No idioma inglez cada pessoa tem seu prenome abbreviado, em familia ou
entre amigos, e taes hypocoristicos teem, às vezes, equivalentes em
portuguez. Assim, Elizabeth fica Liz (para nós, Bete) ou, no diminutivo,
Lizzy (para nós, Betinha); Robert fica Bob (Beto) ou Bobby (Betinho);
Joseph fica Joe (Zé) ou Joey (Zezinho); Francis fica Frank (Chico);
Edward fica Ed (Dudu), e assim por deante. Alguns hypocoristicos só
funccionam em inglez mesmo, como Mick para Mickey ou Mike para Michael,
Tom para Thomas ou Tony para Anthony. Por isso o nosso Tom Jobim nada
tinha de americanizado, ao contrario do que accusava o critico José
Ramos Tinhorão. Era apenas uma forma alternativa para Tonho, bem
brazileira, como o Brazileiro que compunha seu nome.
Nossos anthroponymos ja tiveram appellidos mais communs. Joaquim era
sempre Juca ou Quincas. Manuel era Mané. Antonio era Tonho ou Tonico.
Hoje virou bagunça. Alguem pode ser baptizado como Juca mesmo, sem ser
Joaquim. Antes, Carlos Eduardo era Cadu e Carlos Henrique era Caique.
Maria Luiza era Malu e Maria Lucia era Maluca. Agora, o fulano é Cadu ou
Caique e a fulana Malu ou Maluca na propria certidão de nascimento. Isso
para não entrar no terreno dos modismos suppostamente "indigenas", typo
Kauan ou Tayná... Emfim, vale tudo, como attestam os elenchos dos nossos
times de futebol, cheios de Robson, Jobson, Madson, Jadson e quetaes.
Para quem gosta de bollar anagrammas, isso facilita a vida, claro. Um
Retson pode virar Nestor, ou um Aricson virar Narciso, para fugir da
vulgaridade. Na litteratura, o recurso sempre funccionou, como no caso
de America, que virou Iracema. A poesia é terreno propicio a taes
truques verbaes, desde o barroco até o concretismo, e não fiquei immune
à temptação. Feita a digressão, vamos ao gancho chronologico.
Ja evoquei diversas vezes as datas commemorativas da poesia, duas dellas
em março, mas o dia 12, consagrado ao bibliothecario (anniversario do
poeta Bastos Tigre, tambem profissional da area bibliotheconomica),
egualmente me diz respeito, ja que me bacharelei nessa area em 1972,
pela Eschola de Sociologia e Politica de São Paulo, e exerci por breve
tempo o cargo como funccionario do Banco do Brazil no Rio. O dictado
"Casa de ferreiro, espeto de pau" calha bem no meu caso, pois nunca
cataloguei nem classifiquei meus proprios livros para accommodal-os na
estante. Mal e mal os aggrupei por tamanho ou typo de lombada, quando
ainda eram numerosos e volumosos. Hoje quasi que me limito a conservar
os livros de minha auctoria e uns poucos classicos ou obras
referenciaes.
Mas o dictado poderia ser "Casa de Ferreira...", dado que meu sobrenome
remette a uma das difficuldades da profissão, agora attenuada pelo
advento da internet: pesquisar os nomes correctos e completos
(orthonymos) dos auctores fichados. Nesse aspecto, faço mea culpa e
confesso que difficultei o trabalho dos collegas com meus varios
pseudonymos e heteronymos, alem dos cryptonymos, dos cyberonymos e dos
mais hybridos litteronymos. Ultimamente estive occupado com isso e acho
que meia duzia de interessados talvez queiram saber do que tracto.
Antes de assignar como Glauco Mattoso qualquer coisa que parescesse
litteraria, tentei bollar um pseudonymo menos commum que meu nome
proprio, Pedro José Ferreira da Silva. Mesmo que eu graphasse Sylva,
unica differença entre a actual e a antiga orthographia (ou a graphia
ideal que eu queria para a lingua portugueza), o nome continuaria vulgar
demais para o meu gosto. A solução mais temptadora foi crear um
anagramma, ou melhor, excolher entre innumeros anagrammas possiveis para
um orthonymo tão propicio a homonymos.
