até policiaes tivessem um comportamento descripto como "a sadistic
desire to be cruel to a blind man". Tudo porque a policia de Miami
deteve trez negros por posse de maconha mas só liberou dois delles. O
terceiro, chamado Tannie Burke, cego dum olho e semicego do outro, era
capaz de caminhar pelo quarteirão durante o dia mas não conseguiria ir
longe à noite. Justamente por isso os policiaes o levaram de carro até
uma area deserta e distante antes de soltal-o. Sem luzes nem casas por
perto, o joven negro passou appuros até achar alguem que o adjudasse, ja
que os policiaes tinham ficado com seu cellular. Burke foi caminhando
pela estrada, um pé no asphalto, outro no matto, para evitar que um
carro o attropelasse no meio da pista. Tinha explicado aos tiras que era
cego, mas elles fizeram pouco caso. Obvio que a cegueira de Burke
estimulou o sadismo de seus captores.
Os internautas que denunciaram o facto ficariam ainda mais chocados si
prestassem mais attenção ao que circula pela rede.
Na propria Florida, segundo materia de James Ridgeway e Jean Casella
postada em 2013, prisioneiros surdos e cegos eram mais maltractados
justamente por causa da deficiencia. Os surdos tinham a cabeça raspada
só dum lado para que, alem de invalidos, parescessem palhaços. Houve
denuncia de que o departamento encarregado dos presos deficientes
incentivava a cultura do medo e do desamparo, systematicamente abusando
de suas limitações physicas e psychologicas. Sem accommodações
adequadas, os surdos ficavam subjeitos a abusos, inclusive sexuaes, não
só por parte dos carcereiros, mas pelos demais detentos. Rick Scott,
governador da Florida, nem tomou conhescimento das denuncias. Um dos
detentos, chamado Sam Hart, relatou abusos sexuaes contra surdos e cegos
na prisão de Tomoka. Como represalia, foi victima de maior oppressão. O
castigo para quem delata maus tractos é a solitaria. Os guardas plantam
cellulares na cella do delator para que seja accusado pela posse do
apparelho, mesmo sendo surdo e impossibilitado de usar um telephone.
Segundo Hart, cegos e cadeirantes são costumeiramente surrados e
currados, mais ainda si derem queixa, e são deixados sem banho, em meio
a fezes e urina, alem dos rattos.
Não apenas presos communs são victimas de abuso decorrente da cegueira.
Em Guantanamo alguns presos politicos, cegados pelos torturadores, são
mais facilmente submettidos a novas torturas. Segundo materia de
Sherwood Ross postada em 2010, um sobrevivente chamado Murat Kurnaz
escreveu o livro intitulado FIVE YEARS OF MY LIFE: AN INNOCENT MAN IN
GUANTANAMO, no qual cita o caso dum cego com mais de 90 annos entre as
victimas da tortura que os guardas applicavam a rir.
Quem acha que abusos contra cegos são mais detectaveis entre
prisioneiros talvez se espante com algumas situações roptineiras
documentadas nas paginas virtuaes. Cidadãos communs são alvo
preferencial de jovens saudaveis, como se deprehende de relatos
vehiculados na rede. Aqui vão alguns exemplos.
Num asylo em Brunswick, no estado americano do Maine, o funccionario
encarregado de barbear e banhar os velhos foi preso por abusar
sexualmente dum cego que soffria de demencia. Embora o velho insistisse
em denunciar os abusos à sua neta e esta desse queixa à direcção do
asylo, ninguem levou o caso a serio, até que o funccionario fosse
flagrado estuprando o velho. O facto serviu de alerta para a situação de
pessoas vulneraveis subjeitas a maus tractos nas casas de repouso e
estimulou os parentes dos internos a dar-lhes credito quando estes criam
coragem para revelar o que soffrem, ja que pessoas incapazes e indefesas
teem sido constantemente assediadas em taes instituições e difficilmente
alguem vence o medo e a vergonha a poncto de contar que foi victima de
abuso sexual, segundo materia de Erin Rhoda postada em 2012.
Num trem londrino, um cego de 64 annos, que viajava sozinho, foi
infernizado por uma gangue de oito a dez jovens, que começaram attirando
jornaes sobre elle. O cego lhes pediu para pararem com aquillo e allegou
ser deficiente, o que attiçou ainda mais a crueldade da molecada.
Temendo que a gangue agisse com mais violencia, o cego tentou chegar à
porta do vagão, mas foi cercado e escarnescido, tendo que accionar o
dispositivo de emergencia, o que attrahiu os guardas ferroviarios.
Emquanto o cego era attendido, os jovens approveitaram para sahir do
trem, sem que fossem identificados por outros passageiros, segundo
materia postada ja em 2015.
Tambem na Inglaterra, Scott Cunningham, um cego accostumado a percorrer
longas distancias com seu cão guia, foi quasi attropelado por cyclistas
e motoqueiros que ficaram passando rente a elle e tirando sarro. O
cachorro, atterrorizado, teve que ser retreinado depois do trauma, e o
proprio cego foi descaradamente advertido pela policia para que não
frequentasse o local por onde os arruaceiros costumavam transitar,
segundo materia de Gary Fanning postada em 2014.
Na Irlanda do Norte, outro caso de gangue zoando um cego edoso occorreu
com David Archer, que pagou o preço por caminhar sozinho à noite, só
adjudado pela bengala branca. Foi surprehendido por jovens desordeiros
vindos de algum pub, que resolveram infernizal-o. Accostumado a
percorrer seu itinerario, elle foi abbordado por um dos rapazes, que
fingiu offerescer adjuda. Ao responder que não precisava, os outros se
approximaram e, aggarrando-o, fizeram-no dar voltas sobre si mesmo até
perder noção da direcção a seguir. Rindo e debochando de sua cegueira,
só pararam de gyral-o quando ficou tonto e desnorteado. Ao perceber que
tinham ido embora, Archer tentou retomar seu caminho, mas perambulou por
cinco horas, ouvindo buzinas soando bem perto, até achar alguem que o
soccorresse, ja de madrugada. Desde então, traumatizado, evita sahir
sozinho. Na verdade, não foi a primeira vez que Archer soffrera abuso de
jovens, pois no mesmo trajecto tinha sido alvo de pegadinhas armadas por
motoristas practicantes de rachas nocturnos, que estacionavam os carros
na sua frente e acceleravam repentinamente para assustal-o, tirando
sarro de sua insegurança, segundo materia de 2014 no jornal ULSTER
HERALD.
Alguns casos, independentemente da gravidade, parescem até anecdoticos
si contados por ou para pessoas bem humoradas, como estas recorrentes
situações conjugaes.
A simples manchette postada num blog chamado MAJANGAA em 2014 ja soa
como piada: "Homem batte em cego depois de fazer sexo com sua esposa". O
cego, chamado Emmanuel Kamoto, prestou queixa contra o vizinho Watmore
Chinyamakovho e pediu indemnização porque o outro se approveitou da sua
cegueira para dormir com sua esposa. Ella e o amante se communicavam por
signaes de maneira que o cego não notasse que o vizinho frequentava sua
casa a fim de corneal-o. Quando descobriu que era chifrado, Kamoto quiz
tomar satisfacções do outro, mas foi physica e verbalmente abusado por
Chinyamakovho, ou, por outras palavras, levou corno e couro, chifre e
chiste. Até o primo do amante apparesceu para adjudar a zoar o cego.
Perante a justiça, o amante limitou-se a negar as accusações, ao que o
tribunal limitou-se a prohibir Chinyamakovho de continuar visitando o
casal. Nada se commentou sobre a attitude da esposa, que provavelmente
se encarregou de espalhar a fofoca e incrementar a fama do marido
trouxa.
Neste outro caso, postado por um anonymo em 2009, a mulher trintona
chamada Maria Nangolo trocou o septentão marido cego Gerd Kali por outro
edoso, depois de abusar do velho companheiro por mais de um anno. Ella
deixava o marido trancado e sem comida emquanto sahia para ser comida
pelo amante, com quem ficava bebendo e gandaiando, segundo o testemunho
dos vizinhos. O cego appanhava della, quando voltava bebada, e ainda
ficava sem comer, si ella nada lhe preparasse. Os vizinhos chegavam a
passar comida ao cego pela janella, quando elle gritava que tinha fome.
Mas, na presença da esposa, elle dizia às visitas que era bem tractado,
mesmo estando sem banho por varios dias. Perante as auctoridades, o cego
declarou que amava a esposa e esta declarou que, pelo contrario, ella é
que appanhava delle, tornando-se obvio que Kali temia ser abandonado ou
castigado caso entregasse a mulher. Quanto ao amante, naturalmente
allegou que seu relacionamento com ella não passava de pura amizade,
mesmo que dormissem na mesma cama emquanto o cego dormia em outra... ou
emquanto o cego ficava accordado e de ouvido attento.
Tambem chama a attenção o caso dum cego cincoentão de nome Rick, que
perdeu a visão depois de ter chegado a boa situação financeira mas,
desde então, decahiu no poder acquisitivo e na qualidade de vida. A
companheira, com quem vivia sem filhos ja por duas decadas, tornou-se
verdadeiro demonio a partir da perda visual de Rick, que passou a
cumprir o que ella determinava. Era obrigado a levantar da cama às cinco
da manhan e passava o dia ouvindo os gritos della, exigindo obediencia
como si lidasse com um alumno relapso. Quando Rick tentou abandonal-a,
ella admeaçou denuncial-o à policia por violencia domestica. Temendo não
ser capaz de se virar sozinho, Rick tornou-se dependente da companheira
a poncto de supportar quaesquer humilhações, segundo materia postada num
forum virtual. Quem postou não esclaresce si a mulher trahia o cego com
outros namorados, mas as suspeitas não deixam de pairar...
