Depois que o dia da consciencia negra passou a fazer parte do
kalendario, o dia da abolição da escravatura ficou meio desprestigiado,
mas só quero relembrar o 13 de maio para dizer que a Lei Aurea teria
sido o primeiro grande acto da imperatriz Izabel I, caso a republica não
fosse proclamada e continuassemos vivendo no regime monarchico, embora
não se saiba qual das linhas successorias reinaria hoje, si a do filho
mais velho ou a do segundo filho da imperatriz.
Monarchista que sou, como Roberto Piva (que me chamava de Conde Mattoso,
emquanto eu o chamava de Archiduque), ja me vi na obrigação de
justificar minha cor politica quando do plebiscito para a confirmação da
republica ou a restauração da monarchia. Em 1988 escrevi para a revista
A-Z (antiga AROUND) um artigo a respeito, que transcrevo quasi na
integra, devidamente reorthographado.
{Ninguem sabe como está nem como ficará (ou si sobreviverá) o texto da
nova Charta, mas bochicha-se que um artigo nas Disposições Transitorias
estabelesce que em 1993 haverá um plebiscito p'ra ver si o Brazil
continua republica ou volta a ser monarchia. Ora, nada do que foi
incluido no texto constitucional sahiu da cabecinha doidivanas duma só
handorinha (ainda que por traz della, nos bastidores, pudesse estar o
maior lobby de tefepistas, bancos de sangue azul, joalheiros de coroa e
chartorios genealogicos). Tudo que entrou, entrou respaldado em voto.
Mesmo assim, boa parte da imprensa deu risada, a começar pela maior
revista semanal, que gargalhou feito claque do programma do Jô. Tanta
zombaria dá até p'ra desconfiar. Affinal, quem faz pouco caso da idéa tá
esquecendo de proposito que a Hespanha sahiu duma dictadura peor que a
nossa e foi encontrar democracia & prosperidade numa monarchia
hereditaria. Claro que ja tem gente gritando que a realidade hespanhola
nada tem a ver com a brazileira. Mas si fossemos consultar o povão
informalmente, sem suggestional-o com editoriaes ou pronunciamentos em
cadeia, verificariamos que a monarchia tá arraigada no espirito da
massa. Até o distinctivo do Corinthians lembra o brazão imperial...
O povo gosta da idéa de rei, principe, sceptro & throno. Do contrario,
Pelé seria o presidente do futebol, Chico Alves o presidente da voz,
Momo o presidente do carnaval, Bilac o vice-presidente dos poetas
brazileiros, emquanto Chacrinha perguntaria ao auditorio si o calouro
"vae p'ra cadeira ou não vae". Seria uma desmoralização total pros
homenageados. Será que isso significa que a idéa de republica é
desmoralizante? Talvez, pelo menos no Brazil, onde ella suggere
instabilidade, incompetencia, leviandade e complacencia. Em summa, si a
republica ja não inspira confiança e perdeu seu hypothetico vinculo com
a noção de democracia, só haveria um ultimo recurso p'ra remediar toda
essa falta de credibilidade: substituir a republica. Em vez da "velha"
pela "nova", as velhas & novas por algo mais estavel & menos aleatorio.
A monarchia. Não é só na psychologia popular que tal idéa ganha corpo.
Os proprios politicos ja se dispõem a traduzil-a em formulas viaveis.
Tanto que, antes do dispositivo constitucional, houve toda uma
articulação em torno do principio parlamentarista, fachada por traz da
qual se acham muitos monarchistas convictos, embora menos decididos que
aquelles que fundaram um partido monarchista no começo de 1986.
Não sei si o partido tá funccionando, pois não me filiei. O facto é que,
com ou sem partido, sou monarchista por principio, assim como os velhos
& filhos sobreviventes do periodo imperial, mas tambem por uma especie
de nostalgia folklorica, uma curtição que ja deixou de ser kitsch p'ra
virar sophisticação intellectual, ou seja, finesse. Quem me vê como um
cara tarado & debochado pode não accreditar que passei a adolescencia
toda me portando & vestindo como um verdadeiro TFP. Fui tão conservador
que, quando alguns tefepistas me procuraram na faculdade (em pleno
governo Garrastazu) e me convidaram a entrar p'ra casa de Dominus
Plinius, eu respondi que toparia com uma condição: a de que cada um dos
emissarios escrevesse trez palavras numa folha de papel. As palavras
eram "philosophia", "chlorophylla" e "chrysanthemo". Elles não eram tão
bobinhos e sacaram que eu os tava testando. Tentaram entrar na minha e
escreveram "philosophia". Mas nas outras duas se embananaram. Não sabiam
todas as lettras de "chlorophylla" e "chrysanthemo". Ahi foi minha
chance de encerrar o pappo: "Vocês não são tão tradicionalistas. Do
contrario, alem da volta da monarchia defenderiam tambem o uso da
'orthographia etymologica'." E virei as costas. Foi nessa phase
excentrica, de collete & relogio de bolso, que encasquettei uma idéa
ainda mais extravagante: a de ser recebido pelo principe herdeiro da
Coroa brazileira. Meus conhescimentos sobre as instituições imperiaes se
resumiam aos dados historicos e ao texto da constituição de 1824, pela
qual o regime é hereditario por primogenitura masculina. Dizia o artigo
117 que a descendencia de D. Pedro I succederia ao throno "segundo a
ordem regular de primogenitura e representação, preferindo sempre a
linha anterior às posteriores; na mesma linha, o grau mais proximo ao
mais remoto; no mesmo grau, o sexo masculino ao feminino; no mesmo sexo,
a pessoa mais velha à mais moça.". Assim, si a princeza Izabel teve trez
filhos, o mais velho, Pedro de Alcantara, Principe do Grão-Pará, seria o
herdeiro. Como o principe ja morreu, seu filho Pedro Gastão seria o
successor. E D. Pedro Gastão, segundo me disseram, morava em Petropolis,
no palacio Grão-Pará. Não tive duvidas. Escrevi uma charta (em
orthographia antiga, naturalmente) onde me declarava monarchista e, na
maior cara de pau, pedia a Sua Alteza que me hospedasse no palacio. Será
que eu esperava resposta? Si não esperava, veiu. Foi uma recusa, logico,
mas uma recusa com aquella classe, aquella elegancia aristocratica que
só os nascidos em berço de ouro sabem ter. Escripta de proprio punho num
chartão timbrado com o brazão imperial e illustrado com uma gravura de
1870 representando o palacio Izabel (hoje palacio Guanabara, sede do
governo do Rio), dizia a resposta: "Prezado P. José Ferreira da Silva (é
meu nome plebeu, e bem plebeu, por signal, ó desgraça!): Ao voltar de
viagem achei no Grão Pará sua amavel charta. Aggradesço os termos tão
amaveis nella contidos. A Princeza estando ainda na Europa não me é
possivel o hospedar agora. Com meu sincero saudar, Dom Pedro."
Notem a influencia da syntaxe franceza na expressão "o hospedar" em vez
de "hospedal-o". É que Sua Alteza falla mais francez que portuguez, como
legitimo descendente do conde d'Eu, educado na Europa. Chique até dizer
chega, não é, ralé?
Pois é, ganhei um souvenir e satisfiz um capricho que passou,
attropelado por outras preoccupações como a do glaucoma, que exigia
cirurgia e quasi me levou ao suicidio. Depois fiquei sabendo que D.
Pedro Gastão NÃO ERA o legitimo successor da Casa Imperial. A genealogia
tá correcta, mas tinha um detalhe historico que eu desconhescia. O pae
de D. Pedro Gastão, que queria se casar com uma plebéa, teve que
renunciar aos direitos dynasticos, por si e pelos descendentes. Com isso
a linha successoria passou aos descendentes de D. Luiz, o Principe
Perfeito, segundo filho da princeza Izabel. O filho de D. Luiz era D.
Pedro Henrique, que vivia em Vassouras, no interior do Rio, emquanto D.