O primeiro que me occorreu foi José Sylveira da Pedra-Ferro, que daria a
assignatura litteraria José Pedra-Ferro. Só cheguei a usal-o em alguns
ex-libris carimbados nos primeiros volumes da minha bibliotheca, ja que
Glauco Mattoso se impoz desde o primeiro poema, "Kaleidoscopio", em
1974. Concluida a cega safra de sonnettos, que durou de 1999 a 2012, a
idéa de usar aquelle anagramma voltou como alternativa para a
previsibilidade de algo assignado por Glauco Mattoso, tal como uma
collectanea de sonnettos sobre cães das raças basset hound ou dachshund,
intitulada O BATATO E O BERINGELO.
Entrementes, outro anagramma tomou vulto, para a auctoria duma inedita
collectanea de sonnettos e mottes glosados de thematica prophana,
intitulada INCONFESSIONARIO. O heteronymo Padre Feijó viria de Padre
Sade Feijó Serra Virol, a quem attribuo o seguinte motte glosado que
enviei por email a meus contactos:
Deus te abbençoe, meu filho,
e quem te for da familia!
Com meus irmãos compartilho
a sancta graça do Pae
e minha reza aqui vae:
Deus te abbençoe, meu filho!
Mas sempre algum peccadilho
na minha bençam se pilha
e caio em cada armadilha!
Alguma cacophonia
à parte, em mim (Amen!) fia
e quem te for da familia!
Um amigo observou que o verso do fecho é "piada corrente", desattento
para o poncto relevante de que, corrente ou não, o que importa é o
encaixe da idéa no rigido formato da glosa, composta em redondilha maior
accentuada, aqui, na quarta syllaba. Outro detalhe foi que precisei
corrigir a versão corrente, diffundida como "e os que te for da
familia", evidente equivoco grammatical, ja que "os" só concorda com
"forem", o que invalidaria o cacophato. Esclarescido o retoque,
approveito para fallar de outras possibilidades anagrammaticas que
pretendo usar, para maior confusão daquelles gattos pingados que estudam
minha obra ou tentam registral-a, bibliographicamente correcta.
O anagramma Adderval Rijo Freyre Pessoa, abbreviado para Adderval
Pessoa, ficou reservado para as collectaneas cyclicas de sonnettos O
CIRANDEIRO e MINGAU DAS ALMAS, alem da collectanea de decimas A VOLTA DO
GLOSADOR MOTTEJOSO, cuja preparação ganhou folego com o encerramento da
producção sonnetistica.
O anagramma Israel David Jeferre Raposo, abbreviado para David Raposo,
figurará na auctoria das collectaneas cyclicas O LOBO DO HOMEM e
PSYCHOTROPICOS.
O anagramma Vereador Jilder Posse Faria, abbreviado para Vereador Faria,
assignará a collectanea INGOVERNABILIDADE, tambem inedita em livro,
focada em poemas satyricamente politicos.
O anagramma Professor Alê Jadder Vieira, abbreviado para Professor
Vieira, fica para a collectanea INCOMPETITIVIDADE, de sonnettos
futebollisticos.
Ja o heteronymo Sergio Sider forma anagramma com o titulo FEDOR E
PALAVRA dado a outra collectanea de sonnettos e glosas. O anagramma
seria perfeito si eu graphasse "Serjio". O mesmo se dá com o Dr. Serra
Versejo, que forma anagramma com o titulo da collectanea PAEDOPHILIA, e
com o Dr. Josaphé Sylvereda, que forma com o titulo da collectanea
ARREPIO, ou com o Fr. Sereio Jr. com o titulo da collectanea PEROLA
DESVIADA.
Nem sei si todas essas collectaneas sahirão impressas ou si algumas só
existirão em edição virtual, mas fica prompto o projecto, lembrando que,
na pelle de Glauco, ainda tenho muitos outros volumes engavetados.
Accabei deschartando, por emquanto, diversos embaralhamentos mais
comicos, typo Josias Levi Ferrado Pedrera, "Jefe" Salvador Peidorreiras,
Josias Arrafeder "Pedilover", Jofre da Porrada Viles Reyes, Javarry
Pererê Fodido Lessa, Professor Jededia Varrelia, Prof. Elvis Derradeiro
Ajaes ou José Vaddão Ferrari Presley. Assim como o vicio dos creadores
de palindromos se exgotta na forçação de barra, a mania do anagramma
pode redundar em monstrengos onomasticos de effeito meramente ludico.
Por isso parei por ahi.
E ja que exemplifiquei accyma uma glosa do Padre Feijó, cabe addeantar
uma do Vereador Faria, com a qual me despeço até o mez que vem.
Ora, deixa como está
para ver como é que fica!