Outros casos são francamente comicos, si não fossem tragicos, como este,
tambem occorrido na Inglaterra, onde o cego Colin Farmer foi attingido
por disparos duma arma de choques electricos typo "taser" só porque não
attendeu à ordem dum policial para que parasse onde estava. Caminhando
lentamente com auxilio da bengala, elle foi confundido com outro homem
que, segundo a versão da policia, portava uma espada de samurai, por
incrivel que paresça, ou por má intenção do policial. Alguem denunciara
à policia que teria visto um suspeito portando a dicta espada, e o cego
foi interceptado como sendo tal suspeito. Achando que o grito de "stop"
não fosse dirigido a elle, Farmer não interrompeu o passo e foi jogado
ao chão ao receber o disparo paralysante pelas costas, segundo materia
postada em 2013.
Voltando à estupidez de quem creou o dia da visão, encerro o meu libello
de hoje com este singello motte glosado. Até mais ver!
Vejo o Dia da Visão
como cada admanhescer.
Kalendarios não serão
para todos o bastante:
sem vantagens que alguem cante
vejo o Dia da Visão.
Para o cego, algum tesão
só terá quem vê prazer
em gozar podendo ver.
Quem seus olhos ja perdeu
não vê nada sinão breu
como cada admanhescer.
///
sábado, 3 de outubro de 2015
SEPTEMBRO/2015: O VELHO MORREU DO SEGURO
Paresce brincadeira! Si você consultar meia duzia de almanachs, achará
meia duzia de datas differentes para o "Dia do Edoso"! Isso me lembra um
apposentado que peregrina de hospital em hospital, ou de pharmacia em
pharmacia, em busca dum attendimento ou dum remedio que ninguem tem para
lhe offerescer!
Quando os Beatles ainda estavam na casa dos vinte e alguma coisa, lhes
parescia muito velho alguem que tivesse passado dos sessenta. Por
signal, a propria geração hippie tinha como um de seus lemmas "Não
confie em ninguem com mais de trinta annos". Não era de extranhar que,
reapproveitando phrases correntes no cancioneiro rockeiro, tenham
gravado "When I'm 64" imitando arranjo de canção dos tempos do
grammophone. Ironicamente, Paul, auctor da canção, ja passou dos
septenta e se acha moleque o sufficiente para seguir na estrada, show
apoz show. Isso me anima a commemorar meus 64 (completados em junho) com
algum optimismo em termos de disposição physica, não de respeito ou
consideração, que são expectativas muito pretensiosas para um cego
terceirizado, digo, na terceira edade.
Isto posto, passemos a alguns poemas allusivos: um sonnetto, um madrigal
e um motte glosado. Até outubro, e que nos cruzemos por muitos outubros
mais!
DIA DO EDOSO [4754]
Segundo a millennar sabedoria
judaica, envelhescer não é problema.
"Não seja catastrophico! Não tema!"
Assim diz o rabbino, e sentencia:
"É tempo de colher o que se havia
plantado...", explica o sabio. O estratagema
funcciona quasi sempre, mas o thema
afflige aquella typica judia.
Nervosa, apprehensiva, ella compara
seu caso ao do habitante do deserto,
logar onde ninguem jamais plantara...
Responde-lhe o rabbino: "Mas, bem perto
dalli, na terra fertil, minha cara
senhora, quem plantou colher quiz, certo?"
MADRIGAL PATRIARCHAL
O velho patriarcha ainda dá
as ordens, mas ninguem o escuta, ja.
De surdo se faz, quando lhe interessa,
e em tudo se intromette, diz o neto.
O filho ouvil-o finge, mas tem pressa
e logo sae de perto. Sem affecto,
o avô só quer que alguem bençam lhe peça,
mas todos são atheus, hoje, elle excepto.
MOTTE GLOSADO
Reis cantou: Panella velha
é que faz comida boa.
Si uma "edosa" nos pentelha,
é ranzinza e rabugenta,
mas de quem tem seus sessenta
Reis cantou: "Panella velha..."
Si em seu dia a tal se espelha
e decide ser pessoa
respeitavel, tenta à toa.
Nem na cama um cabra a approva,
pois mulher, quanto mais nova,
é que faz comida boa.
///
meia duzia de datas differentes para o "Dia do Edoso"! Isso me lembra um
apposentado que peregrina de hospital em hospital, ou de pharmacia em
pharmacia, em busca dum attendimento ou dum remedio que ninguem tem para
lhe offerescer!
Quando os Beatles ainda estavam na casa dos vinte e alguma coisa, lhes
parescia muito velho alguem que tivesse passado dos sessenta. Por
signal, a propria geração hippie tinha como um de seus lemmas "Não
confie em ninguem com mais de trinta annos". Não era de extranhar que,
reapproveitando phrases correntes no cancioneiro rockeiro, tenham
gravado "When I'm 64" imitando arranjo de canção dos tempos do
grammophone. Ironicamente, Paul, auctor da canção, ja passou dos
septenta e se acha moleque o sufficiente para seguir na estrada, show
apoz show. Isso me anima a commemorar meus 64 (completados em junho) com
algum optimismo em termos de disposição physica, não de respeito ou
consideração, que são expectativas muito pretensiosas para um cego
terceirizado, digo, na terceira edade.
Isto posto, passemos a alguns poemas allusivos: um sonnetto, um madrigal
e um motte glosado. Até outubro, e que nos cruzemos por muitos outubros
mais!
DIA DO EDOSO [4754]
Segundo a millennar sabedoria
judaica, envelhescer não é problema.
"Não seja catastrophico! Não tema!"
Assim diz o rabbino, e sentencia:
"É tempo de colher o que se havia
plantado...", explica o sabio. O estratagema
funcciona quasi sempre, mas o thema
afflige aquella typica judia.
Nervosa, apprehensiva, ella compara
seu caso ao do habitante do deserto,
logar onde ninguem jamais plantara...
Responde-lhe o rabbino: "Mas, bem perto
dalli, na terra fertil, minha cara
senhora, quem plantou colher quiz, certo?"
MADRIGAL PATRIARCHAL
O velho patriarcha ainda dá
as ordens, mas ninguem o escuta, ja.
De surdo se faz, quando lhe interessa,
e em tudo se intromette, diz o neto.
O filho ouvil-o finge, mas tem pressa
e logo sae de perto. Sem affecto,
o avô só quer que alguem bençam lhe peça,
mas todos são atheus, hoje, elle excepto.
MOTTE GLOSADO
Reis cantou: Panella velha
é que faz comida boa.
Si uma "edosa" nos pentelha,
é ranzinza e rabugenta,
mas de quem tem seus sessenta
Reis cantou: "Panella velha..."
Si em seu dia a tal se espelha
e decide ser pessoa
respeitavel, tenta à toa.
Nem na cama um cabra a approva,
pois mulher, quanto mais nova,
é que faz comida boa.
///
sábado, 29 de agosto de 2015
AGOSTO/2015: EM DESSERVIÇO DA DESUNIDADE
Ja externei minha raiva dos que propõem datas baptizadas de forma muito
prolixa, mas existe um outro typo de inutilidade commemorativa: coisas
genericas demais, obvias demais, implicitas demais, ou, por outro
angulo, hypocritas demais, vale dizer, completamente desnecessarias. Em
agosto, por exemplo, temos um raio de "Dia da Unidade Humana", que,
segundo o palavreado oco, typico dos discursos politicos, remette à
diversidade cultural e, ao mesmo tempo, à egualdade entre todos os
habitantes do planeta. Ora, vão lamber sabão! O dia da confraternização
universal, em primeiro de janeiro, ja não seria sufficiente? E as varias
datas allusivas à raça ou contra a discriminação? Não fazem effeito? Si
fazem, para que mais uma? Si não fazem, para que perder tempo?
Não dá impressão de que ja existe o Dia da Chuva no Molhado e o Dia do
Dia Nublado? Do Dia do Dia Ensolarado ja nem fallo, pois seria pleonasmo
astrologico, né?
Taes besteiras se equiparam, typo Dia do Humanismo, Dia Humanitario, Dia
da Conscientização Nacional ou Dia da Comprehensão Mundial. Ja não
bastam os dias mundial e nacional dos direitos humanos, em differentes
mezes?
Quando me deparo com datas tão inconsistentes, penso logo no Dia da
População Terrestre, no Dia do Planeta Terra, no Dia do Kosmo e no Dia
do Infinito. Como naquella parlenda infantil: "Viva eu! Viva tudo! Viva
o Chico Barrigudo!" Ah, e não é que existe até o Dia do Disco Voador?
Esse pelo menos é bem-humorado e suggere abducções em massa de
convidados terraqueos às festividades marcianas...
Mas, só para voltar ao tal Dia da Unidade Humana, fiz questão de glosar
um motte para a occasião, que segue abbaixo, juncto com um madrigal. E
por hoje chega, que ja estamos viajando demais pelo espaço sideral, o
qual, aliaz, tambem tem seu dia...
MADRIGAL SIDERAL
Poeta que ouve estrellas sabe bem
aquillo que, do espaço até nós, vem.
Um disco voador signaes emitte
que apenas os poetas teem o dom
de ouvir. De apenas ver e dar palpite
tem dom qualquer ufologo. Ouço com
certeza, pois sou cego, e meu limite
é o fim do proprio kosmo, o escuro tom.
Affirmo, pois, euphorico e de bom
humor, que são verdinhos, sim, os taes
etês, ou marcianos, cujo som
eu capto com clareza, ainda mais
si rock estou ouvindo: um do Elton John
transmitte (o do astronauta) alguns signaes.
MOTTE GLOSADO
"Unidade Humana" vale
festejarmos o seu dia.
Impossivel que eu não falle
na questão da raça humana,
pois, nem mesmo a quem se ufana,
"Unidade Humana" vale.
Que a natura nos eguale
ja duvido, mas a fria
deducção nos dissocia.
Si, entre cegos, manda um rei
mais "normal", é falso, eu sei,
festejarmos o seu dia.
