sábado, 30 de julho de 2016

ALEX

Mattoso visualizando: "Do cinephilo que fui emquanto enxergava, a
memoria guarda como scena suprema aquella do Alex lambendo sola em
LARANJA MECHANICA, aqui copiada. Approveito para transcrever um sonnetto
allusivo, incluido no livro O CINEPHILO ECLECTICO, ainda sem edição
impressa. Saudações orthographicas!"




GEMMAS DO CINEMA (III) [sonnetto 4052]

A scena culminante, em close, é aquella
de Kubrick, em que o joven delinquente
que fora, outrora, algoz de tanta gente,
agora, na prisão, supplica e appella.

Será disciplinado: sae da cella
directo para um palco, onde consente,
na marra, que um subjeito o aggrida e tente
fazel-o reagir. Que occupa a tela?

Cahido, Alex, de cara para cyma,
é visto de perfil, emquanto a sola
lhe cobre a bocca: ha pé que mais opprima?

Com ordem de lamber, Alex exfolla
a lingua, que se dobra e se approxima
dum humido capacho: humilde eschola!


Sobre o methodo de escripta adoptado pelo auctor, accessem:
http://correctororthographico.blogspot.com.br

Contacto directo com o auctor: mattosog@gmail.com

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sábado, 30 de abril de 2016

7 DE MAIO/2016: DIA DO SILENCIO


Muito ja me queixei da falta de silencio, principalmente durante as
madrugadas, quando balladeiros e caçambeiros, lixeiros e baderneiros
perturbam minhas infructiferas tentativas de debellar a insomnia, para a
qual certamente contribuem outros factores (inclusive a propria
cegueira), mas que podia ser combattida com alguma efficacia si as
noites paulistanas não fossem tão barulhentas. Ja tive opportunidade de
enaltescer o silencio em prosa e verso, mas agora quero fallar dos
momentos em que não sinto falta do silencio ou, pelo contrario, é o
silencio que me faz sentir falta de algo. Melhor dizendo, de alguem, ja
que a presença do meu cachorro se traduz em ruidosa sonoplastia:
lattidos, correria, vozes (minha e de Akira) chamando, ralhando ou
rindo... tudo por compta do nosso bassetudo mascotte que, como todos
sabem, se chama Chicho.


Meus pingados leitores tambem ja foram appresentados a Jorge e Salomão,
respectivamente o dono e seu basset, mais conhescido como Salô. Nossa
amizade com aquelle vizinho sessentão vem se estreitando à medida que
virou habito domingueiro levar Salô e Chicho ao "cachorrodromo" do
Ibirapuera. Mas Jorge, que fica todo embevescido com a chance de tutelar
dois salsichudos e vel-os brincar como dois colleguinhas de eschola na
hora do recreio, não se contenta com leval-os e trazel-os de carro: na
volta do parque, deixa-os à vontade dentro de casa (um sobradão com
quintal arborizado, desses typicos aqui da Villa Mariana) e, alem de
lhes offerescer petiscos de todo typo e a toda hora, lhes estimula a
vocação vocal, abrindo-lhes o piano da sala e convidando-os a cantar e
tocar até o fim da tarde. Alguem extranhou? Calma, que tudo tem
explicação.


Sabe-se que, com um pouquinho de encorajamento, a bassezada se desinhibe
e accaba dando show de interpretação, caso da famosa Lucy, estrella do
cyberespaço, cujo solo agguarda apenas um apito para brilhar mundo
affora. Aqui vae a scena immortal:





Claro que, tal como a creançada, os hounds se soltam mais quando teem
companhia, caso do trio vocal que, incentivado pelo uivo humano do
"maestro" que dirige a scena, performa um khoro de causar inveja aos
trez tenores mais populares da historia. Segue a sessão anthologica:





Talento mais raro é o dos orelhudos que se accompanham ao piano, pois
sua carreira artistica exige mais ensaio e affinação. No primeiro caso,
o pianista demonstra sua capacidade de improvisar, mas é Tommy, o grande
idolo do publico audiovisual, quem arrasa com seu perfeito senso de
rhythmo e de melodia. Eis seu maior successo nas paradas do
"canicioneiro" internacional, logo em seguida à appresentação do
improvisador:







Pois não é que Jorjão, encerrando o lanche e accenando com mais
biscoitos depois do sarau, convida Salô e Chicho a uma audição
pianistica, seguida de exercicios individuaes ou em duetto? Primeiro,
elle se senta e toca uma sonata de Scarlatti, ou algo que lembre aquella
sonoridade barroca. Descomptado o amadorismo, até que elle obtem
approvação da dupla que, obviamente, não applaude apenas para aggradar
ao amphitryão que os banqueteia. Encerrado o primeiro numero, chega a
vez de Salô, mais accostumado ao teclado. Por ultimo, Chicho tem seu
momento de gloria, exhibindo ao amigo e ao dono da casa os mais bellos
accordes que uma torta pattola e um tymbre lyricamente grave são capazes
de harmonizar ao ouvido humano.


Emquanto Jorge se emociona quasi até às lagrymas com o khoro
"cãomeristico" (como elle trocadilha), eu quasi não contenho meu choro
de saudade, impaciente com a demora do interphone em annunciar o retorno
do meu fofo campeão, todinho marron e marrento. Affinal Chicho é
devolvido ao nosso convivio e, ainda excitado pelo dia de folia,
percorre todo o appartamento, correndo e lattindo para affugentar
qualquer mariposa intrusa que, como os passarinhos diurnos, possa
invadir seu territorio.


Emfim a casa echoa sons de animação e vida, pondo fim à tarde dominical
que, a despeito dos torcedores que gritam, xingam ou cantarolam la fora,
me paresce tão quieta a poncto de calar no espirito a impressão de
silencio absoluto...


Akira tambem retornou de seu passeio costumeiro e, agora, nós trez
fazemos da cozinha o poncto de encontro da familia. Chicho nos observa
emquanto jantamos, comportadamente sentado nas pattas de traz, farejando
o ar à espera duma lasquinha de presuncto ou duma bituquinha de
linguiça. Em casa de Jorge, elle se sente à vontade para seguir o mau
exemplo do Salô, que tem liberdade até para appoiar as pattas deanteiras
na coxa de quem se senta à mesa, a fim de ganhar pedaços dados na bocca,
mas aqui em casa Chicho sabe que tem regras e permanesce sentadinho e
affastado da minha cadeira emquanto eu e Akira nos servimos. Ja fui
franco e fallei que Salô está muito mal accostumado, precisando de
disciplina mais rigida, mas a resposta do Jorjão é sempre a mesma: "Ah,
coitado!..." Só uma vez, em logar de entregar Chicho aos cuidados do
Jorge, acceitei ficar com os dois bassets no apê, mas foi o que bastou
para entender quanta bagunça ambos appromptam junctos e quão
malcomportado é o mais joven amigo pretão do meu moleque marronzão.
Quando Salô quiz fazer minha coxa de degrau na hora da janta,
segurei-lhe a pattola e disse: "Salôôô! Vocêêê, querendo subir em mim
com ESTA pattola?" Elle reagiu como todo basset quando lhe pegam na
patta: puxou-a e desceu. Tentou de novo e repeti o gesto, até que
percebesse a differença de permissividade e se collocasse ao lado do
Chicho, agguardando sentado que eu jogasse algo no chão. Outra hora
contarei mais mammatas que Chicho não tem e Salô desfructa da mão do
dono.