Em politica, não ha
melhor phrase que defina
o que fica na latrina:
"Ora, deixa como está!"
Quem alli cagou não dá
a descarga, mas dá dica
de que egual acha a titica
ao seu voto, a merda ao motte.
No cagão você que vote
para ver como é que fica!
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sábado, 11 de abril de 2015
sábado, 14 de março de 2015
FEVEREIRO/2015: DELIRIOS MOMESCOS
No livro A VACCA E O HIPPOGRYPHO, Mario Quintana diz textualmente: "Ja
ouvi dizer que as tribus primitivas vazavam os olhos dos poetas...
Tambem deviam ser assim os olhos dos Prophetas porque a sua luz não era
deste mundo. E aos homens assustava-os a belleza e a verdade." Não por
acaso a citação evoca dois nomes gregos, Homero e Tiresias. E ja que
tractamos de evocações, permitto-me outras associações de idéas neste
periodo dionysiaco, propicio a phantasias desmascaradas.
Em diversas culturas (não apenas as primitivas, como dizia Quintana) a
figura do poeta se confundia com a do bobo da corte, mixto de palhaço,
cantor e contador de anecdotas. Quando Sansão, ja indefeso e cegado
pelos philisteus, foi levado a exhibir-se nos festejos publicos, ficou
explicito que deveria "brincar" para divertir a platéa. Ou seja:
expor-se ao ridiculo pela propria cegueira. Si a desgraça alheia pode
ser um comico espectaculo, tambem pode inspirar orgasticas e orgiacas
phantasias. Pensemos no sadomasochismo como fertil palco para papeis e
trajes typicos. Como numa bacchanal carnavalesca, cada participante
personifica uma tara ou um fetiche, todos devidamente vestidos... ou
despidos. Ao couro da bota sadica corresponde o couro da venda
masochista. Ao chicote do dominador corresponde a algema do escravo. E
assim por deante.
No caso dos cegos, ou mais precisamente dos cegados, seja por obra
humana ou... sobrehumana, o individuo subhumanizado não está usando a
venda temporariamente, dahi o aspecto mais fascinante da carnavalização,
por assim dizer, da cegueira. Mais que punição ao prisioneiro, mais que
a disciplina do escravo nos dominios dum clube SM, a cegueira representa
diversão ante a diversidade, perversão ante a perversidade.
Menciono dois episodios, um que me foi contado, outro que vivenciei. Um
joven escriptor cearense relatou-me que, ao desembarcar na rodoviaria de
Fortaleza, notou que um cego agguardava adjuda para attravessar a rua e
dispoz-se a conduzil-o. O cego, aggradescido, confessou que nem sempre
encontrava pessoas tão solidarias. E desabbafou que ja fora cercado por
malandros que o despiram, jogaram-no ao chão e fizeram-no rolar na areia
da praia. Quanto a mim, fui levado certa vez, por um grupo de
fanzineiros, a um estudio photographico, onde me fizeram posar com "cara
de soffrimento" e "cara de gozo", ora revirando os olhos para cyma, como
si implorasse aos céus, ora mostrando a lingua como si babasse de
extase. Fizeram-me de perfeito bobo, não da corte, mas do corte, ja que
as photos accabaram deschartadas da materia a ser editada, que sahiu bem
differente da pauta original, para minha decepção... ou allivio, talvez.
Quando pesquisei a poesia de Baudelaire, magistralmente traduzida pelo
recemfallescido Ivan Junqueira, achei um sonnetto com o qual me
identifico e que tem a ver com a posição rastejante do caso cearense e
com meu olhar supplicante captado pelas cameras dos zineiros. Approveito
o clima pantomimico de fevereiro para transcrever o sonnetto francez,
accompanhado dum motte glosado por mim e de outro sonnetto, este
allusivo à phrase de Quintana supracitada. Vamos ver, ou melhor, vejam
vocês si os poetas interpretam, de facto, as hallucinações dos foliões,
ou si divaguei e extrapolei demais, enclausurado em casa emquanto a
farra come solta la fora.
OS CEGOS [traducção de Ivan Junqueira]
Contempla-os, ó minha alma; elles são pavorosos!
Eguaes aos mannequins, grottescos, singulares,
Somnambulos talvez, terríveis si os olhares,
Lançando não sei onde os globos tenebrosos!
Suas pupillas, onde ardeu a luz divina,
Como si olhassem à distancia, estão fincadas
No céu; e não se vê jamais sobre as calçadas
Si um delles a sonhar sua cabeça inclina.