///
sábado, 1 de agosto de 2015
JULHO/2015 (2ª QUINZENA): VICIO E VIRTUDE NA VIDA DO SONNETTISTA
Os maiores sonnettistas occidentaes (portanto mundiaes, ja que o
sonnetto, ao contrario do macarrão ou do futebol, é uma typica invenção
occidental) não são maiores pelo volume da obra, certamente, pois que a
contam pelas centenas, não pelos milhares de sonnettos, a começar dos
paes da creança: Petrarcha com trez centenas, Camões com duas. No
Brazil, mesmo durante o apogeu parnasiano, a conta não inflaciona alem
do excedido milhar que se attribue a Luiz Delphino, a julgar pelo
balanço do tambem parnasiano Cruz Filho, cuja HISTORIA E THEORIA DO
SONNETTO (que assim rebaptizei apoz annotar criticamente) credita mais
de oito centenas ao arcadico José Maria do Amaral e evita maiores
comparações numericas.
Como ninguem aqui está fallando dos gols de Pelé nem de Friedenreich, a
preoccupação quantitativa só faria sentido si o sonnettista fosse
candidato a uma vaga, não na Academia Brazileira de Lettras, mas no
Guinness Book. Pessoalmente, pilheriei bastante sobre um hypothetico
recorde do genero emquanto, entre 1999 e 2012, compuz alem do quincto
milhar e, mais acintosamente, quando superei os 2.279 sonnettos
compostos pelo italiano Giuseppe Belli no seculo XIX, embora sciente de
que, dentro ou fora do meu proprio paiz, haveria algum maluco que,
anonymo ou não, se fixasse nesse molde ainda mais obsessivamente do que
me fixei.
Ja na epocha (2008) em que eu andava pelos dois milhares, alguem me
fofocou que um certo Jorge Tannuri passava dos quattro. Quando,
finalmente, me "limpei" do vicio, em 2012, elle teria chegado aos seis
milhares e, a menos que battesse as botas, estaria hoje pelos dez. O
mais inaccreditavel nessa historia é que alguem com tamanha bagagem, si
não entrasse para a ABL, teria de ser ao menos commentadissimo na rede
virtual, como eu mesmo fui, ainda que pouquissimo lido... mas Tannuri
não era encontradiço no cyberespaço. Seria um personagem da ficção
internerdica? Só recentemente as buscas deram algum resultado, para meu
allivio, pois eu temia que os boatos fossem alimentados apenas pela
lenda dum auctor quantitativamente productivo mas qualitativamente
inconsistente. Ainda bem que sua versificação se me revelou inteiriça e,
o mais importante de tudo, não era assim tão oca. Não sei por que a
midia especializada, os organizadores de anthologias ou os zineiros e
blogueiros não ventilavam o nome de Tannuri. Publicar, elle publicava,
fosse no formato livro ou folheto. Participar de encontros e debattes
poeticos, que eu saiba, elle participava. Paresce que até fundou uma
Sociedade Litteraria do Sonnetto, que seria a SOLIS, mas a sigla suggere
um isolamento que não sei si chega às proporções do Gremio Recreativo e
Eschola de Samba Eu Sou Mais Eu. Espero que não, mesmo sem ter sido
convidado a me associar, pois sempre achei que o sonnetto precisava de
mais defensores, ja que detractores não lhe faltam.
Agora que me livrei do TOS (transtorno obsessivo sonnettomaniaco), posso
allegar, entre amigos, que isso de recorde é bobagem, ainda que o
proprio Tannuri, ao que me relatam, fizesse questão de superar metas.
Minhas allusões ao assumpto, alem de ironicas, serviam mais para
emphatizar a compulsão sonnettistica como alternativa (no caso do cego
emputescido e puteador) ao suicidio, ao alcoholismo, às drogas, ao jogo
ou, simplesmente, à insomnia e à masturbação. Si eu realmente estivesse
obcecado pelo recorde e dependente dessa insomne addicção, não teria
parado de sonnettar em 2012 nem teria interrompido a producção tantas
vezes para escrever romance, conto, chronica, motte glosado, pelleja ou
tractados estichologicos e orthographicos. Peor, si eu de facto
ambicionasse um logar no pantheão dos campeões de productividade
sonnetifera, minha insomnia não seria causada pela cegueira, mas pela
paranoia de que, em qualquer poncto do paiz, uma Emily Dickinson da
vida, quem sabe la em Florianopolis, em Paraisopolis ou em Petropolis,
tivesse deixado, manuscriptos em calhamaços, mais de dez ou vinte mil
sonnettinhos psychographados, fossem assucarados ou amargurados, para
desbancar Amaral, Delphino, Mattoso ou Tannuri sommados... Credo em
Cruz, Filho!
Voltando ao Jorge, que felizmente não é tão aguado nem mellado quanto o
J. G. de Araujo Jorge, achei delle, si não seus livretos, alguns
exemplos que em nada desmerescem a reputação desse paulistano de 1939
que, radicado no Rio, formou-se pela Eschola Nacional de Engenharia da
Universidade do Brazil (hoje UFRJ) em 1961, especializou-se na França em
1964 e, desde 1976, habituou-se a compor sonnettos, timidamente a
principio e, depois de apposentar-se em 1997, capitulou à mania. Sei bem
como é isso. Mas não é intrigante? Mesmo registrando seus livros na
Bibliotheca Nacional e, ja em 2008, chegando aos cinco mil (emquanto eu
ainda estava nos trez), seus sonnettos não eram divulgados siquer a
poncto de chegarem-me às mãos... O caso de Tannuri me lembra o de outro
profissional da area, Eno Theodoro Wanke, incansavel pesquisador da
trova e tambem sonnettista, que só era bem conhescido em circulos
alternativos, embora tivesse até suas connexões internacionaes.
A que se deve (perguntariam os adeptos da theoria da conspiração) tal
ommissão, ou tal indifferença, ao caso de Tannuri? Seria por causa da
thematica? Mas si até a minha, pornographica em grande parte, não
permanesceu silenciada pelos puristas e puritanos! Ou seria por algum
viez politico, ideologico ou sectario, vale dizer, as inexoraveis
panellinhas e egrejinhas, que vivem a nos patrulhar? Quanto às
egrejinhas, talvez uma pista para o hypothetico boycotte ao Tannuri
fosse sua solidariedade ethnica e ethica ao povo palestino, ao qual
tambem me solidarizei, como no caso do sonnetto "Damnações Unidas" que
offeresci à anthologia POEMAS PARA A PALESTINA, organizada por Claudio
Daniel e Khaled Mahassen. Não sei. Só sei que Tannuri maneja sem pejo a
grammatica, a metrica, a rhyma e, principalmente, a thematica. Si não é
desbragadamente debochado nem despudoradamente fetichista, isso até
deveria ser tido na conta de virtude, por opposição ao vicio que me
estigmatizou como pornographo. Algum mestrando ou doutorando
provavelmente theorizará a respeito, ainda que tarde.
Examinemos, entretanto, o que temos à mão, attendo-nos aos contextos
palestino e brazileiro. Intercalo sonnettos meus aos de Tannuri a fim de
propiciar ao leitor uma base de parallelismo. Depois commentamos.
A HEROICA SAPATADA [Sonnetto 4630 de Jorge Tannuri, em 19/12/2008]
Ao fim dos seus ruinosos dois mandatos,
Resolve o abutre-mor inconsequente,
Chegar até Baghdad, onde seus actos
Deixaram morticinio deprimente...
Um jornalista adverso dos maus tractos
Impostos pelo biltre prepotente
No Irak, direcciona dois sapatos
E o chama de cachorro delinquente...
Na offensa contra o norte-americano,
Mostrou-se bem heroico o mussulmano,
Embora fosse amarga a recompensa
Da sapatada, com prisão, tortura,
Espancamento, abuso de censura
E desrespeito à livre acção da Imprensa.
LANÇAMENTO DE LIVRO [Sonnetto 3886 de Glauco Mattoso, em 17/10/2010]
Sapatos attirar no presidente,
si for americano, é o melhor gesto
de alguem que, revoltado, faz protesto
e, ao vivo, está das cameras na frente.
Mas gesto ainda mais intelligente
é aquelle do escriptor, tão immodesto
a poncto de esperar que o manifesto
lhe renda fama e gloria, de repente:
Seu proprio livro attira (e rente passa
ao rosto do estadista), emquanto a photo
lhe flagra a cappa e a imagem nem embaça.
Em todos os jornaes, depois, eu noto
que ommittem livro e auctor, ja que, de graça,
ninguem faz propaganda nem dá voto.
GAZA [Sonnetto 4635 de Jorge Tannuri, em 31/12/2008].
Que importa democratica victoria
Obtida num pragmatico escrutinio,
Si um povo é dizimado em morticinio
Por manu-militari peremptoria?
Que importa Mahomé, no vaticinio
Da crença mussulmana alcançar gloria,
Si a vida do Hamaz é merencoria
Com Gaza no calvario do exterminio?
Que importa existir ONU quando as guerras
Decretam-se, por ambições de terras
Tramadas pelos credos assassinos?
Que importa haver a Paz, si a humanidade
Condemna à morte e priva a liberdade,
Na patria dos heroicos palestinos?
SEMITA [Sonnetto 854 de Glauco Mattoso, em 28/8/2003]
"Shalom!" traduz "Salam!": todo opprimido
é primo do oppressor, com quem apprende
a lingua de quem compra e de quem vende
petroleo ou arma, a seita ou o partido.
Mais tempo a guerra aos bancos tem servido,
mais rende, emquanto a morte não se rende
à vida. Quando, emfim, alguem desvende
o enigma, já estará tudo perdido.
Salim e Salomão, Thorah e Corão.
Caim cahiu, e Abel é bellicista.
Javeh propoz, shiitas disporão.
Na areia, cada gotta é uma conquista.
Diluvios racionaram cada grão.
Divisa é linha. A paz, poncto de vista.
O VERO EIXO DO MAL [Sonnetto 4638 de Jorge Tannuri, em 2/1/2009]
Um eixo, para o mal, antes citado
Por Bush, o criminoso costumeiro,
No seu papel de estupido guerreiro,
Não teve seu perjurio comprovado...