Quem não tem cachorro e leu até aqui deve estar pensando: "Mas a troco
de que toda essa papparicação dum bicho de estimação? Qual a implicação
disso na historia litteraria ou na harmonia universal?" Não, não se
tracta meramente de reflectir sobre o ambiente silencioso ou ruidoso
conforme a solidão ou a companhia do momento. Tampouco de conjecturar
sobre o immutavel mutismo kosmico, quer sob a optica physica, quer sob a
metaphysica. Talvez devessemos enquadrar o silencio sob um olhar mais
"quantico", a partir duma percepção, não digo extrasensorial, mas
synesthesica. A philosophia que está por traz do silencio é a mesma que
está por traz das trevas. No silencio, a memoria auditiva funcciona para
que sintamos falta dos ruidos aos quaes estamos accostumados; na
escuridão, é a memoria visual que preenche a lacuna. Dahi se deprehende
que o silencio seria a saudade do som, tanto quanto a escuridão seria a
saudade da imagem. Por outras palavras, o silencio equivale à surdez,
como a escuridão à cegueira. Tudo bem, um silencio temporario é mesmo
repousante, tal como uma luz apagada é necessaria ao somno. Mas ninguem
desejaria um silencio eterno nem perpetuas trevas, a menos que tenha
perdido o amor pela vida. Em ultima analyse, que significa amor à vida?
Talvez amor às outras vidas que convivem com a nossa vida e amenizam a
sensação (ou o sentimento) de solidão. Precisamos de companhia tanto
quanto precisamos ver e ouvir aquelles que nos accompanham. Claro que
passar uma noite em claro nos impacienta, especialmente quando a
insomnia é causada pela barulheira da vizinhança. Mas peor que isso é
admanhescer sem ninguem a nosso lado, sem outra pessoa ou sem um
cachorro, por exemplo. Akira e Chicho representam mais que presenças
physicas: são signaes vitaes reciprocos, de que existimos um para o
outro. No meu caso, si não posso vel-os, posso ouvil-os e tocal-os,
donde a saudade de suas vozes, na ausencia delles, ja que suas figuras
não me são perceptiveis. Em summa, silencio é saudade. Portanto,
silencio não pode ser synonymo de eternidade, mas apenas de espera e de
paciencia, como quando agguardo a volta do Chicho ou do Akira, que
sahiram a passear e me deixaram aqui viajando mentalmente. Para remactar
a philosophia do silencio, transcrevo o sonnetto cujo video abriu esta
chronica.



SONNETTO FAREJADO (624)


Bassê no appartamento fuça em tudo!
Passeia pela sala e faz lambança
no pé dos moveis, maximo que alcança
um corpo tão comprido e salsichudo...


Ja li de especialistas um estudo
provando que o bassê, mais que a creança,
precisa bagunçar, e só se admansa
com beijo. Então, do meu nunca desgrudo.


Commigo no sofá, tambem cochila;
só falta, à mesa, usar o mesmo prato;
na cama nossa noite é bem tranquilla.


Extranham que ao cão como gente tracto?
Pois saibam que até cocker, collie e fila
me lattem dos vizinhos! E eu lhes latto!



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sábado, 2 de abril de 2016

8 DE ABRIL/2016: DIA DO BRAILLE



8 DE ABRIL/2016: DIA DO BRAILLE
16 DE ABRIL/2016: DIA DA VOZ


UMA FASCINANTE OFFICINA FESCENNINA


[1] Alli pelo final dos annos septenta, quando eu editava o poezine
JORNAL DOBRABIL ainda em folhas soltas dactylographadas e xerocopiadas,
Augusto de Campos me incentivava e, ao contrario do que se possa suppor
dum apollineo poeta concretista, compartilhava meu dionysiaco
enthusiasmo pela poesia fescennina. A fim de supprir o JD com material
de que eu não dispunha, Augusto não só cedeu-me um sonnetto que
traduzira de Giuseppe Belli como emprestou-me livros difficeis de achar
por aqui, a exemplo da ANTHOLOGIA DE POESIA PORTUGUEZA EROTICA E
SATYRICA: DOS CANCIONEIROS MEDIEVAES À ACTUALIDADE, organizada por
Natalia Correa, que hoje está bem reeditada e disponivel.
Comprehensivelmente, não tinhamos obra similar que inventariasse o
turpiloquente legado tupyniquim. Só quando, ja cego e sonnettista, eu
entrava pelo novo seculo a publicar minha propria lyra pornosiana, foi
que sahiu a ANTHOLOGIA PORNOGRAPHICA de Alexei Bueno, parcialmente
abrangente para os dois lados do Atlantico. Seria preciso agguardar mais
uma decada até que viesse à luz a monumental empreitada de Eliane Robert
Moraes, ANTHOLOGIA DA POESIA EROTICA BRAZILEIRA, a mais exhaustiva e
investigativa, que só pecca pela ommissão de alguns representantes da
chamada "poesia de bordel" (repentistas, glosadores e chordelistas que
povoam a cantoria popular nordestina) ou dos representantes oitentistas
do MAP (Movimento de Arte Pornô): Eduardo Kac, Cairo Trindade e outros
inicialmente anthologiados por Leila Miccolis, ella propria ja
reconhescida, à epocha, como madura auctora duma visceral e virulenta
poesia feminina. A despeito de taes ommissões, a compilação da
professora Eliane alcança a geração de Roberto Piva e a minha mesma,
contemporaneos que somos da miccolissima Leilinha. Uma das virtudes da
obra, outrosim, foi a inclusão de dois poetas satyricamente homosexuaes
que, sem pretensões academicas nem editoriaes, compuzeram e compilaram a
varias mãos e masturbações uma collectiva collectanea intitulada
CANTHARIDAS. Assim os situou Oscar Gama Filho na appresentação do livro
publicado em 1985:


{Paulo de Tarso Vellozo e Guilherme Sanctos Neves foram os responsaveis
pela sua concepção, montagem, dactylographia e redacção. Com fins
satyricos, porem, attribuiam a outros a auctoria dos artigos e dos
poemas. O sonnetto "Vinte e quattro..." refere-se à coincidencia entre
duas datas: Jayme Sanctos Neves, o satyrizado, que nascera no dia 24,
estava completando vinte e quattro annos. Como Jayme veiu ao mundo em
1909, esse texto só pode ter sido produzido em 1933. Portanto, 1933 fica
estabelescido como anno-base para a creação de CANTHARIDAS.}


Esses trez nomes, identificados pelas iniciaes P, G e J, assignam
dezenas de sonnettos, dentre os quaes seleccionei os que aqui commento.
Tenha-se em mente que, na primeira metade do seculo passado, a
iniciativa daquella dupla de intellectuaes era clandestina e arriscada a
comprometter o futuro profissional de cada um que adherisse ao abjecto
projecto, quer fosse a carreira medica, quer fosse juridica ou
pedagogica. Foram elles, portanto, mais corajosos que eu, quando comecei
a explicitar minhas adventuras erotico-poeticas em pleno regime
dictatorial post-1964. Eis como os retracta (disfarsando-os de
nordestinos) outro parceiro de licenciosidades, appellidado Lapis,
Lapisu ou Lapisuinha, quebrando o pé do quarto verso mas quebrando
tambem quaesquer reservas de singello sigillo, lembrando que seria
suppostamente de Vellozo (natural de Victoria, Espirito Sancto) a
auctoria de varios sonnettos assignados por outros membros da tertullia:



OS TREZ FRESCOS DE ALAGOAS [L]


Guilherme, Paulo e Jayme, trez bandalhos,
Putanheiros terriveis, sem eguaes,
Em vez de abboccanharem bons caralhos
Vivem a fazer sonnettos immoraes. [hendecasyllabo]


Guilherme, ja velhote, é bem matreiro,
Bolina até veados, no cinema.
Nas horas vagas, consta que é padeiro,
Recebe patos do Francisco Gemma.


O Paulo quer ser puto e muito sente
Não poder engolir grossa bichoca,
Pois o kysto do cu fica na frente...


O Jayme, que tem sempre o pau bem rijo,
De uma menina, percebendo a toca,
Metteu o dedo-sonda... e tirou mijo!



Quanto ao sonnetto referido por Gama Filho, é o que se segue, annotado
na edição em livro como parodico dum sonnetto bocageano que alguns
attribuem a João Vicente Pimentel Maldonado, cujos versos iniciaes
dizem: "Não lamentes, ó Nize, o teu estado; / Puta tem sido muita gente
boa;". Logicamente, nem Bocage, nem Maldonado teriam commettido as
catalexes e dysrhythmias que assignalo e, mais addeante, apponcto em
outros casos.



VINTE E QUATTRO... [P]


Não lamentes, ó Jayme, o teu tormento,
Puto tem sido muito cabra forte;
E, mesmo, a data do teu nascimento [dysrhythmico]
Te obriga a ser veado até a morte!


A tua bunda, o teu andar dengoso,
Teu triste palavrorio dissoluto,
Faziam-me pensar: "Paulo Vellozo,
Será que o teu amigo Jayme é puto?"


Dobrando o vinte e quattro, estás fagueiro,
E deante de tal coincidencia,
Accredito que és mesmo bundeiro... [enneasyllabo]


E ahi é que a cousa se estrombica, [enneasyllabo]
Pois conhescendo ja tua tendencia,
Só posso dar-te, de presente, a picca...