Cruzam assim o eterno escuro que os invade,
Esse irmão do silencio infinito. Ó cidade!
Emquanto em torno cantas, ris e uivas ao léu,
Nos braços de um prazer que tangencia o espasmo,
Olha! tambem me arrasto! e, mais do que elles pasmo,
Digo: que buscam estes cegos ver no Céu?
LES AVEUGLES [original de Baudelaire]
Contemple-les, mon âme!; ils sont vraiment affreux!
Pareils aux mannequins; vaguement ridicules;
Terribles, singuliers comme les somnambules;
Dardant on ne sait où leurs globes ténébreux.
Leurs yeux, d'où la divine étincelle est partie,
Comme s'ils regardaient au loin, restent levés
Au ciel; on ne les voit jamais vers les pavés
Pencher rêveusement leur tête appesantie.
Ils traversent ainsi le noir illimité,
Ce frère du silence éternel. Ô cité!
Pendant qu'autour de nous tu chantes, ris et beugles,
Éprise du plaisir jusqu'à l'atrocité,
Vois! Je me traîne aussi! Mais, plus qu'eux hébété,
Je dis: Que cherchent-ils au Ciel, tous ces aveugles?
MOTTE E GLOSA DE GLAUCO MATTOSO
Baudelaire enxerga o cego
rastejante, e o povo rindo.
Do sonnetto um termo eu pego:
quem não vê quasi "rasteja".
Tanto quanto outrem que veja,
Baudelaire enxerga o cego
degradado, o que eu não nego.
Soffro assim, ja que, do lindo
panorama usufruindo,
quem me advista acha mottejo
si aos mais chatos pés me vejo
rastejante, e o povo rindo.
SONNETTO DESLUSTROSO [Glauco Mattoso]
Quintana diz que as tribus de outras eras
vazavam do poeta os olhos sãos
de modo a que enxergasse só os desvãos
que estão entre as verdades e as chimeras.
Mas hoje, o que é mentira e o que é, deveras,
na mente confundimos: nem pagãos,
nem crentes ousariam pôr as mãos
na jaula, a ver si estão vivas as feras.
Os cegos, ora inuteis como vates,
só servem hoje em dia para officio
bem menos importante: o de engraxates.
Rarissimos aquelles cujo vicio
secreto seja, alem de engraxar gratis,
dizer que usam a lingua, como eu disse-o.
///
sábado, 7 de fevereiro de 2015
JANEIRO/2015: SELF RESPECT
Com esses advanços da technologia, daqui a pouco o dia do photographo
vae ser dia de qualquer um, ja que os apparelhos cellulares permittem
que o portador grave e salve tudo à sua volta, inclusive elle proprio,
todo contorcido e distorcido. Faltava à technologia a invenção do
desconfiometro de ultima geração e do simancol sem contraindicações,
mas, visto que a cara de pau está completamente liberada, por que não
registral-a digitalmente para ser compartilhada nas redes antisociaes?
Ainda que a autophoto se generalize, continua valendo homenagear, na
local commemoração de 8 de janeiro (data em que a daguerreotypia teria
sido introduzida no Brazil), aquelle artista, amador ou profissional,
que se especializou em capturar personagens e scenarios da pathetica
especie humana nas mais tragicomicas situações.
Pessoalmente, tenho um tributo a pagar, tanto na epocha em que enxergava
quanto na actual phase da cegueira, aos photographos que registraram
minha cara de bunda, na pessoa destes que passo a mencionar.
Rubinho Chaves, que captou minha melhor imagem, rosto collado ao solado
dum tennis numero 50, maior tamanho disponivel em marca nacional, em
1988.
Claudio Cammarota, cujas solas nunca cheguei a lamber e cujo pau não
chupei, mas que phantasiei me photographando emquanto eu fizesse taes
coisas, que fez commigo varias sessões entre 1999 e 2006.
Edson Kumasaka, auctor dum ensaio utilizado na divulgação do show que
fiz com André Abujamra no CCBB, em 2005.
Eder Chiodetto, que fez as imagens divulgadas na primeira Ballada
Litteraria, na qual fui homenageado, em 2006.
Pedro Stephan, que me visitou em 2008 para uma memoravel sessão.
Aguida Amaral, Maria do Carmo Bergamo e Leila Fugii, a quem posei para
livros e revistas mais recentemente, ja debilitado pela reclusão da
cegueira e pelas sequelas pulmonares, prostaticas e diabeticas.