Um vinculo deveras destinado
À morte, se appresenta sorrateiro,
Com Tel-aviv e Washington, certeiro
Em dizimar quem seja de outro lado...
Na ONU com o seu poder de veto,
Os norte-americanos dão concreto
Appoio contra a causa palestina
E as armas de Israel vão destroçando
Escholas, hospitaes, gente... em nefando
Terror que desaccapta a lei divina.
DAMNAÇÕES UNIDAS [Sonnetto 4713 de Glauco Mattoso, em 25/9/2011]
Questão controvertida! A Palestina
estado quer tornar-se. Tem direito,
é claro. Um bom accordo estava acceito
entre arabe e judeu, não fosse a mina.
A mina, subterranea, sibyllina,
symbolica, que impede esse perfeito
accordo, é o interesse do subjeito
que está, não la, nem perto, nem na China.
Quem mella qualquer chance de fronteira
commum haver alli, tem seu quartel
num banco americano, é o que me cheira.
Não só: tambem está botando fel
nas aguas, no petroleo, e vae à feira
vender metralhadora ao coronel.
HA... [Sonnetto 3850 de Jorge Tannuri, em 24/5/2006]
Ha récordes de imposto arrecadado
E o povo sobrevive na inquietude...
Ha nullo attendimento na Saude
E o pão de cada dia está minguado...
Ha tempos, o governo nos illude,
Mentindo ser precioso o resultado,
Mas só num raciocinio retardado
Cae bem esta banal similitude...
Ha pantanos nos leitos das estradas,
Ha escholas que estão sendo abandonadas
E o ensigno se degrada por inteiro...
Ha crime organizado e insegurança...
E deante desta homerica lambança,
Pergunta-se onde vae tanto dinheiro.
REDUNDANTE [Sonnetto 190 de Glauco Mattoso, em 1999]
Pediram-me um escandalo, e é p'ra ja.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modello, que é postiço,
tambem ja não excita a lingua má.
A droga nas escholas? Ninguem dá
a minima importancia ao desserviço.
Sequestro de empresario? Algum sumiço?
Remedio adulterado? Qua! Qua! Qua!
A fraude eleitoral virou roptina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguem extranha o cheiro da latrina.
Até Mathusalem ja tem orgasmo!
Só resta a commentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!
Dirão os adeptos do rigor estichologico que, à primeira e superficial
leitura, tudo paresce fluir bem nos versos tannurianos. Os decasyllabos,
quasi todos heroicos, estão regularmente metrificados, rhymados e
rhythmados. Mais attentamente observando, comtudo, verificarão que as
rhymas são, por vezes, pauperrimas: no sonnetto 4630 de Tannuri, quattro
substantivos dão versos graves em "atos", quattro adjectivos em "ente",
mais dois adjectivos em "ano", dois substantivos em "ura" e dois em
"ensa". A syntaxe delle, telegraphica, caresceria de artigos e
conjuncções que alliviassem a juxtaposição de tantos substantivos e
adjectivos. Emfim, o effeito essencialmente poetico, que deveria ser
obtido por meio das figurações metaphoricas ou anastrophicas mais
typicas do discurso sonnettistico, deixa, diriam, a desejar, ficando
apenas a impressão de obviedade simploria, aggravada pela ordem directa,
fria e secca. Isso para não fallarem na sisudez casmurra, na ausencia
total de ironia, sarcasmo, emfim, senso de humor. Quanto a mim, que
nunca estou livre de criticas, dirão que tambem no sonnetto 190 as
rhymas dos tercettos são pobres, que tambem commetto ellipses
asyndeticas, e tal. Mas são os leitores que vão dizer si meus versos
teem a cara do Mattoso e si os de Tannuri teem cara só delle.
Technicamente considerando, segundo os mais zelosos, os sonnettos de
Tannuri seriam correctos. Poeticamente, porem, nem tanto. Ahi alguem
poderá dizer que quaesquer sonnettos, de todos os auctores (inclusive os
meus) incorreriam nos mesmos lapsos, uns mais, outros menos relapsos. De
certo modo, sim. Em milhares de versos, por exemplo, fatalmente algumas
rhymas mais recorrentes accabam por banalizar-se. Uns tantos logares
communs, à força de reiteradamente empregados, desgastam o estylo e
causam aquella monotona e tediosa impressão de autoplagio ao fim da
leitura de poucas centenas de estrophes. Até Camões padesce de taes
vicios durante a extensa jornada dos LUSIADAS. Mas cada poeta acha seu
trunfo num estylema especial, numa "assignatura" discursiva pessoal,
numa "tara" verbal particular, propria ou figuradamente fallando, que
lhe "salva" a originalidade da composição, e Tannuri paresce resentir-se
da falta dessa marca registrada. Um sonnetto seu poderia ser
impessoalmente attribuido a qualquer outro auctor do genero, desses que
pullulam obscuramente pelas anthologias, sem que ninguem desse pela
coisa. Por essas e outras é que, alem do meu linguajar promiscuamente
chulo e prophanamente castiço, faço questão de orthographar meus versos,
tal como reorthographei os de Tannuri aqui exemplificados. E você,
leitor, seria capaz de confundir um deca delle com um meu? Peor que sim,
alguem dirá que confundiu. E agora, Pedro José?
Si serve de consolo, não morri da sonnettomania que accompanharia ao
sepulchro a mediunica senhorinha de Petropolis ou o hyperactivo
engenheiro apposentado, pois o cego puto, debattendo-se entre a
insomnia, o pesadelo e a phantasia masturbatoria, appegar-se-a
desesperadamente ao motte glosado, ao madrigal, ao conto, ao romance ou
ao ensaio, quando não ao buddhismo, ao fakirismo ou à automassagem
linguopedal contorcionistica, a fim de preencher seus ultimos estertores
antes do derradeiro suspiro... Ufa!
///
sonnetto, ao contrario do macarrão ou do futebol, é uma typica invenção
occidental) não são maiores pelo volume da obra, certamente, pois que a
contam pelas centenas, não pelos milhares de sonnettos, a começar dos
paes da creança: Petrarcha com trez centenas, Camões com duas. No
Brazil, mesmo durante o apogeu parnasiano, a conta não inflaciona alem
do excedido milhar que se attribue a Luiz Delphino, a julgar pelo
balanço do tambem parnasiano Cruz Filho, cuja HISTORIA E THEORIA DO
SONNETTO (que assim rebaptizei apoz annotar criticamente) credita mais
de oito centenas ao arcadico José Maria do Amaral e evita maiores
comparações numericas.
Como ninguem aqui está fallando dos gols de Pelé nem de Friedenreich, a
preoccupação quantitativa só faria sentido si o sonnettista fosse
candidato a uma vaga, não na Academia Brazileira de Lettras, mas no
Guinness Book. Pessoalmente, pilheriei bastante sobre um hypothetico
recorde do genero emquanto, entre 1999 e 2012, compuz alem do quincto
milhar e, mais acintosamente, quando superei os 2.279 sonnettos
compostos pelo italiano Giuseppe Belli no seculo XIX, embora sciente de
que, dentro ou fora do meu proprio paiz, haveria algum maluco que,
anonymo ou não, se fixasse nesse molde ainda mais obsessivamente do que
me fixei.
Ja na epocha (2008) em que eu andava pelos dois milhares, alguem me
fofocou que um certo Jorge Tannuri passava dos quattro. Quando,
finalmente, me "limpei" do vicio, em 2012, elle teria chegado aos seis
milhares e, a menos que battesse as botas, estaria hoje pelos dez. O
mais inaccreditavel nessa historia é que alguem com tamanha bagagem, si
não entrasse para a ABL, teria de ser ao menos commentadissimo na rede
virtual, como eu mesmo fui, ainda que pouquissimo lido... mas Tannuri
não era encontradiço no cyberespaço. Seria um personagem da ficção
internerdica? Só recentemente as buscas deram algum resultado, para meu
allivio, pois eu temia que os boatos fossem alimentados apenas pela
lenda dum auctor quantitativamente productivo mas qualitativamente
inconsistente. Ainda bem que sua versificação se me revelou inteiriça e,
o mais importante de tudo, não era assim tão oca. Não sei por que a
midia especializada, os organizadores de anthologias ou os zineiros e
blogueiros não ventilavam o nome de Tannuri. Publicar, elle publicava,
fosse no formato livro ou folheto. Participar de encontros e debattes
poeticos, que eu saiba, elle participava. Paresce que até fundou uma
Sociedade Litteraria do Sonnetto, que seria a SOLIS, mas a sigla suggere
um isolamento que não sei si chega às proporções do Gremio Recreativo e
Eschola de Samba Eu Sou Mais Eu. Espero que não, mesmo sem ter sido
convidado a me associar, pois sempre achei que o sonnetto precisava de
mais defensores, ja que detractores não lhe faltam.
Agora que me livrei do TOS (transtorno obsessivo sonnettomaniaco), posso
allegar, entre amigos, que isso de recorde é bobagem, ainda que o
proprio Tannuri, ao que me relatam, fizesse questão de superar metas.
Minhas allusões ao assumpto, alem de ironicas, serviam mais para
emphatizar a compulsão sonnettistica como alternativa (no caso do cego
emputescido e puteador) ao suicidio, ao alcoholismo, às drogas, ao jogo
ou, simplesmente, à insomnia e à masturbação. Si eu realmente estivesse
obcecado pelo recorde e dependente dessa insomne addicção, não teria
parado de sonnettar em 2012 nem teria interrompido a producção tantas
vezes para escrever romance, conto, chronica, motte glosado, pelleja ou
tractados estichologicos e orthographicos. Peor, si eu de facto
ambicionasse um logar no pantheão dos campeões de productividade
sonnetifera, minha insomnia não seria causada pela cegueira, mas pela
paranoia de que, em qualquer poncto do paiz, uma Emily Dickinson da
vida, quem sabe la em Florianopolis, em Paraisopolis ou em Petropolis,
tivesse deixado, manuscriptos em calhamaços, mais de dez ou vinte mil
sonnettinhos psychographados, fossem assucarados ou amargurados, para
desbancar Amaral, Delphino, Mattoso ou Tannuri sommados... Credo em
Cruz, Filho!