Pedro Gastão, o residente do palacio Grão-Pará, tinha que deixar a
pretensão ao throno para o primo (actualmente o successor é o filho
deste, D. Luiz de Orleans e Bragança). Deu p'ra entender? Não importa.
Fiquei decepcionado, mas não de todo, pois, como diz o dictado, quem foi
rei sempre tem magestade, ou quem podia ter sido nunca perde o que não
chegou a ter.
Isso colloca uma questão curiosa. Si o plebiscito decidisse pela volta
da monarchia, será que valeria o preceito da constituição de 1824? Si
valesse, a Charta actual teria que ser reformulada. Si não valesse,
nenhuma das linhas rivaes poderia reivindicar o throno, que ficaria sem
dono. A constituição imperial previa a excolha de nova dynastia só para
o caso de extinguir-se a de D. Pedro I. Si isto não vigorasse mais,
qualquer um poderia ser excolhido imperador. Mas excolhido como? Por
eleição directa? Uma dynastia Quadros ou Brizolla? Por via indirecta?
Uma dynastia Sarney, que ja rhyma com rei? Não sei, nem quero saber.
Prefiro elucubrar em cyma de outra questão, a da nobiliarchia. Uma das
coisas mais fascinantes dos regimes monarchicos é a concessão de titulos
honorificos a pessoas de sangue nobre, ja nascidas aristocratas, ou a
plebeus que se destaccam nesta ou naquella actividade e que recebem o
titulo a titulo de premio, digamos assim, por serviços prestados, como
accontesceu com o duque de Caxias e o barão de Mauá. Nas republicas só
existem medalhas de merito militar, commendas e titulos de cidadão
honorario ou doutor honoris causa, mas num imperio o titulo tem mais
charme, porque se incorpora ao proprio nome, podendo até substituil-o.
Poucos sabem o nome civil do barão do Rio Branco ou da marqueza de
Sanctos, mas a figura dos dois é inconfundivel, mesmo porque um era
gordissimo e a outra um thesouro de virtudes. A hierarchia dos titulos é
outra coisa fundamental. Assim como as patentes do exercito formam uma
escadinha de poder & prestigio, os titulos, embora não correspondam mais
ao tamanho do feudo ou latifundio da Edade Media, guardam seu grau de
importancia. O mais baixo é o de barão. Depois vem o visconde, o conde,
o marquez, o duque e o archiduque. Detalhe: o Brazil não teve
archiduques; o maximo que nosso imperio concedeu foi o titulo do duque
de Caxias.}
Reparem que do meu texto transparesce um toque de ironia quando alludo
às elites, justamente porque a revista A-Z circulava em meio ao publico
frequentador das boates e butiques mais caras, comquanto aquelles
"mauricinhos" e aquellas "patricinhas" não tivessem um pingo de sangue
azul.
Nestas ultimas eleições, de 2014, o que me encheram o sacco com
partidarismos petistas e tucanos foi dose. Ainda agora recebo mensagens
circulares diffamando este ou aquelle ex-candidato. Dahi que resolvi
compor a glosa ao motte abbaixo, à qual accrescento um antigo sonnetto,
um madrigal recente, e com a qual mando esses pamphletarios de meia
tigela para o meio do inferno.
PARA UM QUINZE DE NOVEMBRO [sonnetto #1889]
Republica que foi na quartelada
imposta é tão "legitima", de facto,
quanto uma occupação que nos invada
a casa apoz a guerra: é mão de gatto...
De gatto? Si, no roubo, é como o ratto,
os bichos só se egualam, e ja nada
importa si se oppõem no formal tracto,
nem como nos discursa, por si, cada...
Esquerda nem direita: nada adjuda,
si temos de manter a lingua muda,
fingindo que republica ja somos...
De araque é que será a proclamação
daquillo que subjeita uma nação
a ephemeros reinados de reis Momos...
MADRIGAL IMPERIAL
Barão, visconde, conde, marquez, duque...
Um titulo não quero que me encuque.
Barão paresce grande, mas é baixo.
Visconde não é vice que me aggrade
e conde condecora, mas me encaixo
melhor no de marquez, que lembra Sade.
De duque ou de archiduque não me enfaixo
si a faixa não me espelha a crueldade.
MOTTE GLOSADO
Eu no muro nunca fico,
pois do contra sempre sou.
Do tucano odeio o bicco.
Do petista a estrella odeio.
Si me olharem meio feio,
eu no muro nunca fico.
Em Francisco, como em Chico,
meu pau batte e à lucta vou!
Monarchista sendo, dou-
me este rotulo, ao me oppor,
"liberal-conservador",
pois do contra sempre sou!
///
sábado, 6 de junho de 2015
sábado, 9 de maio de 2015
ABRIL/2015 (SEGUNDA QUINZENA): O MUNDO MURO CONTRA O MUNDO MOURO
No tempo em que o propheta Mahomé era tambem chamado de Mafoma, os
musulmanos eram tractados pelos christãos como "sarracenos" ou "mouros".
O inimigo islamico, que ja estivera bem proximo, a poncto de occupar a
peninsula iberica, era tão temido que, para perguntarmos si a barra
estava limpa, usavamos a expressão "ver si não ha mouros na costa".
Considerado tão troglodyta quanto o barbaro que vandalizou o imperio
romano, o invasor mahometano, agora chamado de jihadista, continua
identificado com o medievalismo da era das cruzadas, e o mais typico
emblema desse attrazo, aos olhos civilizados e evoluidos do occidente, é
a posição da mulher, que ja teve seu dia internacional a 8 de março e
tem seu dia nacional a 30 de abril, como si a multiplicação de datas
tivesse o condão de abbrandar os historicos effeitos do machismo.
Olhos civilizados? Evoluidos? Bem, do lado de ca do muro, temos essa
impressão. Só que, emquanto nos horrorizamos com o sequestro collectivo
de meninas e adultas (ja que para os radicaes islamicos a edade não faz
differença naquellas que serão escravizadas e prostituidas),
permanescemos brincando de faz-de-conta que as nossas adultas ja não
querem ser tractadas como mulher de malandro e que nossas meninas não
podem seguir tal exemplo, protegidas que estão pelos estatutos
infantojuvenis, tão caros a um moderno estado de direito, e coisa e tal.
Assim como é hypocrita o olhar occidental por cyma do muro
livremundista, é cynico o olhar local de cyma dos olympicos foros da
cidadania em direcção às peripherias contraculturaes. Aqui mesmo em São
Paulo, Brazil, a scena funkeira é exemplo desse fingido repudio ao
comportamento degradante das taes cadellinhas mirins que se vestem e se
appresentam como apprendizes de cachorras do quintal baldio e vadio.
Antes de concluir meu raciocinio, transcrevo uns midiaticos fragmentos
do phraseado politicamente correcto usado pelos cidadãos escandalizados
e, em seguida, accrescento uma das explicitas lettras compostas pelos
"mestrinhos sem ceremonia" especialmente para as cachorrinhas da
communidade. Attentem só!
{O Ministerio Publico de São Paulo abriu nesta quincta-feira um
inquerito para investigação sobre "forte contehudo erotico e de appellos
sexuaes" em musicas e choreographias de creanças e adolescentes musicos.
A cantora de funk conhescida como MC Melody, de oito annos, é um dos
alvos da investigação, que suspeita de "violação ao direito ao respeito
e à dignidade de creanças/adolescentes". [...] Segundo uma das
representações publicadas no inquerito, Mc Melody "canta musicas
obscenas, com alto teor sexual e faz poses extremamente sensuaes, bem
como trabalha como vocalista musical em carreira solo, dirigida por seu
genitor". Alem della, musicas e videoclipes de outros funkeiros-mirins
como MCs Princeza e Plebéa, MC 2K, Mc Bin Laden, Mc Brinquedo e Mc
Pikachu tambem são alvo da investigação do Ministerio Publico paulista.