Finalmente, Akira Nishimura, que, amadoristica e amorosamente, vem me
flagrando emquanto saboreio, lambuzando-me desastradamente, todo typo de
iguaria e guloseima capaz de desaffiar as dietas que eu deveria fazer
mas que só augmentam minha desqualidade de vida, ao passo que as
comilanças e lambanças ao menos compensam o desprazer de viver.
A todos, inclusive ao anonymo auctor das photos que documentaram o
lançamento do JORNAL DOBRABIL no Spazio Pirandello, em 1981, todos que
estão postados em galerias do Flickr, rendo meu reconhescimento nesta
opportunidade, approveitando para deixar o link aos curiosos e uma glosa
inedita. A vocês, que enxergam bem e bem applicam a visão critica,
desejo o maior successo nessa actividade que jamais deixará de ser arte,
a despeito desses burrissimos portadores de cellulares intelligentes...
www.flickr.com/photos/106091275@N07/
MOTTE:
Hoje alguem se photographa
a chupar a propria rola!
GLOSA:
Com a bocca na garrafa
foi flagrada muita gente,
mas agora é differente!
Hoje alguem se photographa
a si mesmo e não se safa
do ridiculo, na tola
posição de quem quer pol-a:
cellular em punho, posa,
numa scena embaraçosa,
a chupar a propria rola!
///
sábado, 10 de janeiro de 2015
INAUGURANDO "ASSUMPTOS ACTUAES"
ASSUMPTOS ACTUAES é um blog creado exclusivamente para archivar as
chronicas assignadas por Glauco Mattoso na columna EPHEMERDAS do portal
litterario www.blocosonline.com.br editado por Leila Miccolis. A partir
de septembro de 2014, os textos mensaes serão transcriptos para o blog,
no mez seguinte ao da publicação em EPHEMERDAS.
Glauco Mattoso é poeta, auctor de mais de cinco mil sonnettos.
Actualmente não compõe mais nesse molde, mas ainda practica outras
estrophações. Para informações sobre a orthographia que adopta e sobre
sua obra, suggere-se accessar:
http://correctororthographico.blogspot.com.br
www.facebook.com/glauco.mattoso.9
www.youtube.com/user/gatinhocachorro
www.youtube.com/channel/UCZlUwC8U3EPadvBpozQkb-g?feature=watch
DEZEMBRO/2014: ANTHRO/POP/HAGIA
Oswald de Andrade pode, sim, ter sido feliz ao conceber um bello
pretexto para a nossa dependencia cultural das influencias extrangeiras,
ou seja, bem bollou esse cannibalismo carnavalesco que combina com a
caricatura indigenista dos tropicos. No plano litterario, tal
anthropophagia (resumida no lapidar trocadilho de "Tupy or not tupy,
that is the question") funccionou a contento para os padrões (ou
antipadrões) modernistas. Mas, no plano musical, a verdadeira
"devoração" rhythmica e thematica da diversidade alienigena foi feita,
mesmo, nos States e, por extensão, na canção pop (sobretudo rockeira) de
lingua ingleza. Aqui não tenho espaço para theorizações que exigiriam
volumosas theses, mas parto do presupposto de que tem sido no rock (e em
seus generos parallelos) e não no cancioneiro brazileiro que as mais
variadas tendencias dansantes vão se fundindo numa unica e eclectica
digestão junkie. De passagem, recordo outra polemica: ha quem diga que o
jazz seria o unico genero musical genuinamente americano, emquanto
outros salientam que é justamente no jazz que se processam as fusões
mais tendentes a uma supposta "musica mundial". Prefiro me atter ao
rock.
Pela proximidade geographica, é natural que a musica latino-americana,
sobretudo a caribenha, tenha sido a principal fonte da cannibalização
rockeira. Nem fallo de casos ponctuaes como os de "La Bamba"
transformada em "Twist and shout" ou de "Babalu" transformada em
"Papa-oom-mow-mow". Basta lembrar os casos mais genericos, como o da
rumba estylizada por Bo Diddley ou do cha-cha-cha estylizado pelas
innumeras bandas que regravaram "Louie Louie" a partir da historica
faixa do grupo Richard Berry and The Pharoahs (sim, Pharoahs, não
confundir com os Pharaohs do Sam the Sham).