[2] Naquella phase septentista e dobrabilesca meus versos, comquanto
escatologicos, pautavam-se pelo librismo marioswaldiano, pelo
colloquialismo marginal e pelo graphismo concreto. Minha attitude em
relação ao sonnetto era a do admirador parodista e do leigo iconoclasta.
Dahi que, em 1985, quando o DOBRABIL ja tinha virado livro e virado a
pagina, me maravilhei ante a publicação do volume das CANTHARIDAS E
OUTROS POEMAS FESCENNINOS pelo sello paulistano Max Limonad: aquelles
sonnettos homoeroticos, a um tempo classicistas pela forma e
contraculturaes pela ousadia libertina/libertaria, configuravam, ao meu
olhar, tudo quanto eu almejaria compor caso fosse eximio practicante do
genero e unisse a putaria mais escancarada ao mais fechado rigor
estichologico. Tive, então, a mesma impressão registrada por Reynaldo
Sanctos Neves (renomado escriptor e filho de Guilherme) na orelha do
livro, quanto ao quesito qualitativo:


{Embora seja eu quem o diga, e sou suspeito, tendo ouvido muitos desses
poemas quasi desde o berço [...] é só abrir uma pagina a esmo e ler.
Veja que são poemas (em sua maioria sonnettos) extraordinarios tanto em
seu aspecto formal como em sua imagistica original e escabrosa, em sua
linguagem rica e irreverente, salpiccada de saborosos palavrões hoje em
desuso, poemas que ainda se characterizam por um fio conductor que,
conforme assignala Oscar Gama Filho em sua appresentação, accaba dando
um toque de romance à obra como um todo.}


Sigamos a suggestão de Reynaldo e folheemos ao acaso para acquilatar a
validade de suas palavras. O sonnetto abbaixo apparenta guardar as
characteristicas mencionadas. Sinão, vejamos:



CURUBA [J]


Chegou-se a mim, o puto, e sem ter pejo
Escorregou-me a mão pela virilha,
Fingindo procurar um percevejo;
E, pouco a pouco, abriu-me a barriguilha.


Puxou-me para fora o p'ra-ti-leve
E cocegas me fez co'a leve mão.
Depois, entremostrou-me o cu de neve
E o rosado perfil do seu bujão.


Pegou-me, do caralho, no gargalo,
E uma pivia mascou-me, à Ruy Barbosa...
Mas sentindo, do cu, coçar o callo,


Elle teve uma idéa genial:
Deixou ficar em meio a gloriosa,
E fez do meu caralho - Mitigal!



À parte a necessidade de notas para explicar que uma "pivia à Ruy
Barbosa" seria uma "masturbação complementada pelo gesto de passar uma
das mãos sobre a glande" e que Mitigal seria uma "pomada para alliviar a
coceira", fica patente o colorido da linguagem, que emprega expressões
bem castiças em meio a outras mais debochadas, como "barriguilha" em
logar de "braguilha", "p'ra-ti-leve" em logar de penis, alem de "bujão",
"gargalo", "mascar" e "gloriosa". Sem duvida, um quadro de obra-prima
para retractar a scena masturbatoria, que se emmoldura pela correcta
composição dos decasyllabos, equilibrando heroicos classicos e martellos
aggalopados, remactados por rhymas que, si não são ricas, são felizes,
entre versos agudos e graves, tudo em perfeita proporção. Vale
accrescentar o que vae annotado na edição de 1985, procedimento que
farei doravante, sempre entre chaves, nas demais transcripções: {De
Jayme para Paulo, a se considerar o "callo" do verso onze como uma
referencia ao seu famoso kysto. "Curuba" é, segundo o Aurelio, uma
"pequena pustula pruriginosa", o que justifica a tirada do fecho do
poema.}


[3] Claro que, pela minha optica erotica, a veia viciosa dos vates
victorienses emphatizava demais a sodomia em detrimento da pederastia,
ou, para empregar uma concepção menos hellenistica, privilegiava a
penetração anal emquanto minimizava o papel do sexo oral, a mim tão caro
e autobiographico. Fetichismo e sadomasochismo, mais autobiographicos
ainda, eu nem esperava encontrar naquelle repertorio de epigrammas
reciprocamente sonnettados e compartilhados em saraus entre amigos, num
circulo privado e ambientado na capital capixaba dos annos trinta em
deante.


Seria pedir demais que um unico verso delles alludisse à podolatria, mas
a escassez de scenas de fellação me deixou um tanto desapponctado. Não
obstante, a consistencia litteraria e o pioneirismo thematico de tal
obra não me incutiam duvidas accerca da sua importancia historica. Agora
que Eliane Moraes as resgatou em sua anthologia, occorreu-me revisitar
as CANTHARIDAS, que coincidentemente voltaram às minhas mãos num
surradissimo exemplar presenteado pelo cearense Sylvio Sanctos, meu
collega de Academia Canindeense, depois que duas mudanças extraviaram
parte da bibliotheca na qual se achava meu exemplar original.


A escassez a que me refiro somente se exceptua em casos oralistas como
estes abbaixo, francamente "concedidos" em meio a tanta enrabação.
Assignalei duas quebras de pé, uma para menos, outra para mais, do
parametro decasyllabo, sendo que o verso claudicantemente alexandrino
poderia adjustar-se si fosse redigido assim, às custas duma apherese e
duma ecthlipse: "Emfim, va la! - Não 'stás co'esquentamento?":



ARCO-IRIS [P/J/G]


[P] Attracado ao manzarpo do Ramalho,
[J] O Nino, sob os raios violeta,
[J] Arreganhando o rubronegro talho,
[G] Chupa-o com gosto, qual rosada teta.


[G] Emquanto chupa o advermelhado malho,
[P] Rebolla o alvo cu do sacaneta, [enneasyllabo]
[J] E o atrophiado e pallido caralho
[P] Murcho balança, à mingua de punheta.


[J] A do Ramalho, furtacor bichoca,
[G] Se intumesce, ja roxa de tesão,
[P] E a cabeça azulada quasi poca...


[P] Vendo a coisa ja preta pro peru,
[J] Ramalho, p'ra evitar uma explosão,
[P] Abbafa a piça no irisado cu!



{Amigo intimo dos auctores e medico, não excappa o Nino de protagonizar
esta comedia, fazendo papel de homosexual passivo às voltas com um
collega medico, o Ramalho. A adjectivação do sonnetto é toda ella
constituida de termos relativos a cores, appresentados em grypho no
original.}



O QUE ELLE NÃO CONTOU... [J]


Foi na Praia da Costa, attraz do Lucio:
Eu estava enxugando a gran-caceta
E puxara p'ra traz o meu prepucio,
Descobrindo, do pau, a maçaneta,


Quando o fresco Tarsinho, que commigo
Mudava a roupa e tambem 'stava nu,
Vendo-me o pé-de-porco sob o umbigo,
Sentiu negra e feroz tesão de cu.


Fingindo procurar alguma cousa,
Logo s'agacha sobre o meu caralho
E a beiçola sedenta nelle pousa.


Com phrenesi, chupou-me a porra immunda,
E tão perfeito foi o seu trabalho,
Que nem pude, depois, comer-lhe a bunda.



{Replica de Jayme, refazendo a farsa à sua maneira e, logicamente,
invertendo toda a sua optica satyrica. O Lucio era como se chamava um
bar na Praia da Costa, cujo banheiro, nos fundos do quintal, era usado
para trocarem de roupa.}



TESUINA [P]


"Larga-me o pau! Não brinca! Ora que porra!
Assim não, que m'arranhas, Lapisu!
Não podes mais me ver a gran-pichorra,
Sem ter vontade de enfial-a ao cu?


Não fodo! Ja te disse que não fodo,
Pois me deixas o pau sempre cagado!
Não chupa, Lapisu! Que o mellas todo...
Deixa o puto do nabo sossegado!


Não me lamba os colhões! Eu sou cosquento...
Tu pensas que os meus ovos são jujuba?...
Emfim, va la! - Não estás com esquentamento? [alexandrino]


Deixa-me ver... - Que bunda magra e lisa!
Puta que o merda! Mas quanta curuba?!
Não, Lapisu! Só fodo com camisa...