[...] O caso da MC Melody chegou a ser o assumpto mais procurado por
brazileiros no Google nesta quincta-feira. [...] A menina ja chegou a
ter seu perfil retirado do Facebook apoz denuncias de internautas sobre
"sexualização" - ella apparesce em photos com roupas curtas e
decottadas, dansando em bailes funks e em videos caseiros. O pae de MC
Melody - o tambem funkeiro MC Betinho - tambem é citado pelo inquerito
do Ministerio Publico, que affirma ser "dever da familia, da
communidade, da sociedade em geral e do Poder Publico assegurar, com
absoluta prioridade, a effectivação dos direitos referentes à vida, à
saude, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivencia familiar e communitaria" [...] O pae de MC Melody se defende
argumentando que existiria uma "perseguição ao funk" e que "não obriga
sua filha a fazer nada". "Ella canta e dansa assim porque gosta", disse
MC Betinho. [...] MC Melody, a funkeira de 8 annos que apparesce em
videos com roupas justas, cantando sobre "recalque" e dansando no chão
de uma casa nocturna paulista, alcançou o topo entre os assumptos mais
buscados no Google na ultima quincta-feira (23 de abril). Mas o mesmo
não occorreu com MC Brinquedo, MC Pedrinho e MC Pikachu -
funkeiros-mirins com milhões de seguidores nas redes sociaes, famosos
pelas lettras pornographicas que cantam por ahi. [...] Entretanto, mesmo
com lettras mais pesadas que as de Melody (que não usa palavrões,
referencias a drogas ou sexo explicito), os meninos do funk veem sendo
poupados de criticas. Emquanto o verso mais polemico de Melody diz "para
todas as recalcadas, ahi vae minha resposta, si é bonito ou si é feio,
mas é foda ser gostosa", o refrão mais conhescido de MC Brinquedo (13
annos) affirma: "Tu vae lamber, tu vae dar beijo, tu vae mammar com essa
boquinha de apparelho". MC Pedrinho, 12, é conhescido como desboccado:
"Como é bom transar com a puta profissional. Vem foder no clima quente,
no calor de 30 graus". MC Pikachu, de 15 annos, vae alem: "Estava na
rua, fumando um baseado, chegou a novinha e pediu para dar um trago
(...) Dá a boceta para mim, (dá) o cu e fuma". Alem da erotização
infantil, a differença no tractamento entre funkeiros e funkeiras mirins
leva a uma discussão sobre genero: a sexualização dos meninos é
permittida e a das meninas não?}
DOM DOM DOM [MC Pedrinho]
Dom, dom, dom, dom, dom, dom, dom
Tava aqui no baile, escutando aquelle som
Dom, dom dom, dom dom dom, dom
Adjoelha, se prepara e faz um boquete bom
Vem mammando um, depois mamma outro
Um de cada vez até mammar o bonde todo
Mamma e não resisto, que temptação!
Novinha, tu (novinha, tu) faz um boquete bom
Mamma e não resisto, que temptação!
Novinha, tu (novinha, tu) faz um boquete bom
Dom, dom, dom, dom, dom, dom, dom
A novinha experiente ja nasceu com esse dom
Dom, dom dom, dom, dom, dom, dom
Adjoelha, se prepara e faz um boquete bom
As menina (as menina), ellas não teem frescura
Chupa, chupa e se lambuza
Vae, que isso, nem!
Chupa, chupa e se lambuza
Vae, que isso, nem!
Feita a transcripção, não posso passar sem insistir que, quando a minha
poesia é rotulada de "pervertida" e "perversa" ao exaggerar na
sexualidade e na crueldade, devo argumentar que o sadomasochismo está na
propria malicia humana, ou na maldade humana, a começar pelas partes
mais fraccas, como a creança e a mulher. Para illustrar o que digo,
pincei estes dois sonnettos nos quaes o ultimo tercetto é a falla da
outra pessoa, em resposta à da primeira nas estrophes anteriores. O
primeiro sonnetto allude a uma menina assediada por um adulto pedophilo
e o segundo a um caso veridico do mundo islamico:
SONNETTO PARA UMA OVELHINHA DESGARRADA [2035]
Mas que menina linda! Venha ca!
Aqui, com o tithio! Qual é seu nome?
Cadê sua mamãe? Vae voltar ja?
Não fique preoccupada! Ella não some!
Mamãe lhe dá presentes? Papae dá?
E que mais quer ganhar? Quer bala? Tome!
Alli vendem brinquedos! Vamos la?
Tambem vendem pipoca! Está com fome?
Me dê a mãozinha! Assim! Está com medo?
Tithio não vae morder! Ainda é cedo!
Que tal dar um passeio no meu carro?
"Foi elle, sim, mamãe! Quiz me foder!
Babaca! Accreditou que tem poder
de seducção? Em velho eu não me amarro!"
SONNETTO PARA UMA GAROTA QUE NÃO É DE QATIF [2042]
Que tenho a declarar? Fui sequestrada,
sahindo à rua à noite, por bandidos!
Levaram-me ao seu antro e fui, por cada
um delles, suja, em todos os sentidos!
Foderam-me na bocca! Penetrada
me vi de todo lado! Meus gemidos
inuteis foram sempre, pois que nada
commove esses machões embrutescidos!
Clemencia, meritissimo, eu lhe imploro!
Si saio condemnada deste foro,
coitadas das mulheres estupradas!
"Culpada foi você, que os provocou!
Em nome do Senhor, pois, eu lhe dou
sentença de duzentas chibatadas!"
Ambos os sonnettos foram incluidos numa abrangente anthologia que accaba
de sahir pela editora Hedra, intitulada POESIA VAGINAL: CEM SONNETTOS
SACANAS, dentro da mesma serie "Sexo" que está publicando obras
radicalmente libidinosas, como PERVERSÃO de Robert Stoller e A VENUS DAS
PELLES de Masoch. O volume de sonnettos mattosianos abborda os mais
diversos e transversos angulos do erotismo e da pornographia, cobrindo,
por admostragem, uma producção que vae de 1999 a 2012. Para outros
detalhes sobre o livro, accessem: www.hedra.com.br
Alguns poemas do livro estão em video no youtube:
BOCETEIRO (SONNETTO 309)
https://www.youtube.com/watch?v=QUtbaEhpBe4
O MAIS MASCULO VOCABULO VERNACULO (SONNETTO 3222)
https://www.youtube.com/watch?v=0aRuOqG3uEQ
VOCALICA VOCAÇÃO (SONNETTO 3366)
https://www.youtube.com/watch?v=g_Znoq0yxn8
AUTO PRO MOÇÃO (SONNETTO 3409)
https://www.youtube.com/watch?v=X2dAS5DOllg
CREAÇÃO DA BOCETA (SONNETTO 4464)
https://www.youtube.com/watch?v=ZC0vIGwJMlI
IMPROSTITUCIONALISSIMAMENTE (SONNETTO 4981)
https://www.youtube.com/watch?v=O3Xsqw7tKac
///
ABRIL/2015 (PRIMEIRA QUINZENA): DESSEDENTAMENTO SEM DESSALINIZAÇÃO
O dia mundial da agua (22 de março) deixou de ser mera data symbolica
para se sobresahir às demais commemorações do mez passado, tamanha a
repercussão das noticias sobre a crise hydrica. Em abril a data mais
allusiva ao caso teria de ser, obviamente, o dia do indio, marcado para
19, ja que ninguem deu mais valor às aguas brazileiras que o primitivo
habitante de Pindorama. E quanto aos caras pallidas? E quanto aos
emboabas?
A poesia dos brancos até que tractou bastante das nossas doces reservas,
como não poderia deixar de ser num paiz de correntes amazonicas e
cataractas colossaes. Mas só no ultimo seculo os poetas começaram a
notar que as fontes tenderiam a minguar. Emfim, a ficha demorou a cahir.