Voltando ao Jorge, que felizmente não é tão aguado nem mellado quanto o
J. G. de Araujo Jorge, achei delle, si não seus livretos, alguns
exemplos que em nada desmerescem a reputação desse paulistano de 1939
que, radicado no Rio, formou-se pela Eschola Nacional de Engenharia da
Universidade do Brazil (hoje UFRJ) em 1961, especializou-se na França em
1964 e, desde 1976, habituou-se a compor sonnettos, timidamente a
principio e, depois de apposentar-se em 1997, capitulou à mania. Sei bem
como é isso. Mas não é intrigante? Mesmo registrando seus livros na
Bibliotheca Nacional e, ja em 2008, chegando aos cinco mil (emquanto eu
ainda estava nos trez), seus sonnettos não eram divulgados siquer a
poncto de chegarem-me às mãos... O caso de Tannuri me lembra o de outro
profissional da area, Eno Theodoro Wanke, incansavel pesquisador da
trova e tambem sonnettista, que só era bem conhescido em circulos
alternativos, embora tivesse até suas connexões internacionaes.
A que se deve (perguntariam os adeptos da theoria da conspiração) tal
ommissão, ou tal indifferença, ao caso de Tannuri? Seria por causa da
thematica? Mas si até a minha, pornographica em grande parte, não
permanesceu silenciada pelos puristas e puritanos! Ou seria por algum
viez politico, ideologico ou sectario, vale dizer, as inexoraveis
panellinhas e egrejinhas, que vivem a nos patrulhar? Quanto às
egrejinhas, talvez uma pista para o hypothetico boycotte ao Tannuri
fosse sua solidariedade ethnica e ethica ao povo palestino, ao qual
tambem me solidarizei, como no caso do sonnetto "Damnações Unidas" que
offeresci à anthologia POEMAS PARA A PALESTINA, organizada por Claudio
Daniel e Khaled Mahassen. Não sei. Só sei que Tannuri maneja sem pejo a
grammatica, a metrica, a rhyma e, principalmente, a thematica. Si não é
desbragadamente debochado nem despudoradamente fetichista, isso até
deveria ser tido na conta de virtude, por opposição ao vicio que me
estigmatizou como pornographo. Algum mestrando ou doutorando
provavelmente theorizará a respeito, ainda que tarde.
Examinemos, entretanto, o que temos à mão, attendo-nos aos contextos
palestino e brazileiro. Intercalo sonnettos meus aos de Tannuri a fim de
propiciar ao leitor uma base de parallelismo. Depois commentamos.
A HEROICA SAPATADA [Sonnetto 4630 de Jorge Tannuri, em 19/12/2008]
Ao fim dos seus ruinosos dois mandatos,
Resolve o abutre-mor inconsequente,
Chegar até Baghdad, onde seus actos
Deixaram morticinio deprimente...
Um jornalista adverso dos maus tractos
Impostos pelo biltre prepotente
No Irak, direcciona dois sapatos
E o chama de cachorro delinquente...
Na offensa contra o norte-americano,
Mostrou-se bem heroico o mussulmano,
Embora fosse amarga a recompensa
Da sapatada, com prisão, tortura,
Espancamento, abuso de censura
E desrespeito à livre acção da Imprensa.
LANÇAMENTO DE LIVRO [Sonnetto 3886 de Glauco Mattoso, em 17/10/2010]
Sapatos attirar no presidente,
si for americano, é o melhor gesto
de alguem que, revoltado, faz protesto
e, ao vivo, está das cameras na frente.
Mas gesto ainda mais intelligente
é aquelle do escriptor, tão immodesto
a poncto de esperar que o manifesto
lhe renda fama e gloria, de repente:
Seu proprio livro attira (e rente passa
ao rosto do estadista), emquanto a photo
lhe flagra a cappa e a imagem nem embaça.
Em todos os jornaes, depois, eu noto
que ommittem livro e auctor, ja que, de graça,
ninguem faz propaganda nem dá voto.
GAZA [Sonnetto 4635 de Jorge Tannuri, em 31/12/2008].
Que importa democratica victoria
Obtida num pragmatico escrutinio,
Si um povo é dizimado em morticinio
Por manu-militari peremptoria?
Que importa Mahomé, no vaticinio
Da crença mussulmana alcançar gloria,
Si a vida do Hamaz é merencoria
Com Gaza no calvario do exterminio?
Que importa existir ONU quando as guerras
Decretam-se, por ambições de terras
Tramadas pelos credos assassinos?
Que importa haver a Paz, si a humanidade
Condemna à morte e priva a liberdade,
Na patria dos heroicos palestinos?
SEMITA [Sonnetto 854 de Glauco Mattoso, em 28/8/2003]
"Shalom!" traduz "Salam!": todo opprimido
é primo do oppressor, com quem apprende
a lingua de quem compra e de quem vende
petroleo ou arma, a seita ou o partido.
Mais tempo a guerra aos bancos tem servido,
mais rende, emquanto a morte não se rende
à vida. Quando, emfim, alguem desvende
o enigma, já estará tudo perdido.
Salim e Salomão, Thorah e Corão.
Caim cahiu, e Abel é bellicista.
Javeh propoz, shiitas disporão.
Na areia, cada gotta é uma conquista.
Diluvios racionaram cada grão.
Divisa é linha. A paz, poncto de vista.
O VERO EIXO DO MAL [Sonnetto 4638 de Jorge Tannuri, em 2/1/2009]
Um eixo, para o mal, antes citado
Por Bush, o criminoso costumeiro,
No seu papel de estupido guerreiro,
Não teve seu perjurio comprovado...
Um vinculo deveras destinado
À morte, se appresenta sorrateiro,
Com Tel-aviv e Washington, certeiro
Em dizimar quem seja de outro lado...
Na ONU com o seu poder de veto,
Os norte-americanos dão concreto
Appoio contra a causa palestina
E as armas de Israel vão destroçando
Escholas, hospitaes, gente... em nefando
Terror que desaccapta a lei divina.
DAMNAÇÕES UNIDAS [Sonnetto 4713 de Glauco Mattoso, em 25/9/2011]
Questão controvertida! A Palestina
estado quer tornar-se. Tem direito,
é claro. Um bom accordo estava acceito
entre arabe e judeu, não fosse a mina.
A mina, subterranea, sibyllina,
symbolica, que impede esse perfeito
accordo, é o interesse do subjeito
que está, não la, nem perto, nem na China.
Quem mella qualquer chance de fronteira
commum haver alli, tem seu quartel
num banco americano, é o que me cheira.
Não só: tambem está botando fel
nas aguas, no petroleo, e vae à feira
vender metralhadora ao coronel.
HA... [Sonnetto 3850 de Jorge Tannuri, em 24/5/2006]
Ha récordes de imposto arrecadado
E o povo sobrevive na inquietude...
Ha nullo attendimento na Saude
E o pão de cada dia está minguado...
Ha tempos, o governo nos illude,
Mentindo ser precioso o resultado,
Mas só num raciocinio retardado
Cae bem esta banal similitude...
Ha pantanos nos leitos das estradas,
Ha escholas que estão sendo abandonadas
E o ensigno se degrada por inteiro...
Ha crime organizado e insegurança...
E deante desta homerica lambança,
Pergunta-se onde vae tanto dinheiro.
REDUNDANTE [Sonnetto 190 de Glauco Mattoso, em 1999]
Pediram-me um escandalo, e é p'ra ja.
Malversação de fundos? Nada disso.
O seio da modello, que é postiço,
tambem ja não excita a lingua má.
A droga nas escholas? Ninguem dá
a minima importancia ao desserviço.
Sequestro de empresario? Algum sumiço?
Remedio adulterado? Qua! Qua! Qua!
A fraude eleitoral virou roptina.
As contas no exterior não causam pasmo.
Ninguem extranha o cheiro da latrina.
Até Mathusalem ja tem orgasmo!
Só resta a commentar, em cada esquina,
que o cego é chupa-rola... Um pleonasmo!
Dirão os adeptos do rigor estichologico que, à primeira e superficial
leitura, tudo paresce fluir bem nos versos tannurianos. Os decasyllabos,
quasi todos heroicos, estão regularmente metrificados, rhymados e
rhythmados. Mais attentamente observando, comtudo, verificarão que as
rhymas são, por vezes, pauperrimas: no sonnetto 4630 de Tannuri, quattro
substantivos dão versos graves em "atos", quattro adjectivos em "ente",
mais dois adjectivos em "ano", dois substantivos em "ura" e dois em
"ensa". A syntaxe delle, telegraphica, caresceria de artigos e
conjuncções que alliviassem a juxtaposição de tantos substantivos e
adjectivos. Emfim, o effeito essencialmente poetico, que deveria ser
obtido por meio das figurações metaphoricas ou anastrophicas mais
typicas do discurso sonnettistico, deixa, diriam, a desejar, ficando
apenas a impressão de obviedade simploria, aggravada pela ordem directa,
fria e secca. Isso para não fallarem na sisudez casmurra, na ausencia
total de ironia, sarcasmo, emfim, senso de humor. Quanto a mim, que
nunca estou livre de criticas, dirão que tambem no sonnetto 190 as
rhymas dos tercettos são pobres, que tambem commetto ellipses
asyndeticas, e tal. Mas são os leitores que vão dizer si meus versos
teem a cara do Mattoso e si os de Tannuri teem cara só delle.