No caso do ska jamaicano, que, tanto quanto o reggae, tem parentesco com
rhythmos caribenhos (como o calypso) e que fructificou mais amplamente
no ambiente britannico, são pioneiros os exemplos que ponctuaram nas
paradas internacionaes ja nos idos sessentistas, como "My boy Lollipop"
pela Millie Small ou "Baby come back" pelos Equals. É sobre um desses
popskas que fallo hoje, por ser o mais marginal e ostracizado: "Shame
and scandal in the family", gravado em 1965 por Lance Percival e Shawn
Elliot, com posteriores regravações que vão de Peter Tosh a Trini Lopez,
passando pelos Stylistics. No Brazil a faixa mais tocada foi a de
Elliot, que deu origem à pueril versão de Renato e seus Blue Caps,
adequada aos nossos tempos de censura dictatorial, cujo refrão era
"Conhesci um cappeta em forma de guri". Passada aquella phase de
successo, a canção foi "archivada" na scena, emquanto muitos
desinformados acham que o mais pioneiro popska seria "Ob-la-di,
ob-la-da" dos Beatles.
Fiquemos, porem, com a incestuosa e adultera lettra original de
"Scandal", que tambem soffreu variantes em alguns versos. Aqui vae ella,
com seus erroneos colloquialismos de inglez, typicos dos suburbios
terceiro-mundistas, como "don't know" em vez de "doesn't". Tracta-se
duma anecdota magistralmente adaptada a versos cantaveis, na qual um
joven quer a permissão do pae para se casar, mas, para cada garota que
namora, o pae responde que não, porque "ella é tua irman mas tua mãe não
sabe". Quando o rapaz, envergonhado, resolve abrir o jogo com a mãe,
esta contraria a expectativa e acha graça, respondendo: "Vae em frente,
garoto! Teu pae não é teu pae mas teu pae não sabe!".
SHAME AND SCANDAL IN THE FAMILY [Brown/Donaldson]
Woe is me
Shame and scandal in the family
In Trinidad there was a family
With much confusion as you will see
It was a mama and a papa and a boy who was grown
He wanted to marry, have a wife of his own
Found a young girl that suited him nice
Went to his papa to ask his advice
His papa said: "Son, I have to say no,
This girl is your sister, but your mama don't know"
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
A week went by and the summer came 'round
Soon the best cook in the island he found
He went to his papa to name the day
His papa shook his head and to him did say
"You Can't marry this girl, I have to say no
This girl is your sister, but your mama don't know"
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
He went to his mama and covered his head
And told his mama what his papa had said
His mama she laughed, she say, "Go man, go
Your daddy ain't your daddy, but your daddy don't know."
Oh, woe is me
Shame and scandal in the family
Ja que a maxima celebração de dezembro gyra em torno da familia christan
e, por extensão, de todas as familias harmonicamente constituidas, cabe
ao poeta maldicto assignalar o incommodo facto de que nem todas as
familias se enquadram nessa utopica cellula da convivencia humana. De
minha parte, illustro os desadjustes com dois sonnettos, o primeiro dos
quaes tirado da serie "Minhas cirandinhas", e desejo a todos, adjustados
e desadjustados, um festivo final de anno.
MINHAS CIRANDINHAS (VII) [3497]
Como somos gente fina,
damos neste lupanar.
Nosso cu, papae ensigna,
volta e meia vamos dar.
Não se afflija, não, menina,
porque o boi vem nos pegar!
Elle paga uma propina
que não dá p'ra recusar!
Quem quizer pedophilia
que se accerte com tithia
e converse com mamãe!
Não queremos (Né, maninha?)
que quem, fora, se apporrinha
pague caro e, aqui, se accanhe!
PARA UMA FAMILIA UNIDA [2613]
Si "vice is nice, incest is best", à risca
seguiu aquelle austriaco o dictado
inglez! Pois, com a filha, o pae tarado
tivera filhos-netos! Boa bisca!
Um cara que a ser pego nem se arrisca
mantendo num porão o sequestrado
netinho, que da mãe repousa ao lado
na cama, é verosimil? Me bellisca!
Incrivel! Vou morrer e não vi tudo!
Depois ainda fallam que o ceguinho
inventa muita coisa, é linguarudo...
No escandalo a seguir, até adivinho
o caso: irmão e irman teem surdo-mudo
rebento, e um cego a avó com seu sobrinho!