Tenho um livro inedito, chamado CRITICA SYLLYRICA, no qual analyso, em
forma de sonnetto, os sonnettos alheios, alguns delles thematizando
nossos rios. Nas admostras, excolhidas a dedo, de Amadeu Amaral
(sonnetto "Rios"), Belmiro Braga (sonnetto "Olhando o rio") e Hermes
Fontes (sonnetto "Rio"), por exemplo, ainda prevalesce aquella imagem
idyllica do caudaloso curso d'agua que evoca sentimentos nobres e
desperta reminiscencias pessoaes. Ja nos meus sonnettos em que replico
aos auctores (respectivamente os de numero 5186, 5193 e 5204), tracto de
desmystificar a scena limpa e de introduzir no debatte as consequencias
da predação humana, traduzida em lixo, exgotto e polluição industrial. A
mesma attitude tomei quando parodiei a canção "Planeta agua", de
Guilherme Arantes (brilhantemente entrevistado por Emmanuel Bomfim na
radio Estadão), no sonnetto "Sobre um planeta mal molhado", que sahiu no
livro CANCIONEIRO CARIOCA E BRAZILEIRO, mas agora cabe deslocar o foco a
partir dessa emergencial perspectiva da pura e simples secca, ou da
impura e complexa "crise hydrica", para usar a expressão em voga.
Ja não se tracta de protestar contra uma progressiva transformação da
represa em retrete, do reservatorio em mictorio ou da bacia em... bacia!
Tracta-se de cahir na real e questionar si as aguas dictas "servidas"
ainda serão sufficientes para reutilização minimamente "potavel", ou, em
portuguez claro, si ainda teremos mijo para mactar a sede, ou até
quando. Antes o sal "purificado" da agua do mar dessalinizada que o sal
"urificado" da agua do bar descarregada...
Para não chover no molhado, digo, reclamar da falta de chuva no "volume
morto", deixo a discussão technica para os especialistas e me attenho ao
affan poetico, que é minha praia cada vez mais impropria para banho.
Abbaixo transcrevo o sonnetto parodico para Arantes, um madrigal e umas
glosas ineditas, que entrarão em futuros volumes, ja não mais
parametrados pela forma fixa do sonnetto, e sim da sextilha em
decasyllabo e da decima em redondilha maior. Um urinario brinde a todos!
Saude! Salve! Digo, salve-se quem puder!
SONNETTO SOBRE UM PLANETA MAL MOLHADO [2988]
Agua que a chuva empoça no telhado
e cria o mosquitinho que nos picca...
Agua que, mal brotando la da bicca,
aqui ja chega suja, e a bebe o gado...
Agua fedendo a lodo que, cagado
no corrego, o empesteia e por la fica...
Agua residual de quem fabrica
venenos e agrotoxicos ao lado...
Agua que a gente bebe da torneira,
com cheiro de alga podre e que não serve
siquer para lavar uma lixeira...
Agua que, mesmo quando a gente ferve,
nos sabe a mau sabor, que mal nos cheira,
e irriga, no meu verso, o verme e a verve...
MADRIGAL PLUVIAL
Si chove, allaga tudo e causa o chaos.
Si falta chuva, os niveis estão maus.
Paresce a crise hydrica o dilemma
do seculo: agua molle ou pedra dura?
Concreto ou varzea verde? A gente rema
mais contra a correnteza ou a natura
nos pune com a secca? A pena extrema
será bebermos mijo ou merda pura?
Não falta um palpiteiro que assegura:
exgotto se approveita, si tractado!
Eu fico imaginando: que fartura
de merda! Estamos salvos! Mero dado
visivel e olfactivo é o da tinctura
marron... Quanto ao sabor... será do aggrado!
MOTTES GLOSADOS
Agua agora se raciona
até para tomar banho.
Lavar rola, lavar conna,
só no sabbado, e olhe la!
Como a coisa feia está,
agua agora se raciona.
Ja pensou? Que porcalhona
fica a gente! Nem me accanho
mais si alguem vê monco ou ranho
me excorrendo pela cara!
Que fazer, si a aguinha é rara
até para tomar banho?
Que legal! Vae ser cafona
manter limpa a minha bunda!
Mesmo a rola estando immunda,
agua agora se raciona!
O fedor daquella zona
corporal nada de extranho
mais terá! Pretexto eu ganho
si ter cheiro de gambá
vou, pois agua faltará
até para tomar banho!
Approveite emquanto pode
tomar banho demorado.
Você, caso se incommode
com cocô grudado ao rego,
seu banhinho, no sossego,
approveite emquanto pode!
Ensaboe seu bigode
devagar e, com cuidado,
lave o penis ensebado!
Amanhan, si a ducha secca,
vel-o eu quero, de caneca,
tomar banho demorado!
A vantagem dessa crise
é mais gente com chulé.
Por favor, ninguem me advise
que está secco outro riacho!
Mas, pensando bem, eu acho
a vantagem dessa crise...
Si é meu fracco que me pise
um rapaz que tenha pé
chulepento, torço até
para haver racionamento,
pois, sem agua, o que eu enfrento
é mais gente com chulé...
Mais ninguem pode dizer
de qual agua beberá.
"Desta aqui não vou beber,
nem daquella la, jamais!"
Essas phrases, ou quetaes,
mais ninguem pode dizer.
Todos temos o dever
de poupar agua: não dá
para achar que em nosso cha
não lavou alguem o pé.
Quem mijou ja sabe até
de qual agua beberá.
///
sábado, 11 de abril de 2015
MARÇO/2015: NOMES DE LETTRAS DANDO SOPA DE LETTRINHAS
No idioma inglez cada pessoa tem seu prenome abbreviado, em familia ou
entre amigos, e taes hypocoristicos teem, às vezes, equivalentes em
portuguez. Assim, Elizabeth fica Liz (para nós, Bete) ou, no diminutivo,
Lizzy (para nós, Betinha); Robert fica Bob (Beto) ou Bobby (Betinho);
Joseph fica Joe (Zé) ou Joey (Zezinho); Francis fica Frank (Chico);
Edward fica Ed (Dudu), e assim por deante. Alguns hypocoristicos só
funccionam em inglez mesmo, como Mick para Mickey ou Mike para Michael,
Tom para Thomas ou Tony para Anthony. Por isso o nosso Tom Jobim nada
tinha de americanizado, ao contrario do que accusava o critico José
Ramos Tinhorão. Era apenas uma forma alternativa para Tonho, bem
brazileira, como o Brazileiro que compunha seu nome.
Nossos anthroponymos ja tiveram appellidos mais communs. Joaquim era
sempre Juca ou Quincas. Manuel era Mané. Antonio era Tonho ou Tonico.
Hoje virou bagunça. Alguem pode ser baptizado como Juca mesmo, sem ser
Joaquim. Antes, Carlos Eduardo era Cadu e Carlos Henrique era Caique.
Maria Luiza era Malu e Maria Lucia era Maluca. Agora, o fulano é Cadu ou
Caique e a fulana Malu ou Maluca na propria certidão de nascimento. Isso
para não entrar no terreno dos modismos suppostamente "indigenas", typo
Kauan ou Tayná... Emfim, vale tudo, como attestam os elenchos dos nossos
times de futebol, cheios de Robson, Jobson, Madson, Jadson e quetaes.
Para quem gosta de bollar anagrammas, isso facilita a vida, claro. Um
Retson pode virar Nestor, ou um Aricson virar Narciso, para fugir da
vulgaridade. Na litteratura, o recurso sempre funccionou, como no caso
de America, que virou Iracema. A poesia é terreno propicio a taes
truques verbaes, desde o barroco até o concretismo, e não fiquei immune
à temptação. Feita a digressão, vamos ao gancho chronologico.
Ja evoquei diversas vezes as datas commemorativas da poesia, duas dellas
em março, mas o dia 12, consagrado ao bibliothecario (anniversario do
poeta Bastos Tigre, tambem profissional da area bibliotheconomica),
egualmente me diz respeito, ja que me bacharelei nessa area em 1972,
pela Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo, e exerci por breve
tempo o cargo como funccionario do Banco do Brazil no Rio. O dictado
"Casa de ferreiro, espeto de pau" calha bem no meu caso, pois nunca
cataloguei nem classifiquei meus proprios livros para accommodal-os na
estante. Mal e mal os aggrupei por tamanho ou typo de lombada, quando
ainda eram numerosos e volumosos. Hoje quasi que me limito a conservar
os livros de minha auctoria e uns poucos classicos ou obras
referenciaes.