{Volta Paulo a satyrizar Lapisuinha, para não perder o habito,
appresentando-o mais uma vez como homosexual passivo insistente e até
inconveniente em suas tentativas de seducção. O sonnetto se distingue
dos demais por sua estructura em forma de dialogo.}



[4] Foi divertido saborear novamente aquelle "fanchonismo"
thematico-estylistico que muitos tomariam, hoje, por anachronico e
hermetico, mas, agora que os leio com os ouvidos e não mais com os
olhos, os sonnettos de CANTHARIDAS ja não se me affiguram tão
modellares. Depois de compor milhares do typo e de elaborar um tractado
de versificação, estou mais attento aos tropeços e cochilos, a começar
pelos meus proprios. Logo, posso apponctar vicios dos quaes tambem
padesci e que hoje evito, o que não desmeresce os exemplos que ora
transcrevo e reorthographo. O tropeço mais flagrante é o metrico, do
qual, por signal, não excappou o proprio Paulo Vellozo ao fingir que
criticava versos alheios, incorrendo, elle proprio, na "metragem manca"
que imputava aos confrades, como no exemplo abbaixo, este sim,
metricamente correcto:



MERDORRHÉA [P]


Ah Gordo! Si te pego em Pau Gigante,
Si pudesse algum dia aqui te ver,
Tal bichocada dava-te ao cagante
Que nunca mais cagavas com prazer...


Si eu te pegasse aqui, Gordo maroto,
Co'a tua pudicissima regueira,
Havia de fazel-a, Gordo escroto,
Transformar-se em babaca de rampeira.


Os teus quattorze versos são um mixto
De fedentina e putaria franca,
Diffamando o meu nobre e roseo kysto.


Emfim, comtigo, nunca mais me metto,
Pois são teus versos, de metragem manca,
Caudaes de merda, à guisa de sonnetto.



{Replica de Paulo, que na occasião andava por Pau Gigante, ao sonnetto
XLI, de Jayme, a quem tracta por "Gordo". Note-se, no fecho do poema,
mais um exemplo de satyra coprologica ao fazer poetico alheio.}



[5] Quanto ao tal "nobre kysto" do qual Vellozo se vangloriava,
tracta-se do mais original e caricatural "personagem prosopopaico" do
livro, motivo das maiores gozações accerca daquelle rectal obstaculo às
penetrações obsessivamente practicadas pelos actores/auctores. A
referida excrescencia characteriza typico caso de metonymia (mais
precisamente, de synecdoche, figura que explanei no livro POESIA
QUESTIONADA), similar à minha fixação no pé que symboliza o sadismo e a
oppressão do mais forte sobre sua victima. No caso, a symbologia reside
na sodomia como peccaminosa e delictuosa perversão em tempos ainda muito
puritanos para que se admittisse abertamente uma abertura anal tão...
profunda.


Eis uma sequencia de sonnettos nos quaes o celebre kysto se immortaliza
na penna dos parceiros de Vellozo (si não do proprio), resalvados os
versos de pé quebrado e o emprego do termo "tesão" no feminino, uma
troca de generos mais corrente naquella epocha do que na actualidade,
bem como relevados devem ser os versos dysrhythmicos, isto é, que não se
encaixam nos metros heroicos (puro, impuro ou martello aggalopado), nem
no metro sapphico, normaes padrões do decasyllabo:



O SACANAZ [J]


Dizem ahi que um tal Paulo Vellozo, [heroico impuro]
Putanheiro maior que tenho visto, [martello]
Vate capenga, alem de malcheiroso, [heroico impuro]
Tem na prega do cu seboso kysto. [martello]


Amante de tesudos garanhões, [heroico puro]
E conhescido lambedor de connas, [sapphico]
Vivia sempre a esvaziar colhões [sapphico]
De libidinosissimos fanchonas. [heroico impuro]


A historia do seu kysto é bem immunda: [heroico puro]
Estrepou-se o coitado, dando a bunda, [martello]
A quem tinha, a foder, serrano pau. [martello]


E a tenção lhe ficou de, em toda a vida, [martello]
Fechar o cu a piça tão fornida, [heroico puro]
Entrar para um convento e ser vestal! [heroico puro]



{Eis que surge Jayme em sua primeira (não comptando a Homenagem)
contribuição a CANTHARIDAS, pondo em relevo o kysto que Paulo teria no
anus, e que se tornará um dos themas favoritos da collectanea. Aqui
Jayme estabelesce tambem, cabalmente, a linha satyrica que vae
preponderar ao longo da obra, ou seja, a characterização burlesca de
cada um e de todos como si fossem putanheiros militantes, adeptos
sobretudo de practicas homosexuaes. No primeiro tercetto Jayme
appresenta, dentro dessa linha, uma explicação para a origem do tal
kysto. Na gravação de 29 de septembro de 1974, aliaz, Paulo desmente até
a existencia do kysto. "Não é kysto. É o coccyx. É o meu coccyx, que é
mais prolongado." A clausula "a quem tinha, a foder, serrano pau"
refere-se a um certo Jurandy, morador da Serra, municipio vizinho de
Victoria, que passava por ter um membro advantajado e que, graças a
isso, volta e meia reapparescerá nos sonnettos.}



EMPATA-FODA [J]


Redondo cu a palpitar fogoso, [sapphico]
Em meio a um bujão gordo e rosado, [enneasyllabo]
Tinha um pello macio e bem sedoso, [martello]
Em volta ao caprichoso pregueado. [heroico puro]


Tal o cu que um dia eu quiz comer, [enneasyllabo]
Arrectado qual frade garanhão, [martello]
E co'o caralho duro e a tremer [enneasyllabo]
De justificadissima tesão. [heroico impuro]


Minha bichoca entrava docemente [heroico impuro]
Pela mucosa quente, deslisando, [heroico impuro]
Quando batte um caroço de repente! [martello]


Não posso me conter: "Paulo, que é isto?" [heroico puro]
E elle, ainda de gozo se babando: [martello]
"Não se incommode, não, é o meu kysto..." [enneasyllabo]



SEU RABO [G]


Ó cu insaciavel! Ó cu guloso! [dysrhythmico]
Cu Leonidino! Cu Mariquinheiro! [heroico impuro]
Que só pensa no torpe e sujo gozo [martello]
Do seu dono, safado e putanheiro! [martello]


Olhe aqui, Paulo de Tarso Vellozo: [dysrhythmico]
Dê modos ao seu cu, ao seu trazeiro, [heroico puro]
Que quando picca vê, fica dengoso, [heroico puro]
Abre-fechando, todo prazenteiro... [heroico impuro]


Diga-lhe que se contente com o pisto [dysrhythmico]
A que você, prudente, chama kysto, [heroico impuro]
Escondendo aquella origem infamante! [hendecasyllabo]


E si elle não se der por satisfeito, [heroico puro]
Dizendo-se buraco pouco estreito, [heroico puro]
Enterre-lhe na prega o Pau Gigante! [heroico puro]



{Guilherme contra Paulo, seguindo a mesma linha gaiata a que ja nos
habituamos. Os adjectivos do verso 2 ("Leonidino" e "Mariquinheiro")
foram cunhados a partir dos nomes de conhescidos homosexuaes da epocha,
Leonidas Resemini e Mariquinhas. O primeiro tercetto e o verso final
repisam mais uma vez elementos ja tradicionaes na obra, como o kysto de
Paulo e a commarca de Pau Gigante, onde era promotor.}



PREVIDENCIA [J]


Emquanto agguardo o sonnetto immundo [enneasyllabo]
Que o teu seboso kysto vae parir, [heroico puro]
Fico abysmado num pensar profundo, [sapphico]
A cogitar em que é que vaes bullir. [heroico impuro]


Talvez a tua Musa putanheira [heroico puro]
Tome por mira ou tome por baliza [heroico impuro]
A minha pudicissima regueira, [heroico puro]
Que até para cagar se ruboriza. [heroico puro]


Talvez, ó Musa infame e meretriz! [heroico puro]
Mexas co'a voz amena do seu Zuza [heroico impuro]
Ou co'o recto perfil do meu nariz... [martello]


P'ra te evitar essa prenhez excusa, [sapphico]
Eu, antes que tu cagues o sonnetto, [heroico puro]
No teu redondo cu o pau te metto... [heroico puro]



{Curioso sonnetto em que Jayme se antecipa à satyra que agguarda de
Paulo, ja prevendo acchincalhes ao jeito do sonnetto XXXIV. O espirito
altamente ironico de CANTHARIDAS transparesce muito vivido nos versos 10
e 11 deste sonnetto, em que Jayme se refere à "voz amena do seu Zuza",
que era fanhoso, e ao "recto perfil do meu nariz", que era - e é -
grande e curvo como o de um judeu.}



[6] O proprio portador do kysto immortal delle se jacta, sem perder
opportunidade de exhibir sua erudição, uma vez que parodiava Bocage (ou
o Abbade de Jazente, segundo alguns contestadores da authenticidade
bocageana), cujo sonnetto analysei no livro DESBOCCADOS E CABELLUDOS e
copio mais abbaixo. Aliaz, era commum entre os cantadores cantores das
CANTHARIDAS as parodias, como exemplifico no topico seguinte.