///
NOVEMBRO/2014: PHALLO FALLADO, CALÃO CONSENTIDO
Dois themas novembrinos (Ou novembreiros? Ou novembrescos? Ou
novembristas? Ou novembrosos? Ou novembrudos? Ou novembrados? Que lingua
abundante e carente, esta nossa!) que ja me suscitaram desabbafos são as
datas para finados e diabetes, mas, por coincidencia, accabo de abbordar
taes topicos na chronica do mez passado. Fico então com a sempre
opportuna commemoração que, neste ou naquelle almanach, consta da agenda
do dia 5, o dia nacional da lingua portugueza, vigente desde 2006 e
allusivo ao anniversario de Ruy Barbosa.
Vem a proposito esse enfoque brazileiro sobre a matriz lusa, pois, como
é consensual, o poema mais definitivo thematizando o nosso idioma não é
de Camões, nem de Bocage, nem de Quental, nem de Pessoa, mas sim de
Bilac, o paradigma parnasiano do perfeccionismo, com o civismo incluso
no pacote. Poucos sabem que, alem do sonnetto à lingua portugueza, Bilac
compoz um para a musica brazileira, que, por ser anterior ao proprio
samba, nem de longe synthetiza a riqueza e a diversidade do cancioneiro
tupyniquim nas decadas de trinta em deante.
Como todo classico, Bilac foi bastante parodiado, principalmente no
sonnetto "Ouvir estrellas", mas ninguem ousou brincar com algo tão
petreo como a lingua nativa. Mesmo que brincassem, não ultrapassariam os
limites do humor innocente que se verifica na maioria das parodias. Foi
ahi que entrei e resolvi bagunçar um pouco esse coretto. A parodia que
compuz foi elaborada durante um laboratorio na Casa das Rosas, em 2005,
dentro da officina que ministrei sob o titulo "O verso fescennino: curto
e fino". Posteriormente, inclui aquella satyra como exemplo do genero no
TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO que sahiu em livro e foi contehudo digital na
decada passada.
Claro que não reivindico primazia alguma, pois Gregorio ou Bocage
provavelmente se me teriam antecipado (no que se metteriam
galhardamente), caso Bilac não lhes fosse postero. Apenas assumo meu
radicalismo chulo, sem o qual o procedimento parodico não teria, para
mim, a graça desbragada que, fora dos parametros esthetico-philologicos,
o portuguez offeresce aos desboccados e sonega aos puristas e puritanos.
Isto dicto, seguem-se o original bilaquiano e minha leitura
pornographica.
LINGUA PORTUGUEZA [Olavo Bilac]
Ultima flor do Lacio, inculta e bella,
És, a um tempo, exsplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhescida e obscura.
Tuba de alto clangor, lyra singella,
Que tens o trom e o silvo da procella,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exilio amargo,
O genio sem ventura e o amor sem brilho!
LINGUA PUTANHEIRA [sonnetto 1012]
A lingua deflorada, puta bella,
a um tempo é despudor e compostura.
Menina virgem, sim, porem impura:
tem cabacinho mas caralhos fella.
Quero-te assim, cu doce e picca dura,
caricia, acto de amor, curra barrela,
que tens o dom e o vicio da donzella
e o ardor da crueldade e da tortura!
Amo teus bardos, anjos de Sodoma,
bastardos de olho vivo e de anus largo!
Amo-te, ó grosso e doloroso idioma,
em que o Pae me chamou "da puta filho"
e em que eu choro a cegueira e canto o encargo
de usar-te a lamber botas, dando um brilho!
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OUTUBRO/2014: O JAZIGO AO DESABRIGO E O MAUSOLÉU AO LÉU
Quasi cahi no obvio quando, entre os eventos de outubro, achei o dia
mundial da visão. Claro que eu ja tenho poema prompto sobre o thema,
mas, como attravesso mais uma crise pulmonar e a cegueira completa vinte
annos em breve, deixo a visão para o anno que vem e me detenho no medo
mais immediato da morte, suscitado por tanta tosse e tanta febre. Dahi
que vem a calhar a allusão funeraria que agora abbordo.
No mez passado fiquei devendo o poema de Jorge de Sena que parodiei no
sonnetto abbaixo e aqui resgato a pendencia. Depois commento.
SONNETTO PARA OS RESTOS DE JORGE DE SENA [3083]
No tumulo em que Sena está sepulto
quer elle que o moleque toque bronha,
que o namorado de castigo ponha
a moça, alli estuprada sem indulto.
Que o puto chucro e que o malandro estulto
alli forniquem sem siquer vergonha.
Que alli se beba e fume até maconha.