Technicamente considerando, segundo os mais zelosos, os sonnettos de
Tannuri seriam correctos. Poeticamente, porem, nem tanto. Ahi alguem
poderá dizer que quaesquer sonnettos, de todos os auctores (inclusive os
meus) incorreriam nos mesmos lapsos, uns mais, outros menos relapsos. De
certo modo, sim. Em milhares de versos, por exemplo, fatalmente algumas
rhymas mais recorrentes accabam por banalizar-se. Uns tantos logares
communs, à força de reiteradamente empregados, desgastam o estylo e
causam aquella monotona e tediosa impressão de autoplagio ao fim da
leitura de poucas centenas de estrophes. Até Camões padesce de taes
vicios durante a extensa jornada dos LUSIADAS. Mas cada poeta acha seu
trunfo num estylema especial, numa "assignatura" discursiva pessoal,
numa "tara" verbal particular, propria ou figuradamente fallando, que
lhe "salva" a originalidade da composição, e Tannuri paresce resentir-se
da falta dessa marca registrada. Um sonnetto seu poderia ser
impessoalmente attribuido a qualquer outro auctor do genero, desses que
pullulam obscuramente pelas anthologias, sem que ninguem desse pela
coisa. Por essas e outras é que, alem do meu linguajar promiscuamente
chulo e prophanamente castiço, faço questão de orthographar meus versos,
tal como reorthographei os de Tannuri aqui exemplificados. E você,
leitor, seria capaz de confundir um deca delle com um meu? Peor que sim,
alguem dirá que confundiu. E agora, Pedro José?
Si serve de consolo, não morri da sonnettomania que accompanharia ao
sepulchro a mediunica senhorinha de Petropolis ou o hyperactivo
engenheiro apposentado, pois o cego puto, debattendo-se entre a
insomnia, o pesadelo e a phantasia masturbatoria, appegar-se-a
desesperadamente ao motte glosado, ao madrigal, ao conto, ao romance ou
ao ensaio, quando não ao buddhismo, ao fakirismo ou à automassagem
linguopedal contorcionistica, a fim de preencher seus ultimos estertores
antes do derradeiro suspiro... Ufa!
///
JULHO/2015 (1ª QUINZENA): MONSTROS SAGRADOS E MESTRES DESSACRALIZADOS
Poucos mezes attraz, o appresentador do programma nocturno da radio
Estadão (si não me enganno, o proprio Emmanuel Bomfim, optimo como
sempre em seu personalissimo estylo "queixo cahido") entrevistava um fan
do Michael Jackson, de cujo nome não me lembro, nem do motivo da
entrevista. Mas o cara parescia saber tudo da vida do Michael, pois
resaltou inclusive o vanguardismo dos videoclips produzidos para as
faixas do album THRILLER, impeccaveis exemplos da arte a serviço do
showbiz. A certa altura, o entrevistado confessou que, si o Michael
acconselhasse seus fans a puxar fumo, elle seria o primeiro a admittir o
uso da maconha, fiel seguidor que era. Fiquei ouvindo, interessado e
curioso pelo que viria a seguir, mas, quando o cara tentou explicar por
que o Michael era "superior" a Stevie Wonder, não pude deixar de rir.
Pensei commigo: a unica vantagem do Jackson sobre o Wonder é que um
sabia dansar e outro não pode. No mais, a comparação é descabida.
Michael Jackson não passa dum astro pop, um mytho midiatico. Suas
canções, deschartado o appello choreographico, são automaticas e
monotonas, ao contrario da consistencia e da variedade do repertorio de
Stevie Wonder, este sim, um expoente do soul e de generos affins. Mal
comparando, seria o mesmo que ouvir dum fan do Chubby Checker que seu
idolo é melhor que Fats Domino, ou dum fan de Andy Kim que este supera
Neil Diamond. Pessoalmente, ouço todos, mas não inverto as posições.
Mas fanatismo é isso mesmo. Qualquer argumento vale como pretexto para
defender a "primazia" dum idolo sobre os idolos alheios. Detalhe: curto
Stevie Wonder, mas elle não é meu maior idolo na praia da negritude
sonora. Prefiro Wilson Pickett. Nenhum dos citados, aliaz, seria
exactamente um idolo do rock. O proprio Elvis Presley, analysado
friamente, tem pequena parcella de seu repertorio verdadeiramente ligada
ao rock. Quanto aos Beatles, admitto: sou beatlemaniaco, mas isso nem é
signal de fanatismo e sim mera attitude padrão, commum a todos que
accompanharam attentamente a historia do rock, que começa cincoentista e
termina oitentista. Fanatismo, propriamente dicto, é curtir bandas
"discipulas" até mais que as matrizes, como os Raspberries, a Electric
Light Orchestra, o Badfinger ou o Tomorrow em relação aos Beatles, ou
mesmo as New York Dolls em relação aos Rolling Stones. Desnecessario
lembrar que as torcidas de Stones e Beatles ja rivalizaram como
corinthianos e sampaulinos.
Citar o Tomorrow vem a proposito, pois é a banda que melhor reflectiu os
Beatles na phase psychodelica, ja que Raspberries ou Badfinger os
reflectem nas phases mais palataveis ao consumidor commum da
beatlemania. E, em se tractando de psychodelismo, ha differenças basicas
entre a eschola britannica e a americana, ja que, nesta, as duas bandas
mais influentes foram os Byrds e o Jefferson Airplane, que deixaram
innumeros grupos "discipulos", alguns incluidos nos historicos volumes
da serie NUGGETS, tão bem revisitada pelos Ramones no album ACID EATERS.
Eu sei, Ramones e Byrds pouco teem em commum, a não ser os ponctos de
contacto entre hippies e punks quanto à contestação do "Systema", mas,
como idéa puxa idéa, approveito para dizer que sou fanatico por ambas as
bandas, cada uma em sua epocha.
Toda esta reflexão tem logar a pretexto do dia 13, mundialmente
consagrado ao rock, genero que foi se desmembrando em tantos subgeneros
tribaes que dá para entender o fundamentalismo quasi cego dum defensor
do Stevie Wonder, do Ray Charles ou mesmo do José Feliciano... Conforme
a preferencia do fan, 13 de julho pode ser anniversario dos Rolling
Stones (1962), lançamento do album de estréa do Queen (1973) ou data do
show "Live Aid" (1985).
Paro, portanto, com a digressão e pinço dois ganchos para os poemas aqui
incluidos: a relativa affinidade entre hippies e punks e a sensibilidade
dos sessentistas para resgatar as raizes, no caso o country rock pelos
Byrds, como suggerem os versos "A little bit of courage, is all we lack.
/ So catch me if you can, I'm goin' back." da canção "Goin' back", faixa
do album THE NOTORIOUS BYRD BROTHERS, que por signal nem foi composta
por elles e sim por Carole King com seu parceiro Jerry Goffin. Fallando
em raizes, finalizo sustentando uma these ja admittida nos meios
musicologicos: a historia do rock accabou na decada de 1980, ou seja,
teve começo, meio e fim. O resto é reprise e remake. Vamos aos poemas.
Até a proxima, com outros devaneios viajantes!
SONNETTO DO DENOMINADOR COMMUM [1292]
Um punk e um hippie attritam p'ra ver qual
dos dois mais firme lucta e tem seu thema
mais rude e radical contra o Systema
que, em ambos, despertou odio mortal.
O hippie, pacifista e passional,
allega que em maré contraria rema
quem quer, a ferro e fogo, e com extrema
conducta, combatter tão vil rival.
O punk é mais directo: paz e amor
não vingam; "flower power" não floresce,
pois fazem sempre o jogo do oppressor.
Não chegam a consenso. Não esquece
nenhum dos dois, porem: diverge a cor,
mas contra o mesmo Deus se reza a prece.
SONNETTO DA PAZ E DO RANCOR [1396]
Sahidas, em politica, só duas:
a hippie e a punk. Apenas na primeira
reside o pacifismo, o amor, as nuas
verdades e vontades... Mas Zeus queira!
As coisas, na segunda, são mais cruas
e, assim como o rockão é mais pauleira,
tambem as reacções são, pelas ruas,
mais proprias à pedrada, que é certeira!
Em termos philosophicos, no plano
geral e humanitario, eu mais me irmano
aos hippies, pois em armas não confio...
Mas, quando o pessoal e o passional
mais alto fallam, sou ao punk egual
e adjudo a pôr na polvora o pavio...
MOTTES GLOSADOS
Corajoso é quem recua
e o passado recupera.
Teem tambem os Byrds a sua
posição quanto à vanguarda:
Quem advança se accovarda;
corajoso é quem recua.
Não ha moda que destrua
o que "classico" antes era.
Restaural-o não é mera
"tradição", nem "velharia".
Mais innova quem recria
e o passado recupera.
Dar ao rock um dia é tudo
que esse embalo não precisa.
Eu, que os generos estudo,
quattro decadas, só, dou
para a historia desse show.
Dar ao rock um dia? É tudo
formalismo! Fui sortudo,
pois vivi minha pesquisa
do começo ao fim e, à guisa
de resumo, apenas digo:
Nem escrevo extenso artigo,
que esse embalo não precisa.
Nos cincoenta foi dansante,
sobre amor adolescente.
Nos sessenta, descontente
da politica, durante
sua phase mais pensante,
foi lysergico. Anarchiza
nos septenta e tribaliza
nos oitenta. Agora, é mudo.
Dar ao rock um dia é tudo
que esse embalo não precisa.
///
Estadão (si não me enganno, o proprio Emmanuel Bomfim, optimo como
sempre em seu personalissimo estylo "queixo cahido") entrevistava um fan
do Michael Jackson, de cujo nome não me lembro, nem do motivo da
entrevista. Mas o cara parescia saber tudo da vida do Michael, pois
resaltou inclusive o vanguardismo dos videoclips produzidos para as
faixas do album THRILLER, impeccaveis exemplos da arte a serviço do
showbiz. A certa altura, o entrevistado confessou que, si o Michael
acconselhasse seus fans a puxar fumo, elle seria o primeiro a admittir o
uso da maconha, fiel seguidor que era. Fiquei ouvindo, interessado e
curioso pelo que viria a seguir, mas, quando o cara tentou explicar por
que o Michael era "superior" a Stevie Wonder, não pude deixar de rir.