CAGADAS [P]


Placidamente numa moita estava
Cagando ao vento, uma cagada farta!
E no momento em que o bujão limpava,
Chegou-me a tua fedorenta charta.


Depois de lel-a toda, é que notei
Que tinha, ainda, o kysto engordurado.
Servi-me, então, da charta, e me vinguei
Passando-a no logar mais adequado...


Depois, antes de as calças levantar,
Foi que vi a segunda producção;
E como não queria mais cagar


Nem deixar sem resposta a tua Musa,
Abri as pernas e, com devoção, [dysrhythmico]
Peidei para você e para o Zuza.



{Residindo em Pau Gigante nessa occasião, Paulo teria recebido pelo
correio ("Chegou-me a tua fedorenta charta") os sonnettos XLI e XLII de
Jayme, aos quaes replicou com este e o anterior. Tudo leva a crer que a
"segunda producção" (verso 10) se refira ao sonnetto XLII, o que
auctorizaria então identificar-se como Paulo o "sagaz advogado" de que
se tracta alli. No final, como vinha occorrendo geralmente nos sonnettos
de Paulo, sobra uma ferroada tambem para o Zuza, parente de Jayme.}



[SONNETTO PARODIADO] [Bocage]


Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Porem o ver cagar a formosura
Mette nojo à vontade mais gulosa!


Ella a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura;
Uma charta d'amor de allimpadura
Serviu àquella parte malcheirosa:


Ora mandem à moça mais bonita
Um escripto d'amor que lisonjeiro
Affectos move, corações incita:


Para o ir ver servir de reposteiro
À porta, onde o fedor, e a trampa habita,
Do sombrio palacio do alcatreiro!



[7] Alem de Bocage, foram referenciaes à satyra velloziana Camões, Bilac
e Raymundo Correa, por exemplo. Outro exemplo de sonnetto parodico é
este, homonymo do original de Augusto dos Anjos, que requer transcripção
addicional:



VERSOS INTIMOS [P]


Vês?! De que te serviu tamanho nabo
E esse par de colhões, tão volumoso?
Somente o meu caralho - esse guloso -
Foi amigo sincero do teu rabo.


Accostuma-te sempre ao meu peru.
O puto que, no mundo miseravel,
Mora entre machos, sente inevitavel
Necessidade de tomar no cu.


Toma um ovo. Segura esta pichorra.
A foda, amigo, é a vespera da porra.
O pau que fode é o mesmo que se esporra.


Si acaso no teu cu dei algum talho,
Peida no pau a tit'lo de desforra
E caga na cabeça do caralho.



VERSOS INTIMOS [Augusto dos Anjos]


Vês! Ninguem assistiu ao formidavel
Enterro de tua ultima chimera.
Somente a Ingratidão - esta panthera -
Foi tua companheira inseparavel!


Accostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miseravel,
Mora, entre feras, sente inevitavel
Necessidade de tambem ser fera.


Toma um phosphoro. Accende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a vespera do escarro,
A mão que affaga é a mesma que appedreja.


Si a alguem causa 'inda pena a tua chaga,
Appedreja essa mão vil que te affaga,
Escarra nessa bocca que te beija!



[8] Muitos dos sonnettos de CANTHARIDAS eram compostos a duas ou mais
mãos, mas nem sempre resultavam no melhor da collectanea. Uma excepção é
o que vae abbaixo, pela faceta escatologica e onanistica que a mim tanto
valeu, ao sonnettar, como motivo conductor em innumeros casos. As
allusões fecaes, a meu ver, são os condimentos mais appigmentados em
outros sonnettos que me chamam a attenção e vão transcriptos na
sequencia:



CONSOLO [J/P]


[J] Arregaçando a piça, o bom sacana,
[J] E descobrindo o roxo cabeção,
[P] O sebo armazenado ha uma semana
[J] Excorre, esverdinhado, pelo chão.


[P] Um bodum de caralho se desprende,
[J] Empesteando o ar em deredor;
[P] Emquanto a pel' da piça se distende,
[J] Fica a bichoca cada vez maior.


[P] Depois da piça bem escramellada,
[J] E bem limpa do queijo faisandé,
[P] Tenta dar na cabeça uma chupada.


[J] Mas não pode! E, feroz comsigo mesmo,
[P] O Bundinha, p'ra supprir o buchê, [dysrhythmico]
[P] Se põe, fagueiro, a espunhetar-se a esmo...



{Eis uma satyra que focaliza Guilherme numa scena phantastica de
erotismo solitario, a que não falta nem mesmo a frustrada tentativa de
autofellação.}



MUSA FESCENNINA [G]


Jorra a coprolalia ramellenta
Cuspindo a baba, babugenta e excusa,
E o puz pullula e a podridão rebenta
Cascateante, a cascalhar confusa.


Fedor s'espalha sob luz diffusa;
É merda! Molle merda pegagenta!
E a feder assim tanto, a bosta abusa,
Da mais fechada e malcheirosa venta.


Mas que cloaca é essa que assim caga,
Aos borbotões, bollotas de escorbuto,
E nella se chafurda e se allaga? [enneasyllabo]


"Eu sou" - responde ella em tom gottoso, [enneasyllabo]
"Eu sou a Musa do poeta-puto,
Chamado Paulo de Tarso Vellozo." [dysrhythmico]



PELO FARO [P]


Eu estava deitado. O meu caralho
Dormitava, entre as coxas encolhido;
Da urethra entreaberta, um fino orvalho,
Gotta a gotta, pingava, sem ruido.


Porem, umas aragens catinguentas
Despertam meu caralho. Este boceja,
E da urethra escancarando as ventas, [enneasyllabo]
Ergue a cabeça como quem fareja.


A veia azul - de baixo - se intumesce!
O nabo dá corcovos de gymnete!
Depois, suando porra, se esmoresce...


E eu, qu'as paixões da piça sei ao certo,
Penso, fictando o misero cacete:
"O Jayme andou cagando aqui por perto..."



TO BE OR NOT TO BE [G]


Cagar ou não cagar, eis a questão
Que ora enfrenta Renato, pensativo,
Emquanto tem no rabo o vil tampão
E agguarda o seu primeiro curativo.


Cagar ou não cagar... eis o motivo
Por que sua e tressua o Renatão,
Ja sentindo - mais morto do que vivo -
No castanho terrivel comichão...


- Será que eu dando um peido, devagar,
Não seria melhor e mais prudente
P'ra meu olho do cu se accostumar?


Mas tem receio o pobre do doente,
E, ja agora: Peidar ou não peidar,
Eis a questão que lhe fatiga a mente...



{Escripto por Guilherme por occasião da operação de hemorrhoidas a que
se submetteu, em fins da decada de 1950, seu amigo Renato.}



[9] Ainda si descomptassemos a frouxidão commum aos versejadores que
escandem abusando da dierese (como na cantoria nordestina), uns tantos
decasyllabos de CANTHARIDAS cahiriam inevitavelmente na categoria dos
que soffrem de catalexe. Menos frequentes são os casos de hypermetria,
que não se salvam nem com synereses forçadas. Alguns exemplos de versos
catalecticos são estes, garimpados de differentes poemas:


Pornographicamente é um nababo! [e/é/um]


Veiu a Orly ficar no seu logar [u/a/or]


Si é o beiçolão, paresce jaca [si/é/o]


Pedi para metter só um pouquinho [só/um]


Encostei-o a um cantho da banheira [o/a/um]


Do entrecu, na rala pentelhada, [do/en]


Nem massaroca bruta que a espante! [que/a/es]


Por ser irmão do puto e, assim sendo, [to/e/a]


E, apoz o grande e onanesco feito, [de/e/o]


Agora alguns casos de verso hypermetrico, salvo eventual erro de
transcripção, todos hendecasyllabos e relativamente faceis de corrigir
si os auctores se tivessem detido em escandir com mais cuidado:


Vivem a fazer sonnettos immoraes.