Mas o dictado poderia ser "Casa de Ferreira...", dado que meu sobrenome
remette a uma das difficuldades da profissão, agora attenuada pelo
advento da internet: pesquisar os nomes correctos e completos
(orthonymos) dos auctores fichados. Nesse aspecto, faço mea culpa e
confesso que difficultei o trabalho dos collegas com meus varios
pseudonymos e heteronymos, alem dos cryptonymos, dos cyberonymos e dos
mais hybridos litteronymos. Ultimamente estive occupado com isso e acho
que meia duzia de interessados talvez queiram saber do que tracto.
Antes de assignar como Glauco Mattoso qualquer coisa que parescesse
litteraria, tentei bollar um pseudonymo menos commum que meu nome
proprio, Pedro José Ferreira da Silva. Mesmo que eu graphasse Sylva,
unica differença entre a actual e a antiga orthographia (ou a graphia
ideal que eu queria para a lingua portugueza), o nome continuaria vulgar
demais para o meu gosto. A solução mais temptadora foi crear um
anagramma, ou melhor, excolher entre innumeros anagrammas possiveis para
um orthonymo tão propicio a homonymos.
O primeiro que me occorreu foi José Sylveira da Pedra-Ferro, que daria a
assignatura litteraria José Pedra-Ferro. Só cheguei a usal-o em alguns
ex-libris carimbados nos primeiros volumes da minha bibliotheca, ja que
Glauco Mattoso se impoz desde o primeiro poema, "Kaleidoscopio", em
1974. Concluida a cega safra de sonnettos, que durou de 1999 a 2012, a
idéa de usar aquelle anagramma voltou como alternativa para a
previsibilidade de algo assignado por Glauco Mattoso, tal como uma
collectanea de sonnettos sobre cães das raças basset hound ou dachshund,
intitulada O BATATO E O BERINGELO.
Entrementes, outro anagramma tomou vulto, para a auctoria duma inedita
collectanea de sonnettos e mottes glosados de thematica prophana,
intitulada INCONFESSIONARIO. O heteronymo Padre Feijó viria de Padre
Sade Feijó Serra Virol, a quem attribuo o seguinte motte glosado que
enviei por email a meus contactos:
Deus te abbençoe, meu filho,
e quem te for da familia!
Com meus irmãos compartilho
a sancta graça do Pae
e minha reza aqui vae:
Deus te abbençoe, meu filho!
Mas sempre algum peccadilho
na minha bençam se pilha
e caio em cada armadilha!
Alguma cacophonia
à parte, em mim (Amen!) fia
e quem te for da familia!
Um amigo observou que o verso do fecho é "piada corrente", desattento
para o poncto relevante de que, corrente ou não, o que importa é o
encaixe da idéa no rigido formato da glosa, composta em redondilha maior
accentuada, aqui, na quarta syllaba. Outro detalhe foi que precisei
corrigir a versão corrente, diffundida como "e os que te for da
familia", evidente equivoco grammatical, ja que "os" só concorda com
"forem", o que invalidaria o cacophato. Esclarescido o retoque,
approveito para fallar de outras possibilidades anagrammaticas que
pretendo usar, para maior confusão daquelles gattos pingados que estudam
minha obra ou tentam registral-a, bibliographicamente correcta.
O anagramma Adderval Rijo Freyre Pessoa, abbreviado para Adderval
Pessoa, ficou reservado para as collectaneas cyclicas de sonnettos O
CIRANDEIRO e MINGAU DAS ALMAS, alem da collectanea de decimas A VOLTA DO
GLOSADOR MOTTEJOSO, cuja preparação ganhou folego com o encerramento da
producção sonnetistica.
O anagramma Israel David Jeferre Raposo, abbreviado para David Raposo,
figurará na auctoria das collectaneas cyclicas O LOBO DO HOMEM e
PSYCHOTROPICOS.
O anagramma Vereador Jilder Posse Faria, abbreviado para Vereador Faria,
assignará a collectanea INGOVERNABILIDADE, tambem inedita em livro,
focada em poemas satyricamente politicos.
O anagramma Professor Alê Jadder Vieira, abbreviado para Professor
Vieira, fica para a collectanea INCOMPETITIVIDADE, de sonnettos
futebollisticos.
Ja o heteronymo Sergio Sider forma anagramma com o titulo FEDOR E
PALAVRA dado a outra collectanea de sonnettos e glosas. O anagramma
seria perfeito si eu graphasse "Serjio". O mesmo se dá com o Dr. Serra
Versejo, que forma anagramma com o titulo da collectanea PAEDOPHILIA, e
com o Dr. Josaphé Sylvereda, que forma com o titulo da collectanea
ARREPIO, ou com o Fr. Sereio Jr. com o titulo da collectanea PEROLA
DESVIADA.
Nem sei si todas essas collectaneas sahirão impressas ou si algumas só
existirão em edição virtual, mas fica prompto o projecto, lembrando que,
na pelle de Glauco, ainda tenho muitos outros volumes engavetados.
Accabei deschartando, por emquanto, diversos embaralhamentos mais
comicos, typo Josias Levi Ferrado Pedrera, "Jefe" Salvador Peidorreiras,
Josias Arrafeder "Pedilover", Jofre da Porrada Viles Reyes, Javarry
Pererê Fodido Lessa, Professor Jededia Varrelia, Prof. Elvis Derradeiro
Ajaes ou José Vaddão Ferrari Presley. Assim como o vicio dos creadores
de palindromos se exgotta na forçação de barra, a mania do anagramma
pode redundar em monstrengos onomasticos de effeito meramente ludico.
Por isso parei por ahi.
E ja que exemplifiquei accyma uma glosa do Padre Feijó, cabe addeantar
uma do Vereador Faria, com a qual me despeço até o mez que vem.
Ora, deixa como está
para ver como é que fica!
Em politica, não ha
melhor phrase que defina
o que fica na latrina:
"Ora, deixa como está!"
Quem alli cagou não dá
a descarga, mas dá dica
de que egual acha a titica
ao seu voto, a merda ao motte.
No cagão você que vote
para ver como é que fica!
///
entre amigos, e taes hypocoristicos teem, às vezes, equivalentes em
portuguez. Assim, Elizabeth fica Liz (para nós, Bete) ou, no diminutivo,
Lizzy (para nós, Betinha); Robert fica Bob (Beto) ou Bobby (Betinho);
Joseph fica Joe (Zé) ou Joey (Zezinho); Francis fica Frank (Chico);
Edward fica Ed (Dudu), e assim por deante. Alguns hypocoristicos só
funccionam em inglez mesmo, como Mick para Mickey ou Mike para Michael,
Tom para Thomas ou Tony para Anthony. Por isso o nosso Tom Jobim nada
tinha de americanizado, ao contrario do que accusava o critico José
Ramos Tinhorão. Era apenas uma forma alternativa para Tonho, bem
brazileira, como o Brazileiro que compunha seu nome.
Nossos anthroponymos ja tiveram appellidos mais communs. Joaquim era
sempre Juca ou Quincas. Manuel era Mané. Antonio era Tonho ou Tonico.
Hoje virou bagunça. Alguem pode ser baptizado como Juca mesmo, sem ser
Joaquim. Antes, Carlos Eduardo era Cadu e Carlos Henrique era Caique.
Maria Luiza era Malu e Maria Lucia era Maluca. Agora, o fulano é Cadu ou
Caique e a fulana Malu ou Maluca na propria certidão de nascimento. Isso
para não entrar no terreno dos modismos suppostamente "indigenas", typo
Kauan ou Tayná... Emfim, vale tudo, como attestam os elenchos dos nossos
times de futebol, cheios de Robson, Jobson, Madson, Jadson e quetaes.