Pensei commigo: a unica vantagem do Jackson sobre o Wonder é que um
sabia dansar e outro não pode. No mais, a comparação é descabida.
Michael Jackson não passa dum astro pop, um mytho midiatico. Suas
canções, deschartado o appello choreographico, são automaticas e
monotonas, ao contrario da consistencia e da variedade do repertorio de
Stevie Wonder, este sim, um expoente do soul e de generos affins. Mal
comparando, seria o mesmo que ouvir dum fan do Chubby Checker que seu
idolo é melhor que Fats Domino, ou dum fan de Andy Kim que este supera
Neil Diamond. Pessoalmente, ouço todos, mas não inverto as posições.
Mas fanatismo é isso mesmo. Qualquer argumento vale como pretexto para
defender a "primazia" dum idolo sobre os idolos alheios. Detalhe: curto
Stevie Wonder, mas elle não é meu maior idolo na praia da negritude
sonora. Prefiro Wilson Pickett. Nenhum dos citados, aliaz, seria
exactamente um idolo do rock. O proprio Elvis Presley, analysado
friamente, tem pequena parcella de seu repertorio verdadeiramente ligada
ao rock. Quanto aos Beatles, admitto: sou beatlemaniaco, mas isso nem é
signal de fanatismo e sim mera attitude padrão, commum a todos que
accompanharam attentamente a historia do rock, que começa cincoentista e
termina oitentista. Fanatismo, propriamente dicto, é curtir bandas
"discipulas" até mais que as matrizes, como os Raspberries, a Electric
Light Orchestra, o Badfinger ou o Tomorrow em relação aos Beatles, ou
mesmo as New York Dolls em relação aos Rolling Stones. Desnecessario
lembrar que as torcidas de Stones e Beatles ja rivalizaram como
corinthianos e sampaulinos.
Citar o Tomorrow vem a proposito, pois é a banda que melhor reflectiu os
Beatles na phase psychodelica, ja que Raspberries ou Badfinger os
reflectem nas phases mais palataveis ao consumidor commum da
beatlemania. E, em se tractando de psychodelismo, ha differenças basicas
entre a eschola britannica e a americana, ja que, nesta, as duas bandas
mais influentes foram os Byrds e o Jefferson Airplane, que deixaram
innumeros grupos "discipulos", alguns incluidos nos historicos volumes
da serie NUGGETS, tão bem revisitada pelos Ramones no album ACID EATERS.
Eu sei, Ramones e Byrds pouco teem em commum, a não ser os ponctos de
contacto entre hippies e punks quanto à contestação do "Systema", mas,
como idéa puxa idéa, approveito para dizer que sou fanatico por ambas as
bandas, cada uma em sua epocha.
Toda esta reflexão tem logar a pretexto do dia 13, mundialmente
consagrado ao rock, genero que foi se desmembrando em tantos subgeneros
tribaes que dá para entender o fundamentalismo quasi cego dum defensor
do Stevie Wonder, do Ray Charles ou mesmo do José Feliciano... Conforme
a preferencia do fan, 13 de julho pode ser anniversario dos Rolling
Stones (1962), lançamento do album de estréa do Queen (1973) ou data do
show "Live Aid" (1985).
Paro, portanto, com a digressão e pinço dois ganchos para os poemas aqui
incluidos: a relativa affinidade entre hippies e punks e a sensibilidade
dos sessentistas para resgatar as raizes, no caso o country rock pelos
Byrds, como suggerem os versos "A little bit of courage, is all we lack.
/ So catch me if you can, I'm goin' back." da canção "Goin' back", faixa
do album THE NOTORIOUS BYRD BROTHERS, que por signal nem foi composta
por elles e sim por Carole King com seu parceiro Jerry Goffin. Fallando
em raizes, finalizo sustentando uma these ja admittida nos meios
musicologicos: a historia do rock accabou na decada de 1980, ou seja,
teve começo, meio e fim. O resto é reprise e remake. Vamos aos poemas.
Até a proxima, com outros devaneios viajantes!
SONNETTO DO DENOMINADOR COMMUM [1292]
Um punk e um hippie attritam p'ra ver qual
dos dois mais firme lucta e tem seu thema
mais rude e radical contra o Systema
que, em ambos, despertou odio mortal.
O hippie, pacifista e passional,
allega que em maré contraria rema
quem quer, a ferro e fogo, e com extrema
conducta, combatter tão vil rival.
O punk é mais directo: paz e amor
não vingam; "flower power" não floresce,
pois fazem sempre o jogo do oppressor.
Não chegam a consenso. Não esquece
nenhum dos dois, porem: diverge a cor,
mas contra o mesmo Deus se reza a prece.
SONNETTO DA PAZ E DO RANCOR [1396]
Sahidas, em politica, só duas:
a hippie e a punk. Apenas na primeira
reside o pacifismo, o amor, as nuas
verdades e vontades... Mas Zeus queira!
As coisas, na segunda, são mais cruas
e, assim como o rockão é mais pauleira,
tambem as reacções são, pelas ruas,
mais proprias à pedrada, que é certeira!
Em termos philosophicos, no plano
geral e humanitario, eu mais me irmano
aos hippies, pois em armas não confio...
Mas, quando o pessoal e o passional
mais alto fallam, sou ao punk egual
e adjudo a pôr na polvora o pavio...
MOTTES GLOSADOS
Corajoso é quem recua
e o passado recupera.
Teem tambem os Byrds a sua
posição quanto à vanguarda:
Quem advança se accovarda;
corajoso é quem recua.
Não ha moda que destrua
o que "classico" antes era.
Restaural-o não é mera
"tradição", nem "velharia".
Mais innova quem recria
e o passado recupera.
Dar ao rock um dia é tudo
que esse embalo não precisa.
Eu, que os generos estudo,
quattro decadas, só, dou
para a historia desse show.
Dar ao rock um dia? É tudo
formalismo! Fui sortudo,
pois vivi minha pesquisa
do começo ao fim e, à guisa
de resumo, apenas digo:
Nem escrevo extenso artigo,
que esse embalo não precisa.
Nos cincoenta foi dansante,
sobre amor adolescente.
Nos sessenta, descontente
da politica, durante
sua phase mais pensante,
foi lysergico. Anarchiza
nos septenta e tribaliza
nos oitenta. Agora, é mudo.
Dar ao rock um dia é tudo
que esse embalo não precisa.
///
sábado, 4 de julho de 2015
JUNHO/2015 (SEGUNDA QUINZENA): SI SOU POETA, NÃO ESTOU PROSA
Si, em poesia, muito apprendi com o exemplo inventivo de Augusto de
Campos, na litteratura em geral meu maior mestre ao vivo foi Millor,
que, como Mario de Andrade, pode ser chamado de authentico polygrapho.
Nessa proficua senda intertextual, accabei produzindo contehudos em
varios generos e, depois de ter encerrado (2012) a safra de sonnettos,
finalizei um volume de poemas intitulado MADRIGAES TRAGICOMICOS e, ao
preparar o parodico romance A PLANTA DA DONZELLA para uma reedição
orthographicamente correcta, voltei-me novamente para o terreno da
ficção, opportunidade que se affigurou convidativa no momento em que
recebi proposta para participar de outra daquellas anthologias de contos
que, volta e meia, pautam os cadernos culturaes da imprensa.
A thematica novisecular do conto encommendado motivou-me a planejar um
livro inteiro desses que qualifico de "factoides do terceiro millennio",
a que ja dei o titulo de CONTOS QUANTICOS. Aos meus mais interessados
leitores (que se dão ao trabalho de accompanhar este accanhado blog de
notas) addeanto o conto que abre o futuro livro (e que não é o mesmo
destinado à anthologia), no qual mantenho-me fiel ao estylo dialogico
dos contos "hediondos" de TRIPÉ DO TRIPUDIO. Segue transcripto. Até
julho!
A PARTICULA DO DIABO (para o livro CONTOS QUANTICOS)
- Jururu. Achei o Coutinho meio jururu. Elle não era assim. Na ultima
vez que vi, elle estava corado e sarado, namorando aquella moreninha, a
Mathilde...
- Quanto tempo faz?
- Ah, uns trez, quattro annos...
- Para você ver, meu querido. Foi nesse meio tempo que elle casou com a
propria e, pouco depois, se separou. Minto. A Mathilde é que cahiu fora,
mas ficou com o apê e elle teve que sahir do Copan.
- Eu nem sabia... Mas tanta gente anda pagando mico, deixando casa para
a ex, arcando com a pensão... O Juca, o Aldyr, o Wilson... Até o
Gallego, que era anarchista, entrou em crise existencial... Mas logo se
refizeram. O Coutinho vae sahir dessa.
- Não sei não. Elle me contou umas coisas da Mathilde...
- Ora, cada um siga sua vida! Hoje ninguem mais fica remoendo dor de
corno! Temos que ser mais racionaes, você não acha? Elle que tracte de
esquecer della...
- O peor é que não tem nada a ver com ciume. Ella encasquettou umas
minhocas na cabeça delle antes da separação. Era evangelica, mas de
repente se converteu a uma seita satanica...
- Brincou! Que maluquice! Então elle tinha mais é que dar graças...
- Elle até deu. Até ironizou, disse que tinha exorcizado um encosto...
Mas agora não tem mais sossego. Ficou scismado com as coisas que ella
contava.
- Mas que coisas eram essas?
- Não sei direito. Paresce que ella começou a estudar a Biblia dum jeito
differente. Em vez de Christo, só fallava em Antichristo. A tal seita é
uma egreja de adoradores de Mephistopheles e prega que todas as
prophecias messianicas não vão se concretizar emquanto não for expurgada
do texto biblico uma palavra chave...
- Qual palavra?
- Ahi é que está. Ninguem descobriu ainda, ou pelo menos ninguem
divulgou. Ja existe toda uma corrente de exegetas e hermeneutas
esquadrinhando versiculo por versiculo, mas até agora só pistas
falsas...
- Porra, o Coutinho é um cara esclarescido, um scientista! Elle não é
chymico de formação?