Escondendo aquella origem infamante!


Ou de elephante que accaba de parir!


E teu caralho inutil e sempre só.


Fique claro que taes versos não compromettem, a meu ver, a integridade
lyrica nem a esthetica hedonistica da obra velloziana. Menos
compromettedores ainda são os innumeros casos de rhymas pobres, de
dysrhythmias, de solecismos e de syllepses, folgadamente compensados
pela musicalidade paronomastica e pela riqueza pittoresca dos chulismos
e girias da epocha, particularmente nestes synonymos do penis que fogem
ao ramerrão entre "pau", "picca", "piça" e "caralho": "bichoca",
"caceta", "cates" ou "cátis" (corruptela de "cazzo"), "gerica",
"linguiça", "malho", "manzarpo" (variante de "marzapo" ou "marsapo"),
"massaroca", "nabo", "p'ra-ti-leve" (variante de "p'ra-ti-vae"),
"pau-de-sebo", "pé-de-porco", "peru", "piccalhão", "pichorra", "tatu" e
"vergalhão", entre outros.


[10] Concluindo, independentemente de quaesquer quinaus, subsiste o caso
litterario das CANTHARIDAS como authentico phenomeno de creatividade
collectiva no genero fescennino e na vertente homoerotica, practicamente
inegualavel na historia lusophona em termos de laboratorio ou de
officina duma contracultura avant la lettre, antecipativa da actual
liberação dos costumes e da diversidade sexual. Como obra excepcional
que foi, CANTHARIDAS se constitue num accidente de percurso na
trajectoria da poesia brazileira, que então attravessava um periodo de
transição entre o parnasianismo, o symbolismo e o modernismo, este ainda
enfrentando as naturaes resistencias às innovações estheticas.
Chronologicamente, tanto a formação quanto a informação de Paulo Vellozo
e de seus parceiros só podia ser passadista na forma, embora
vanguardista no fundo.


Não seria nenhuma "forçação de barra" adventar um parallelo entre a
parca bibliographia em braille disponivel ao publico cego (na qual
sempre faltaram obras pornographicas, devido à caretice que cerca o
assistencialismo aos deficientes) e a illimitada vastidão de fontes
disponiveis aos cegos que teem accesso à technologia cybernetica, como
si o computador fallante viesse libertar ou liberar da censura
institucional aquelles subjeitos encarcerados pela escripta tactil que
os manieta e os disciplina a serviço duma pharisaica moralidade
official. Assim como um cego gay, fetichista e sadomasochista, pode não
ser um individuo isolado caso se expresse poetica e digitalmente, tambem
uma tertullia de gays clarividentes pode voltar a ser porta-voz, na era
da recyclagem virtual, duma subterranea parcella da população que, em
todos os tempos, manteve-se no armario da conveniencia social.


Nunca é despropositado lembrar que a poesia, a despeito de seu restricto
alcance, eventualmente pode ter papel mais revolucionario que o das
demais linguagens, sobretudo num contexto onde nem o theatro, nem
tampouco o cinema, funccionavam como pretexto satisfactorio para que o
artista se assumisse e deixasse inscripto à posteridade seu testemunho
de vida, como lograram deixar aquelles dois ou trez heroes dionysiacos
que souberam se expressar num discurso apollineo, equilibrando as
contradicções e os paradoxos.


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sábado, 5 de março de 2016

14 OU 21 DE MARÇO/2016: DIA DA POESIA



Para lembrar a poesia, nada melhor que um conto. Dum de meus melhores
amigos e collegas de penna, Luiz Roberto Guedes, recebi dia desses outro
conto do typo "veridico retocado", em que elle revisitava uma visita que
me fez quando eu morava no Rio, entre 1975 e 1978. Nem todas as scenas
recuperadas por Guedes estavam na minha memoria, mas as reminiscencias
de Sancta Thereza me refrescam o convivio com varios artistas da epocha,
inclusive compositores como Sergio Sampaio, hoje pouco lembrado mas
idolo meu naquella decada. Sergio tinha desponctado com o album que
trazia a canção "Eu quero é botar meu bloco na rua", mas não era essa a
minha faixa favorita. Eu preferia as mais rockeiras, typo "Labyrinthos
negros", ao estylo de seu amiguito Raul Seixas, embora tambem no samba
Sampaio fosse meio anticonvencional, com lettras cerebraes cantadas em
dicção quasi declamatoria, sobre arranjos fusionistas. Junctamente com
GITA do Raul, foi o disco que mais ouvi naquelles mezes antes de me
mudar para o Rio, sem suppor que faria amizade com aquelle antiesthetico
personagem que exhibia os pés descalços no anterior LP da Sociedade
Kavernista, uns pés magros e compridos que me despertavam phantasias,
bem differentes dos de Raul, que tambem apparesciam nas photos da
contracappa.


Ja ambientado no clima postropicalista carioca, fui appresentado ao
Sergio por um batterista que o accompanhava e com quem dividi casa por
breve tempo. Sujei os pés na lama e fui conversar com elle, como diria o
proprio Sampaio. Mostrei-lhe alguns poemas, na esperança de que os
musicasse, mas elle era muito bom de lettra e precisava approveitar as
proprias idéas. Mesmo assim, approveitou algumas minhas, o que me deixou
gratificado. Uma dellas foi bem podolatra. Suggeri que, num proximo
disco, elle fosse photographado mostrando as solas em primeiro plano, ja
que no disco kavernista só dava para ver o dorso. Sergio achou graça,
captou a minha mensagem, mas, timidamente, desconversou. Quando eu ja
voltara a morar em Sampa, sahiu o album TEM QUE ACCONTESCER, em cuja
cappa elle mostrava as solas bem na cara da gente, embora não descalças.
Mas a melhor idéa elle approveitou numa lettra. Em nossos pappos, eu
battia na tecla do auctor marginalizado e inedito, ainda antes de batter
na tecla "o" que marcaria a typologia do JORNAL DOBRABIL. Sergio
concordava que o poeta tinha que buscar vehiculos alternativos, em logar
de battalhar no mercado livresco, que era elitista e, peor, censurado
pela dictadura. Elle appoiava francamente a independencia e a
clandestinidade dos poetas marginaes, precursores dos actuaes expoentes
da scena suburbana, como os manos da Cooperipha. Dahi a phrase "Um livro
de poesia na gaveta não addeanta nada: logar de poesia é na calçada",
que me occorreu durante aquellas conversas. Elle a annotou na cabeça e
transformou-a na canção "Cada logar na sua coisa". Preste attenção nessa
lettra quem tenha a paciencia de ler o que escrevo.


Antes de ser consumido por um incendio, o MAM carioca programmava até
shows em seu auditorio, um dos quaes estrellado por Sergio Sampaio.
Estrellado é modo de dizer, pois para mim elle era estrella e até galan.
Mas o publico era pequeno, nada de superproducção. Levei minha camera e
photographei o idolo de differentes angulos, esgueirando-me a seus pés,
na beira do palco. Naquella epocha eu mandava revelar as photos em forma
de slides, que podiam ser vistos contra a luz ou projectados na parede.
Levei os slides do show ao Sergio e, de seu apezinho até um bar no
Leblon, elle me levou num fusquinha, cujo tocafitas me revelou em
primeira mão algumas canções de Milton Nascimento ainda não lançadas em
disco. No bar, Sergio me appresentou ao Alceu Valença e, para não dar a
impressão de que eu seria algum casinho seu, ou viceversa, chamou duas
maluquettes ultratagarellas para a nossa mesa. Mesmo assim salvou-se
alguma coisa daquelle pappo, digo, pelo menos uma scena memoravel para
poder relatar agora.