Para quem gosta de bollar anagrammas, isso facilita a vida, claro. Um
Retson pode virar Nestor, ou um Aricson virar Narciso, para fugir da
vulgaridade. Na litteratura, o recurso sempre funccionou, como no caso
de America, que virou Iracema. A poesia é terreno propicio a taes
truques verbaes, desde o barroco até o concretismo, e não fiquei immune
à temptação. Feita a digressão, vamos ao gancho chronologico.
Ja evoquei diversas vezes as datas commemorativas da poesia, duas dellas
em março, mas o dia 12, consagrado ao bibliothecario (anniversario do
poeta Bastos Tigre, tambem profissional da area bibliotheconomica),
egualmente me diz respeito, ja que me bacharelei nessa area em 1972,
pela Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo, e exerci por breve
tempo o cargo como funccionario do Banco do Brazil no Rio. O dictado
"Casa de ferreiro, espeto de pau" calha bem no meu caso, pois nunca
cataloguei nem classifiquei meus proprios livros para accommodal-os na
estante. Mal e mal os aggrupei por tamanho ou typo de lombada, quando
ainda eram numerosos e volumosos. Hoje quasi que me limito a conservar
os livros de minha auctoria e uns poucos classicos ou obras
referenciaes.
Mas o dictado poderia ser "Casa de Ferreira...", dado que meu sobrenome
remette a uma das difficuldades da profissão, agora attenuada pelo
advento da internet: pesquisar os nomes correctos e completos
(orthonymos) dos auctores fichados. Nesse aspecto, faço mea culpa e
confesso que difficultei o trabalho dos collegas com meus varios
pseudonymos e heteronymos, alem dos cryptonymos, dos cyberonymos e dos
mais hybridos litteronymos. Ultimamente estive occupado com isso e acho
que meia duzia de interessados talvez queiram saber do que tracto.
Antes de assignar como Glauco Mattoso qualquer coisa que parescesse
litteraria, tentei bollar um pseudonymo menos commum que meu nome
proprio, Pedro José Ferreira da Silva. Mesmo que eu graphasse Sylva,
unica differença entre a actual e a antiga orthographia (ou a graphia
ideal que eu queria para a lingua portugueza), o nome continuaria vulgar
demais para o meu gosto. A solução mais temptadora foi crear um
anagramma, ou melhor, excolher entre innumeros anagrammas possiveis para
um orthonymo tão propicio a homonymos.
O primeiro que me occorreu foi José Sylveira da Pedra-Ferro, que daria a
assignatura litteraria José Pedra-Ferro. Só cheguei a usal-o em alguns
ex-libris carimbados nos primeiros volumes da minha bibliotheca, ja que
Glauco Mattoso se impoz desde o primeiro poema, "Kaleidoscopio", em
1974. Concluida a cega safra de sonnettos, que durou de 1999 a 2012, a
idéa de usar aquelle anagramma voltou como alternativa para a
previsibilidade de algo assignado por Glauco Mattoso, tal como uma
collectanea de sonnettos sobre cães das raças basset hound ou dachshund,
intitulada O BATATO E O BERINGELO.
Entrementes, outro anagramma tomou vulto, para a auctoria duma inedita
collectanea de sonnettos e mottes glosados de thematica prophana,
intitulada INCONFESSIONARIO. O heteronymo Padre Feijó viria de Padre
Sade Feijó Serra Virol, a quem attribuo o seguinte motte glosado que
enviei por email a meus contactos:
Deus te abbençoe, meu filho,
e quem te for da familia!
Com meus irmãos compartilho
a sancta graça do Pae
e minha reza aqui vae:
Deus te abbençoe, meu filho!
Mas sempre algum peccadilho
na minha bençam se pilha
e caio em cada armadilha!
Alguma cacophonia
à parte, em mim (Amen!) fia
e quem te for da familia!
Um amigo observou que o verso do fecho é "piada corrente", desattento
para o poncto relevante de que, corrente ou não, o que importa é o
encaixe da idéa no rigido formato da glosa, composta em redondilha maior
accentuada, aqui, na quarta syllaba. Outro detalhe foi que precisei
corrigir a versão corrente, diffundida como "e os que te for da
familia", evidente equivoco grammatical, ja que "os" só concorda com
"forem", o que invalidaria o cacophato. Esclarescido o retoque,
approveito para fallar de outras possibilidades anagrammaticas que
pretendo usar, para maior confusão daquelles gattos pingados que estudam
minha obra ou tentam registral-a, bibliographicamente correcta.
O anagramma Adderval Rijo Freyre Pessoa, abbreviado para Adderval
Pessoa, ficou reservado para as collectaneas cyclicas de sonnettos O
CIRANDEIRO e MINGAU DAS ALMAS, alem da collectanea de decimas A VOLTA DO
GLOSADOR MOTTEJOSO, cuja preparação ganhou folego com o encerramento da
producção sonnetistica.
O anagramma Israel David Jeferre Raposo, abbreviado para David Raposo,
figurará na auctoria das collectaneas cyclicas O LOBO DO HOMEM e
PSYCHOTROPICOS.
O anagramma Vereador Jilder Posse Faria, abbreviado para Vereador Faria,
assignará a collectanea INGOVERNABILIDADE, tambem inedita em livro,
focada em poemas satyricamente politicos.
O anagramma Professor Alê Jadder Vieira, abbreviado para Professor
Vieira, fica para a collectanea INCOMPETITIVIDADE, de sonnettos
futebollisticos.
Ja o heteronymo Sergio Sider forma anagramma com o titulo FEDOR E
PALAVRA dado a outra collectanea de sonnettos e glosas. O anagramma
seria perfeito si eu graphasse "Serjio". O mesmo se dá com o Dr. Serra
Versejo, que forma anagramma com o titulo da collectanea PAEDOPHILIA, e
com o Dr. Josaphé Sylvereda, que forma com o titulo da collectanea
ARREPIO, ou com o Fr. Sereio Jr. com o titulo da collectanea PEROLA
DESVIADA.
Nem sei si todas essas collectaneas sahirão impressas ou si algumas só
existirão em edição virtual, mas fica prompto o projecto, lembrando que,
na pelle de Glauco, ainda tenho muitos outros volumes engavetados.
Accabei deschartando, por emquanto, diversos embaralhamentos mais
comicos, typo Josias Levi Ferrado Pedrera, "Jefe" Salvador Peidorreiras,
Josias Arrafeder "Pedilover", Jofre da Porrada Viles Reyes, Javarry
Pererê Fodido Lessa, Professor Jededia Varrelia, Prof. Elvis Derradeiro
Ajaes ou José Vaddão Ferrari Presley. Assim como o vicio dos creadores
de palindromos se exgotta na forçação de barra, a mania do anagramma
pode redundar em monstrengos onomasticos de effeito meramente ludico.
Por isso parei por ahi.
E ja que exemplifiquei accyma uma glosa do Padre Feijó, cabe addeantar
uma do Vereador Faria, com a qual me despeço até o mez que vem.
Ora, deixa como está
para ver como é que fica!
Em politica, não ha
melhor phrase que defina
o que fica na latrina:
"Ora, deixa como está!"
Quem alli cagou não dá
a descarga, mas dá dica
de que egual acha a titica
ao seu voto, a merda ao motte.
No cagão você que vote
para ver como é que fica!
///
sábado, 14 de março de 2015
FEVEREIRO/2015: DELIRIOS MOMESCOS
No livro A VACCA E O HIPPOGRYPHO, Mario Quintana diz textualmente: "Ja
ouvi dizer que as tribus primitivas vazavam os olhos dos poetas...
Tambem deviam ser assim os olhos dos Prophetas porque a sua luz não era
deste mundo. E aos homens assustava-os a belleza e a verdade." Não por
acaso a citação evoca dois nomes gregos, Homero e Tiresias. E ja que
tractamos de evocações, permitto-me outras associações de idéas neste
periodo dionysiaco, propicio a phantasias desmascaradas.