- Agora mais paresce um alchymista... Nem quer saber mais da Mathilde,
mas diz que achou o exemplar da Biblia que ella tinha deixado no meio
dos livros encaixotados, cheio de annotações rabiscadas pelas margens.
Agora só falla nisso, ficou obcecado.
- Nem cheguei a conversar com elle, ainda bem. Não me suggestiono com
essas papagaiadas, você sabe. Elle tambem entrou para a tal seita?
- Diz elle que não, que está estudando por conta propria, pesquisando na
internet, adherindo a umas communidades, mas só virtualmente.
- E você, o que acha? Elle está psychologicamente abballado com a
separação, ou tem outros parafusos soltos?
- Acho que elle está bem lucido. Não me paresce menos consciente que o
Faria, por exemplo. E o Faria, não é fanatico pela theoria da
conspiração? Pois o Coutinho ficou fanatico por essa theoria da
"Particula do Diabo", que rastreia a tal palavra kabbalistica como quem
demandava o Sancto Graal.
- Cada uma! Typo da procura inutil! Onde elles acham que achariam o tal
vocabulo escondido? No Apocalypse? No começo do evangelho de João? Si os
astronomos accreditam num universo, digamos, explodido, não seria numa
passagem mais... kosmica, ou kosmovisionaria, que esse enigma pode ter o
seu... busillis? Que disse disso o Coutinho?
- Não me dei ao trabalho de ficar interrogando. Sinão elle é capaz de
sahir da deprê, mas sae para bombardear a gente com aquella ladainha.
Não, meu querido! Tenho mais o que fazer...
- Você está certo. Melhor não provocar. Elle que se desilluda por si.
Apposto que é tudo fogo de palha. Não demora e elle acha outra Mathilde
e esquece esse negocio de palavra magica.
[...]
- E ahi? Outro dia você achou o Coutinho jururu, mas quem anda exquisito
agora é você mesmo. Que foi? Não me diga que se desentendeu com a
Paulinha!
- Não é isso. Sabe duma coisa? O pessoal joga muita conversa fora e eu
acho melhor ficar calado. Fallam muita abobrinha...
- Que typo de abobrinha?
- Ah, muita fofoca, muita mundanidade. São novidadeiros, não se
approfundam em nada... Prefiro assumptos mais espirituaes.
- Pois eu, ao contrario, curto coisas mais espirituosas e isso não quer
dizer que estou barateando a minha intellectualidade. Não me diga que
você tambem deu para estudar a Biblia.
- Para lhe ser franco, até que tenho estudado, sim. Mas não é o que você
está pensando.
- Eu nem disse o que estou pensando...
- O que interessa é que não tem nada a ver com aquella seita
mephistophelica. A Mathilde e o Coutinho estão por fora. Elles só ficam
viajando nessas traducções do Novo Testamento, essas versões deturpadas,
catholicas ou protestantes. Mas não é por ahi. Descobri que o caminho
está na versão latina, na Vulgata. Quasi ninguem percebeu, mas o
Jeronymo deixou algumas dicas fundamentaes e resolvi seguir essa linha
de pesquisa, que é bem mais segura...
- Caralho! Eu não fazia idéa de que você ia ficar tão contagiado pelo
mysterio dessa diabolica particula! Você sempre se preoccupou com coisas
bem practicas...
- Sim, e continuo me preoccupando! Quer coisa mais practica que o
destino da humanidade? Nossa sobrevivencia está em jogo!
- Não quero offender, meu querido, mas ja superei essa phase de tanta
especulação em torno dum enigma tão elementar...
- Não diga isso! Você é um cara culto, lettrado, escriptor de
respeito... Devia investigar, tambem, a existencia desse verbo
primordial, desse monosyllabo decisivo, desse morphema philosophal...
- Não preciso investigar nada, meu querido. Ja fallei que superei essa
phase.
- Mas por que você diz isso, assim tão desinteressado duma causa
collectiva? Por que tamanho egoismo, tamanha indifferença deante das
questões mais metaphysicas e até mais scientificas? Por que?
- Simples. Porque acho que ja achei a palavra.
- Serio? Está me dizendo que encontrou a Particula do Diabo? Então ja
devia ter me contado! Qual é a palavra? Diga logo!
- Calma. Não posso dizer. Pelo menos não agora. Depois a gente conversa
sobre isso. Estou attrazado, vamos continuar esse pappo outro dia...
- Não! Você está me sacaneando, não está? Me diga pelo menos em que
livro, em que capitulo, em que versiculo... Que typo de palavra... Um
verbo, um substantivo, um adjectivo...
- Não posso, lamento, mas agora não posso.
- Uma preposição... Uma conjuncção... Uma interjeição... Por favor, não
faça isso commigo! Ao menos uma luzinha...
- Meu querido, não me queira mal. Só para que você comprehenda o meu
lado, vou ser bem sincero, porque sei que você está mesmo empenhado
nisso.
- Falle, falle!
- Accontesce que... tambem frequento uma seita, a de Asmodeu, mas tive
que jurar sigillo absoluto. Talvez... Não garanto nada... Talvez eu seja
auctorizado a revelar o segredo. Mas isso eu só vou ficar sabendo no
momento opportuno. Por emquanto você precisa ter paciencia.
- Cara, não accredito! Até você! Só falta alguem me contar que sou o
ultimo a saber!
- Não seria de admirar. Nada do que ouvimos ou vemos é de se admirar.
Pense nisso, meu querido. Pode até ser que, naquella mesa alli, estejam
fofocando, no meio de tantas mundanidades, sobre a nossa palavrinha. Vae
ver que estão repetindo a dicta, sem suspeitar, até que se esvazie
completamente, quem sabe?
- Tudo bem. Mas você promette me dizer, certo?
- Prometto que voltaremos ao assumpto. Agora tenho que ir. Até a
proxima!
- Então até! Ah, deixe a Paulinha saber disso! Ella nem vae accreditar!
///
JUNHO/2015 (PRIMEIRA QUINZENA): ANTIRACISMO E IRRACIONALISMO
Todo mundo sabe que o dia da creança é commemorado em outubro, embora
alguns commerciantes e publicitarios tentem confundir nossas cabeças com
aquella historia de "semana da creança" ou de "mez da creança", com
obvios propositos de prorogar o periodo de vendas dos brinquedos.
O que me deixa injuriado de raiva, mais que a ganancia ou o consumismo,
é o opportunismo de certos politicos, não apenas brazileiros, que, ao
invez de propor que o dia outubrino sirva tambem para a conscientização
geral em relação às creanças desamparadas em quaesquer situações ou
localizações, approveitam o appello humanitario despertado pela
innocencia das victimas para bollar a mais variada gamma de "lembretes".
Por isso é que temos, em junho, um tal de Dia da Creança Victima de
Aggressão, como temos, em maio, o Dia de Combatte ao Abuso de Creanças e
Adolescentes, em julho o dia da creação do Estatuto da Creança e do
Adolescente ou, em novembro, um Dia Mundial das Creanças, a confiar em
tantos almanachs que, ainda por cyma, divergem entre si...
A falta de creatividade é tamanha, que, a pretexto de attrahir as
attenções para algum caso especifico de protecção ou de solidariedade,
os opportunistas baptizam suas idéas com nomes kilometricos, como o tal
do Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente em
Guerras e Conflictos Armados, em novembro. Não dá raiva? Ora, va ser
prolixo assim na Casa do Caralho, digo, no Endereço Domiciliar do Orgam
Reproductor Masculino! Não bastava dizer "dia ambiental contra a guerra"
ou coisa que o valha? Para que esse penduricalho dos "conflictos
armados"? Alguem pensaria numa guerra de tomates ou de ovos? Tenho a
impressão de que esses genios que decidem sobre taes eventos são
eguaesinhos aos vereadores que nada teem para occupar o tempo excepto
mudar nomes de ruas...
Sendo assim, tambem quero propor algumas datas politicamente correctas e
socialmente necessarias, como gostam de dizer esses populistas
compromettidos com a ethica publica, para não dizer privada, que geraria
a piada prompta. Eu crearia o Dia Internacional da Creança Cega Victima
de Bullying na Eschola ou na Rua em Peripherias Urbanas, puxando a braza
para a minha sardinha, ou o Dia Mundial do Basset Hound Protegido por
Touca nas Orelhas ao Passear na Rua, puxando o sacco da minha raça
canina favorita. Que tal? Alguem ousaria allegar que estou sendo
casuisticamente incorrecto ou cynophilamente elitista? E dahi? Ja cansei
de dizer que, si posso ser chamado de racista, é porque odeio a raça
humana à qual pertenço, ou porque odeio poodles e só gosto de bassês e
dachshunds. Fodam-se os patrulheiros do bommocismo!
Para illustrar o que accabo de arrazoar, excolhi um sonnetto antigo e
uma glosa recente, ao que me despeço malcreadamente com um "Fui!".
PARA O PRECONCEITO RACIAL [sonnetto #2005]
Si alguem me perguntar si sou racista,
respondo: "Com certeza! Odeio poodle,
chihuahua e pekinez! Entra na lista
de affectos só cachorro salsichudo!"
E caso na pergunta alguem insista,
direi que a raça humana, inteira, é tudo
motivo do meu odio, seja "mixta"
ou "pura", branco ou indio botocudo...
Não ha nenhuma "raça superior"!
Qualquer que seja a classe, a cara, a cor,
é tudo a mesma merda: a besta humana!
Dos bichos, não se salva nem o gatto,
que é muito traiçoeiro, desde o ingrato
bichano que abandona uma bichana...
MOTTE GLOSADO
É no Dia da Creança
que voltamos ao passado.
Demagogo não se cansa
de inventar mais uma data
que de algum coitado tracta.
É no "Dia da Creança
Pobre em Risco de Mactança
nos Paizes em Estado
de Guerrilha" que eu, irado,
desabbafo que é "Bem feito!"
É nas horas de despeito
que voltamos ao passado.
///
Assinar:
Postagens (Atom)