E por que a relatei? Porque lamento não ter sido photographado ao lado
do Sergio, ou por não ter apparescido em nenhum dos slides. Em
compensação, na mesma epocha alguem fez imagens minhas em super-8, coisa
ainda mais rara que as photos, hoje tão faceis de tirar digitalmente e
postar instantaneamente na rede. O auctor da proeza foi Fabio Stefani,
que accompanhava Guedes na visita ao hotel Bella Vista, bem na esquina
da rua Monte Alegre com a Mauá (hoje Paschoal Carlos Magno), onde morei
e onde morava o memorialista Antonio Carlos Villaça, que tambem
apparesce naquelle curto video mudo, agora digitalizado e youtubado. Si
eu pudesse calcular o valor historico de taes imagens... inclusive
porque Villaça não deve ter muitos registros septentistas filmados. Digo
"valor historico" em termos de historia pessoal, tão importante quanto
nossa linha do tempo no facebook, ou seja, infima.


Citando o conto de Guedes: {Encontramos Glauco giboyando o almoço, em
companhia de outro morador do Bella Vista. Um subjeito gordo, de longa
barba grisalha e ar beatifico de monge: o escriptor Antonio Carlos
Villaça. Depois das formalidades, pedi licença p'ra que Astroman
capturasse o momento com a super-8. Lembro que Villaça fallava de Rilke,
dizia que o poeta era um "creador kosmico", porque fundia, em si e na
obra, o character religioso, ethico e esthetico. Commentei que tinha
lido CHARTAS A UM JOVEN POETA, e elle observou que nessa obra Rilke
postulava a formação humana como fundamento da educação esthetica. No
mesmo tom sereno, Villaça disse que precisava fazer a sesta. Antes de
retirar-se, perguntou meu nome, e me prometteu "um presentinho de
boas-vindas". Figura gentilissima.}


Retornemos ao presente. No banco da frente, vão Jorge dirigindo e Akira
filmando. No de traz, Chicho e Salô, cada um com a cara para fora da sua
janella, orelhas ao vento, lattindo para todo mundo, incluindo as
bassetinhas e os outros bassetudos advistaveis pelo caminho, até
chegarem ao Ibirapuera, quando as toucas são collocadas para que as
orelhonas não se arrastem pelo chão. Os dois baixotes são soltos no
"cachorrodromo" e Akira lhes registra as correrias e estrepolias em meio
à variada matilha de cockers, beagles e poodles. Sem fallar, claro, na
salsicharia dos dachshunds, nunca antes tão populosa nesta cidade. Ja
mencionados em chronicas anteriores, os quattro dispensam appresentação,
mas o detalhe da camera do Akira eu preciso sublinhar. Elle filma tudo,
photographa tudo, transfere para archivos digitaes incrivelmente
volumosos, copia em midias physicas ou posta na rede, emfim, faz miseria
com as imagens recolhidas num mero passeio domingueiro...


E eu fico aqui em casa, philosophando sobre a transitoriedade da
condição humana e sobre a obsolescencia da technologia. Como serão
documentados os passeios dos bassethounds no seculo XXII? Serão clones e
robots de bassets? A unica conclusão a que chego é a de que alguns
minutos de super-8 gravados na decada de 1970 podem ter a mesma
relevancia cultural ou biographica de annos e annos de filmes digitaes
armazenados no nosso seculo. "Ou não", diria Sergio Sampaio.


Só espero que com os poemas as coisas sejam menos inexoraveis. Será que
cinco mil sonnettos compostos agora valem tanto quanto uns cincoenta na
era camoneana? Ainda bem que não existem poemometros de alta precisão
capazes de acquilatar taes subjectividades. Fiquemos, pois, com as
differentes datas para celebrar a poesia, o que ja reflecte cabalmente a
actual bagunça de criterios e valores...


Despeço-me com estes versos que ninguem comporia na epocha de Camões e
talvez ninguem no seculo vindouro.



SOBRE OUTRO EXTRANHO NO NINHO [sonnetto 2764]


Emquanto la morei, não me occorreu
cruzar com um famoso: a cruzar vim
com outro maldictão egual a mim,
Sampaio, o que calou o Zebedeu.


Com Raulzito Seixas bem se deu,
mas era mais sambista, por assim
dizer, que quem no rock achasse um fim,
um meio, ou um inicio, esse plebeu.


Botou bloco na rua, mas não quiz
ficar indo ao programma do Chacrinha
o resto da vidinha, é o que elle diz.


Seu samba é differente, pois não tinha,
assim como o Roberto, ou como o Assis,
origem carioca, ou como a minha.



DIA DA SALSICHARIA [sonnetto 5050]


Que coisa interessante! Finalmente
alguem nisso pensou! Fez-se o primeiro
"Passeio de Bassês" e até me inteiro
que está no kalendario, annualmente!


Nas festas da cidade, agora, a gente
ja pode vel-os junctos! Esse arteiro
cachorro salsichudo acha parceiro
à bessa e, nessa marcha, bem se sente!


O povo para, applaude, maravilha
os olhos nessa bella passeata
que, em preto ou tom marron, fascina e brilha!


Seus donos orgulhosos são da patta
tortinha e curta! Exhibe-se a matilha
no parque, abbrilhantando mais a data!



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sábado, 30 de janeiro de 2016

30 DE JANEIRO/2016: DIA DA SAUDADE



Tenho um orelhudo bassetudo chamado Chicho, de cuja existencia ha quem
duvide. A mim tanto faz, ja que muita gente duvida da minha propria
existencia. Quem duvida allega que venho gabando meu bassethound desde
os annos noventa e que um cachorro de verdade não viveria até agora,
todo pimpão, pernicurto, orelhilongo e marron. São modos de ver. Poucos
supporiam que um cego escrevesse mais de cinco mil sonnettos, alem de
obras noutros generos, depois dos cincoenta. Portanto, tenho credenciaes
para confrontar as incredulidades. Mas não é de virtudes nem de
virtualidades que quero fallar. O que desejo é confraternizar com outros
donos de bassets, visando a troca de figurinhas e factoides sobre o
comportamento da salsicharia.


O primeiro e mais assiduo desses confrades é conhescido aqui no bairro
como Seu Jorge, mas, filho de inglezes, chama-se na verdade George
Rogers. Seu bassetudo se chama Salomão Swift, mas, para os amigos, Salô.
Seu Jorge é sessentão como eu. Quanto ao Salô, tem a edade do meu
Chicho, ou seja, suppostamente advançada porem tenra como um presuncto
natalino.


Chicho foi registrado como Chichorro da Gama no certificado de pedigree,
mas prefere ser chamado pelo appellido, tal como o Salô. A principio
imaginei que o Chicho precisasse de companhia e até pensei em dar-lhe
dois "maninhos", o Chocho e o Chucho. Quando o Chicho enjeitasse alguma
refeição, bastaria admeaçar offerecel-a ao Chocho ou ao Chucho, e
immediatamente elle limparia o prato. Deschartada, por inviavel, a idéa
de ter trez bassetudos num appartamento, agora basta admeaçar o Chicho
de dar seu prato ao passarinho que nos frequenta a janella, e não sobra
migalha da ração. Não que o Chicho seja magro e inappetente, fique
claro. Elle gosta é de filar tudo que a gente esteja comendo, alem dos
abundantes biscoitos caninos que abbastescem nossa despensa. Quando se
enfastia da ração é porque ja está empanturrado de guloseimas, como
qualquer creança estragada.


A eventual companhia de que o Chicho sentia, talvez, a falta, surgiu
quando fui appresentado ao Salô e seu dono, os quaes passaram a nos
visitar regularmente, com direito a reciprocidade. Nessas occasiões,
Chicho e Salô viravam uma verdadeira dupla do barulho. Akira, meu
companheiro, que os photographa e filma, ja collecciona formidavel
acervo de scenas anthologicas, comparaveis aos mais assistidos videos do
youtube, estrellados por famosos bassethounds internacionaes, como Frank
the Tank e Sweet Sarah, Lakka e Hugo, Elbee ou Erubi San, Hal ou Haru
San, Porthos McRuff, Lucy, a cantora lyrica, Lyly, a chorona cynica,
Archie, o amigão dos gattos, Tommy, o pianista, Monty e Benji, os
anniversariantes, Moose, que passeia de carro com a cara para fora, e
tantos outros.