Em diversas culturas (não apenas as primitivas, como dizia Quintana) a
figura do poeta se confundia com a do bobo da corte, mixto de palhaço,
cantor e contador de anecdotas. Quando Sansão, ja indefeso e cegado
pelos philisteus, foi levado a exhibir-se nos festejos publicos, ficou
explicito que deveria "brincar" para divertir a platéa. Ou seja:
expor-se ao ridiculo pela propria cegueira. Si a desgraça alheia pode
ser um comico espectaculo, tambem pode inspirar orgasticas e orgiacas
phantasias. Pensemos no sadomasochismo como fertil palco para papeis e
trajes typicos. Como numa bacchanal carnavalesca, cada participante
personifica uma tara ou um fetiche, todos devidamente vestidos... ou
despidos. Ao couro da bota sadica corresponde o couro da venda
masochista. Ao chicote do dominador corresponde a algema do escravo. E
assim por deante.
No caso dos cegos, ou mais precisamente dos cegados, seja por obra
humana ou... sobrehumana, o individuo subhumanizado não está usando a
venda temporariamente, dahi o aspecto mais fascinante da carnavalização,
por assim dizer, da cegueira. Mais que punição ao prisioneiro, mais que
a disciplina do escravo nos dominios dum clube SM, a cegueira representa
diversão ante a diversidade, perversão ante a perversidade.
Menciono dois episodios, um que me foi contado, outro que vivenciei. Um
joven escriptor cearense relatou-me que, ao desembarcar na rodoviaria de
Fortaleza, notou que um cego agguardava adjuda para attravessar a rua e
dispoz-se a conduzil-o. O cego, aggradescido, confessou que nem sempre
encontrava pessoas tão solidarias. E desabbafou que ja fora cercado por
malandros que o despiram, jogaram-no ao chão e fizeram-no rolar na areia
da praia. Quanto a mim, fui levado certa vez, por um grupo de
fanzineiros, a um estudio photographico, onde me fizeram posar com "cara
de soffrimento" e "cara de gozo", ora revirando os olhos para cyma, como
si implorasse aos céus, ora mostrando a lingua como si babasse de
extase. Fizeram-me de perfeito bobo, não da corte, mas do corte, ja que
as photos accabaram deschartadas da materia a ser editada, que sahiu bem
differente da pauta original, para minha decepção... ou allivio, talvez.
Quando pesquisei a poesia de Baudelaire, magistralmente traduzida pelo
recemfallescido Ivan Junqueira, achei um sonnetto com o qual me
identifico e que tem a ver com a posição rastejante do caso cearense e
com meu olhar supplicante captado pelas cameras dos zineiros. Approveito
o clima pantomimico de fevereiro para transcrever o sonnetto francez,
accompanhado dum motte glosado por mim e de outro sonnetto, este
allusivo à phrase de Quintana supracitada. Vamos ver, ou melhor, vejam
vocês si os poetas interpretam, de facto, as hallucinações dos foliões,
ou si divaguei e extrapolei demais, enclausurado em casa emquanto a
farra come solta la fora.
OS CEGOS [traducção de Ivan Junqueira]
Contempla-os, ó minha alma; elles são pavorosos!
Eguaes aos mannequins, grottescos, singulares,
Somnambulos talvez, terríveis si os olhares,
Lançando não sei onde os globos tenebrosos!
Suas pupillas, onde ardeu a luz divina,
Como si olhassem à distancia, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Si um delles a sonhar sua cabeça inclina.
Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silencio infinito. Ó cidade!
Emquanto em torno cantas, ris e uivas ao léu,
Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! tambem me arrasto! e, mais do que elles pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?
LES AVEUGLES [original de Baudelaire]
Contemple-les, mon âme!; ils sont vraiment affreux!
Pareils aux mannequins; vaguement ridicules;
Terribles, singuliers comme les somnambules;
Dardant on ne sait où leurs globes ténébreux.
Leurs yeux, d'où la divine étincelle est partie,
Comme s'ils regardaient au loin, restent levés
Au ciel; on ne les voit jamais vers les pavés
Pencher rêveusement leur tête appesantie.
Ils traversent ainsi le noir illimité,
Ce frère du silence éternel. Ô cité!
Pendant qu'autour de nous tu chantes, ris et beugles,
Éprise du plaisir jusqu'à l'atrocité,
Vois! Je me traîne aussi! Mais, plus qu'eux hébété,
Je dis: Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles?
MOTTE E GLOSA DE GLAUCO MATTOSO
Baudelaire enxerga o cego
rastejante, e o povo rindo.
Do sonnetto um termo eu pego:
quem não vê quasi "rasteja".
Tanto quanto outrem que veja,
Baudelaire enxerga o cego
degradado, o que eu não nego.
Soffro assim, ja que, do lindo
panorama usufruindo,
quem me advista acha mottejo
si aos mais chatos pés me vejo
rastejante, e o povo rindo.
SONNETTO DESLUSTROSO [Glauco Mattoso]
Quintana diz que as tribus de outras eras
vazavam do poeta os olhos sãos
de modo a que enxergasse só os desvãos
que estão entre as verdades e as chimeras.
Mas hoje, o que é mentira e o que é, deveras,
na mente confundimos: nem pagãos,
nem crentes ousariam pôr as mãos
na jaula, a ver si estão vivas as feras.
Os cegos, ora inuteis como vates,
só servem hoje em dia para officio
bem menos importante: o de engraxates.
Rarissimos aquelles cujo vicio
secreto seja, alem de engraxar gratis,
dizer que usam a lingua, como eu disse-o.
///
sábado, 7 de fevereiro de 2015
JANEIRO/2015: SELF RESPECT
Com esses advanços da technologia, daqui a pouco o dia do photographo
vae ser dia de qualquer um, ja que os apparelhos cellulares permittem
que o portador grave e salve tudo à sua volta, inclusive elle proprio,
todo contorcido e distorcido. Faltava à technologia a invenção do
desconfiometro de ultima geração e do simancol sem contraindicações,
mas, visto que a cara de pau está completamente liberada, por que não
registral-a digitalmente para ser compartilhada nas redes antisociaes?
Ainda que a autophoto se generalize, continua valendo homenagear, na
local commemoração de 8 de janeiro (data em que a daguerreotypia teria
sido introduzida no Brazil), aquelle artista, amador ou profissional,
que se especializou em capturar personagens e scenarios da pathetica
especie humana nas mais tragicomicas situações.
Pessoalmente, tenho um tributo a pagar, tanto na epocha em que enxergava
quanto na actual phase da cegueira, aos photographos que registraram
minha cara de bunda, na pessoa destes que passo a mencionar.
Rubinho Chaves, que captou minha melhor imagem, rosto collado ao solado
dum tennis numero 50, maior tamanho disponivel em marca nacional, em
1988.
Claudio Cammarota, cujas solas nunca cheguei a lamber e cujo pau não
chupei, mas que phantasiei me photographando emquanto eu fizesse taes
coisas, que fez commigo varias sessões entre 1999 e 2006.
Edson Kumasaka, auctor dum ensaio utilizado na divulgação do show que
fiz com André Abujamra no CCBB, em 2005.
Eder Chiodetto, que fez as imagens divulgadas na primeira Ballada
Litteraria, na qual fui homenageado, em 2006.
Pedro Stephan, que me visitou em 2008 para uma memoravel sessão.
Aguida Amaral, Maria do Carmo Bergamo e Leila Fugii, a quem posei para
livros e revistas mais recentemente, ja debilitado pela reclusão da
cegueira e pelas sequelas pulmonares, prostaticas e diabeticas.
Finalmente, Akira Nishimura, que, amadoristica e amorosamente, vem me
flagrando emquanto saboreio, lambuzando-me desastradamente, todo typo de
iguaria e guloseima capaz de desaffiar as dietas que eu deveria fazer
mas que só augmentam minha desqualidade de vida, ao passo que as
comilanças e lambanças ao menos compensam o desprazer de viver.