Que o satanista faça alli seu culto.
Mais pede Sena aos vivos: que a creança
vadia nessa pedra deite o mijo,
zombando de quem nunca alli descansa.
Com elle estou de accordo! Eu proprio exijo
na lapide que deixem, de lembrança
gravando, a sola suja e o phallo rijo!
O DESEJADO TUMULO [Jorge de Sena]
Numa azinhaga escura de arrabalde
haveis de sepultar-me. Que o meu tumulo
seja o logar excuso para encontros.
Que o joven desesperado e solitario
vagueando venha masturbar-se alli;
que o namorado sem um quarto aonde
leve ao castigo a namorada, a traga
e a force e a viole sobre a minha tumba;
que o invertido venha adjoelhar-se
à beira della ante quem esperma vende,
ou deite abbaixo as calças e se entregue,
as mãos buscando appoio nessa pedra.
Que bandos de malandros alli tragam
a rapariga que raptaram, e
a deixem la extendida a excorrer sangue.
Que as prostitutas reles, piolhosas,
na lage pinguem corrimentos quando
a pobres velhos se venderem la.
E que as creanças que brincando venham
jogar à minha volta, sem pisar nos canthos
a trampa mais cheirosa do que a morte
e que à memoria humana de azinhagas,
alli descubram, mal adivinhando,
as nodoas seccas do que foi violencia,
ou foi desejo ou o que se chama vicio
e as lavem rindo com seu mijo quente
a rechinar na pedra que me cobre
(e regressem um dia a repetil-as).
Bem, a primeira reflexão suscitada por esses epitaphios poeticos é a de
que são todos menos desejados que ensejados e menos terminaes que
terminologicos. No intimo ninguem quer antever a propria lapide. Ja
escutei o fallecido Ariano Suassuna dizendo que a unica forma de vencer
a morte é a arte e que o homem não nasceu para morrer e sim para a
immortalidade, pois a obra sobrevive ao auctor. Porem, como dizia Nelson
Cavaquinho, "Mas, depois que o tempo passar, sei que ninguem vae se
lembrar que eu fui embora. Por isso é que eu penso assim: si alguem
quizer fazer por mim, que faça agora."
Tenho pensado nisso emquanto, entre uma crise e outra de bronchite, me
tracto duma prostatite e, surprehendido por alta dosagem de assucar na
urina e no sangue, sou diagnosticado como diabetico e forçado a uma
rigorosa dieta accompanhada de perpetuos medicamentos. Nada consolador
para quem ja perdeu a visão, hem? E que dizer do dialogo mais recente
entre mim e meu medico? Vejam só:
- Seu Pedro, o ultimo exame confirma alguma queda nos numeros, mas elles
ainda estão bem accyma do normal... Vamos ver no proximo si a queda se
mantem.
- Doutor, tomara mesmo que o tractamento esteja dando resultado, porque
todo esse sacrificio tem que valer a pena, né?
- Bem, si o senhor continuar se cuidando tem boa perspectiva na
qualidade de vida. Sua edade é 64, não?
- Meia trez. Quantas decadas ainda o senhor me daria?
- Uma, na melhor das hypotheses. Ja não está bom para o senhor? Leve na
esportiva, seu Pedro, ha, ha, ha!
- Só uma? Mas por que, doutor?
- Essa é a exspectativa de vida do brazileiro hoje. Isso si o senhor
estiver medicado e responder ao tractamento.
- Puxa! Então sejamos optimistas, né?
- Claro, seu Pedro! Pensamento positivo! É só não relaxar na dieta nem
se esquecer dos remedios, e o senhor tem grande chance de...
- De comer bollo no proximo anniversario?
- Ha, ha, ha! Boa piada, seu Pedro!
- De voltar a comer pizza?
- Magina! Chance de não ter que amputar o pé! Pizza, nem pensar! Pizza e
diabetes não cabem na mesma phrase!
- Claro, claro, doutor! Nada como uma boa noticia dessas! Quem sabe
daqui a dez mezes eu possa ter dez kilos a menos e dez annos a mais, né?
- Isso, seu Pedro! De grão em grão, integral se come o pão, como diria
minha collega nutricionista, ha, ha, ha! Passar bem, seu Pedro!
Minha nossa, penso eu. Ainda tenho que ouvir isso... Dos males, o menor.
Antes depender da metformina que da morphina, oh, triste signa que me
azucrina... Mas isto eu não disse ao medico, para evitar maiores
gargalhadas.
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