A todos, inclusive ao anonymo auctor das photos que documentaram o
lançamento do JORNAL DOBRABIL no Spazio Pirandello, em 1981, todos que
estão postados em galerias do Flickr, rendo meu reconhescimento nesta
opportunidade, approveitando para deixar o link aos curiosos e uma glosa
inedita. A vocês, que enxergam bem e bem applicam a visão critica,
desejo o maior successo nessa actividade que jamais deixará de ser arte,
a despeito desses burrissimos portadores de cellulares intelligentes...
www.flickr.com/photos/106091275@N07/
MOTTE:
Hoje alguem se photographa
a chupar a propria rola!
GLOSA:
Com a bocca na garrafa
foi flagrada muita gente,
mas agora é differente!
Hoje alguem se photographa
a si mesmo e não se safa
do ridiculo, na tola
posição de quem quer pol-a:
cellular em punho, posa,
numa scena embaraçosa,
a chupar a propria rola!
///
sábado, 10 de janeiro de 2015
INAUGURANDO "ASSUMPTOS ACTUAES"
ASSUMPTOS ACTUAES é um blog creado exclusivamente para archivar as
chronicas assignadas por Glauco Mattoso na columna EPHEMERDAS do portal
litterario www.blocosonline.com.br editado por Leila Miccolis. A partir
de septembro de 2014, os textos mensaes serão transcriptos para o blog,
no mez seguinte ao da publicação em EPHEMERDAS.
Glauco Mattoso é poeta, auctor de mais de cinco mil sonnettos.
Actualmente não compõe mais nesse molde, mas ainda practica outras
estrophações. Para informações sobre a orthographia que adopta e sobre
sua obra, suggere-se accessar:
http://correctororthographico.blogspot.com.br
www.facebook.com/glauco.mattoso.9
www.youtube.com/user/gatinhocachorro
www.youtube.com/channel/UCZlUwC8U3EPadvBpozQkb-g?feature=watch
DEZEMBRO/2014: ANTHRO/POP/HAGIA
Oswald de Andrade pode, sim, ter sido feliz ao conceber um bello
pretexto para a nossa dependencia cultural das influencias extrangeiras,
ou seja, bem bollou esse cannibalismo carnavalesco que combina com a
caricatura indigenista dos tropicos. No plano litterario, tal
anthropophagia (resumida no lapidar trocadilho de "Tupy or not tupy,
that is the question") funccionou a contento para os padrões (ou
antipadrões) modernistas. Mas, no plano musical, a verdadeira
"devoração" rhythmica e thematica da diversidade alienigena foi feita,
mesmo, nos States e, por extensão, na canção pop (sobretudo rockeira) de
lingua ingleza. Aqui não tenho espaço para theorizações que exigiriam
volumosas theses, mas parto do presupposto de que tem sido no rock (e em
seus generos parallelos) e não no cancioneiro brazileiro que as mais
variadas tendencias dansantes vão se fundindo numa unica e eclectica
digestão junkie. De passagem, recordo outra polemica: ha quem diga que o
jazz seria o unico genero musical genuinamente americano, emquanto
outros salientam que é justamente no jazz que se processam as fusões
mais tendentes a uma supposta "musica mundial". Prefiro me atter ao
rock.
Pela proximidade geographica, é natural que a musica latino-americana,
sobretudo a caribenha, tenha sido a principal fonte da cannibalização
rockeira. Nem fallo de casos ponctuaes como os de "La Bamba"
transformada em "Twist and shout" ou de "Babalu" transformada em
"Papa-oom-mow-mow". Basta lembrar os casos mais genericos, como o da
rumba estylizada por Bo Diddley ou do cha-cha-cha estylizado pelas
innumeras bandas que regravaram "Louie Louie" a partir da historica
faixa do grupo Richard Berry and The Pharoahs (sim, Pharoahs, não
confundir com os Pharaohs do Sam the Sham).
No caso do ska jamaicano, que, tanto quanto o reggae, tem parentesco com
rhythmos caribenhos (como o calypso) e que fructificou mais amplamente
no ambiente britannico, são pioneiros os exemplos que ponctuaram nas
paradas internacionaes ja nos idos sessentistas, como "My boy Lollipop"
pela Millie Small ou "Baby come back" pelos Equals. É sobre um desses
popskas que fallo hoje, por ser o mais marginal e ostracizado: "Shame
and scandal in the family", gravado em 1965 por Lance Percival e Shawn
Elliot, com posteriores regravações que vão de Peter Tosh a Trini Lopez,
passando pelos Stylistics. No Brazil a faixa mais tocada foi a de
Elliot, que deu origem à pueril versão de Renato e seus Blue Caps,
adequada aos nossos tempos de censura dictatorial, cujo refrão era
"Conhesci um cappeta em forma de guri". Passada aquella phase de
successo, a canção foi "archivada" na scena, emquanto muitos
desinformados acham que o mais pioneiro popska seria "Ob-la-di,
ob-la-da" dos Beatles.
Fiquemos, porem, com a incestuosa e adultera lettra original de
"Scandal", que tambem soffreu variantes em alguns versos. Aqui vae ella,
com seus erroneos colloquialismos de inglez, typicos dos suburbios
terceiro-mundistas, como "don't know" em vez de "doesn't". Tracta-se
duma anecdota magistralmente adaptada a versos cantaveis, na qual um
joven quer a permissão do pae para se casar, mas, para cada garota que
namora, o pae responde que não, porque "ella é tua irman mas tua mãe não
sabe". Quando o rapaz, envergonhado, resolve abrir o jogo com a mãe,
esta contraria a expectativa e acha graça, respondendo: "Vae em frente,
garoto! Teu pae não é teu pae mas teu pae não sabe!".
SHAME AND SCANDAL IN THE FAMILY [Brown/Donaldson]
Woe is me
Shame and scandal in the family
In Trinidad there was a family
With much confusion as you will see
It was a mama and a papa and a boy who was grown
He wanted to marry, have a wife of his own
Found a young girl that suited him nice
Went to his papa to ask his advice
His papa said: "Son, I have to say no,
This girl is your sister, but your mama don't know"
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
A week went by and the summer came 'round
Soon the best cook in the island he found
He went to his papa to name the day
His papa shook his head and to him did say
"You Can't marry this girl, I have to say no
This girl is your sister, but your mama don't know"
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
He went to his mama and covered his head
And told his mama what his papa had said
His mama she laughed, she say, "Go man, go
Your daddy ain't your daddy, but your daddy don't know."
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
Ja que a maxima celebração de dezembro gyra em torno da familia christan
e, por extensão, de todas as familias harmonicamente constituidas, cabe
ao poeta maldicto assignalar o incommodo facto de que nem todas as
familias se enquadram nessa utopica cellula da convivencia humana. De
minha parte, illustro os desadjustes com dois sonnettos, o primeiro dos
quaes tirado da serie "Minhas cirandinhas", e desejo a todos, adjustados
e desadjustados, um festivo final de anno.
MINHAS CIRANDINHAS (VII) [3497]
Como somos gente fina,
damos neste lupanar.
Nosso cu, papae ensigna,
volta e meia vamos dar.
Não se afflija, não, menina,
porque o boi vem nos pegar!
Elle paga uma propina
que não dá p'ra recusar!
Quem quizer pedophilia
que se accerte com tithia
e converse com mamãe!
Não queremos (Né, maninha?)
que quem, fora, se apporrinha
pague caro e, aqui, se accanhe!
PARA UMA FAMILIA UNIDA [2613]
Si "vice is nice, incest is best", à risca
seguiu aquelle austriaco o dictado
inglez! Pois, com a filha, o pae tarado
tivera filhos-netos! Boa bisca!
Um cara que a ser pego nem se arrisca
mantendo num porão o sequestrado
netinho, que da mãe repousa ao lado
na cama, é verosimil? Me bellisca!
Incrivel! Vou morrer e não vi tudo!
Depois ainda fallam que o ceguinho
inventa muita coisa, é linguarudo...
No escandalo a seguir, até adivinho
o caso: irmão e irman teem surdo-mudo
rebento, e um cego a avó com seu sobrinho!
///
Assinar:
Postagens (Atom)