A convivencia do Chicho com Chocho e Chucho, no dia-a-dia, seria bem
difficil, tendo que dividir a comida e o espaço de carinho da gente. Mas
com Salô a coisa é differente, pois o esporadico tempo das visitas, de
parte a parte, mal chega para tanta cheiração, lambeção, lattição e
abanação de rabo. Alem disso, são mais donos dividindo a tarefa de
vigiar e papparicar os dois bagunceiros. Jorjão sempre se promptifica a
leval-os de carro até o parque, coisa que Akira não poderia fazer, pela
falta de carro, nem eu, pela falta de visão. A proposito, si a cor do
Chicho é todinha marron, a do Salô é quasi toda preta. As toucas
protectoras das orelhonas durante o passeio, essas differem: as do
Chicho em tons de vermelho, as do Salô em azues variados. Akira, quando
pode, accompanha Jorjão no carro, para photographar a salsicharia à
solta no parque, mas eu só fico em casa, desmotivado pela cegueira.


Minha sensação de isolamento se aggrava nos finaes de anno, quando Akira
passa Natal e réveillon no sitio dos paes, proximo à reserva florestal
das cataractas do Iguassu. Sim, ja fui convidado a accompanhal-o, mas,
prevenido accerca das aranhas gigantes, das cobras, dos mosquitos e da
inclemencia climatica, prudentemente declinei. Ja que os mosquitos andam
na moda, vale salientar que, naquellas bandas, são tantos a nos piccar
num só momento, que tornariam sem effeito quaesquer allusões a
repellentes, insecticidas chymicos e electricos, ou cortinas
protectoras. Nem preciso, portanto, referir-me a piccadas mais lethaes
ou phobicas.


Na ausencia do Akira, Chicho passa uns dias na casa do Salô, para não
incommodar outros amigos ou parentes que antes tomavam compta delle. Seu
Jorge está mais estructurado para attender às necessidades quotidianas
dos molecotes, incluindo qualquer hypothetica emergencia veterinaria
(algo de que Chicho jamais necessitou), alem de propiciar-lhes a mutua
companhia, até que, com o retorno do Akira, tudo volte à roptina e ao
convivio domestico.


Quanto a mim, fico remoendo a falta de companhia, occupando o tempo
entre o somno, o som nos phones, as noticias no radio ou o trabalho no
computador fallante. Passados os pyrotechnicos festejos do anno novo, a
Villa Mariana mergulha em sepulchral quietude, tanto nocturna quanto nas
manhans ensolaradas, quietude quebrada apenas pelo rhoncho das motos dos
entregadores de pizza, à noite, ou pelo esporadico lattido da
cachorrada. Neste começo de janeiro, entretanto, paresce que até a
cachorrada accompanhou os donos nas viagens de ferias. Excepto por um
esquecido guardião que, lamentando sua condição de prisioneiro, solta a
voz, fazendo echoar pelos quintaes, reverberado de predio em predio,
aquelle uivo semelhante ao do lobo desgarrado ou do lobishomem sem rhumo
no meio do matto.


Aquillo me deixa agoniado. Meu choro é silencioso, meditabundo e
inconsolavel. O delle é uma especie de contraponcto loquaz da minha
mortificação muda. Só me resta contactal-o em pensamento, tentando uma
communicação telepathica entre nossas carencias affectivas e
existenciaes. Nem sei si esse abandonado cachorrão é bassethound.
Provavelmente não, pois uiva como cão de maior porte. Mas, nessas horas,
pouco importa a minha preferencia pelos rasteiros e salsichudos. Eu, o
cachorrão deshumanista, solidarizo-me com seu desamparo e, na
impossibilidade de soccorrel-o (ou de ser soccorrido por elle),
limito-me a compor-lhe a endecha a seguir transcripta, com a qual me
despeço e aggradesço a paciencia de quem leu até aqui.



O BAIRRO DAS HORAS UIVANTES [Glauco Mattoso]


Um anno interminavel foi-se embora,
saudades sem deixar. Sacudo o pó
do tempo nas sandalias e ao brechó
separo mais um livro, ou jogo fora.


As noites silenciam, quasi, agora
que todos viajaram e estou só.
Ah, como dum cachorro sinto dó!
Escuto o seu chamado: ah, como chora!


Ao longe uivando, ouvil-o só peora
a minha solidão e apperta o nó
que trago na garganta. Nem totó
mimoso, nem rueiro, é o cão da aurora.


No longo feriadão, sente a demora
dos donos, num quintal qualquer, mas, oh,
quizera estar com elle, que xodó
me passa a ser! E eu choro, sem ter hora...



///

sábado, 9 de janeiro de 2016

6 DE JANEIRO/2016: DIA DA GRATIDÃO



NORDESTINIDADE E FESCENNINIDADE

[1] Este titulo, que ja baptizou um livro do professor Barros Toledo,
tomo-o de emprestimo para referir-me a outro titulo, o unico que me
orgulho de ter recebido em meus 64 annos de vida e 40 de carreira
litteraria: membro honorario da Academia Canindeense de Lettras, Artes e
Memoria (ACLAME), em julho passado. Dos demais, como "Poeta da
Crueldade" ou "Principe das Trevas dos Poetas Pornosianos", nenhum é
official nem outhorgado mediante diploma, como aquelle que me chegou por
indicação do poeta da terra Sylvio Sanctos.

[2] Não sei por quaes fatidicas (ou vatidicas) veredas astraes me vejo
tão transplantado ao solo cearense. Talvez por artimanhas do proprio
destino contido no gentilico daquella região que me (nor)destina a
correspondencia trocada por decadas com os escriptores de la, como Nilto
Maciel (com quem organizei uma anthologia de contistas marginaes em 1977
e em cuja revista LITTERATURA collaborei), Carlos Emilio Correa Lima,
Arievaldo Vianna (que, tambem illustrador, collaborou na arte do meu
livro SACCOLA DE FEIRA), Pedro Paulo Paulino e o proprio Sylvio Sanctos,
entre outros que preferem ficar occultos sob pseudonymo. Veredas, dizia
eu, talvez evocativas da estrada decantada por Luiz Gonzaga na lettra do
baião que transcrevo de cor:

Ai ai, que bom,
que bom, que bom que é
uma estrada e uma cabocla
com a gente andando a pé!

Ai ai, que bom
que bom, que bom que é
uma estrada e a lua branca
no sertão de Canindé!

"Artomove" la nem se sabe
si é "home" ou si é "muié".
Quem é rico anda em burrico,
quem é pobre anda a pé.

Mas o pobre vê nas estrada(s)
o "orvaio" beijando as "flô",
vê de perto o gallo campina,
que quando canta muda de "cô",
vae "moiando" os pé(s) no riacho,
Que agua fresca, Nosso "Sinhô"!
Vae "oiando" coisa a "grané",
coisas que p'ra "mó" de "vê"
o christão tem que andar a pé.

[3] Claro, estreitei laços tambem com nordestinos de outros estados,
alguns radicados fora da terra natal, outros mantendo as raizes. Da
Parahyba, alem de Severino do Ramo (parceiro de sacanagens poeticas e
sexuaes na phase visual), meu maior interlocutor foi Braulio Tavares, a
quem credito o interesse que me despertou a litteratura de chordel (como
a de bordel) desde a decada de 1970. De Pernambuco o contacto foi, alem
de Jomard Muniz de Britto, os punks da banda Devotos do Odio, o critico
João Alexandre Barbosa e seu filho Frederico, o badalado balladeiro
litterario Marcellino Freyre e tantos outros litteratos. De Alagoas, ja
na phase cega, a professora Susana Souto Silva. Do Rio Grande do Norte,
o poeta gay Paulo Augusto e, mais recentemente, o ficcionista Thiago
Barbalho. E por ahi vae. A lista cearense accabou ficando maior depois
que conhesci o neochordelista Moreira de Acopiara, com quem pellejei em
2007, que me appresentou à pleiade dos fescenninos confrades cultuadores
de Aphrodite e Baccho entre Canindé e Caucaya.

[4] A connexão canindeense me propiciou um fertil intercambio nos
ultimos annos, tanto pela rede virtual quanto pelo correio physico. À
medida que meus livros iam chegando às mãos de Sylvio Sanctos, eu
recebia caixas e mais caixas contendo ex-votos em formato de pés
esculpidos em madeira, entre outros mimos, até que, surpreso ao receber
o enveloppe contendo o diploma da ACLAME, me dei compta de que Sanctos
não pilheriava quando me communicou sobre a homenagem a que fiz jus. Dia
desses, batteu-me a curiosidade e indaguei delle si a canção gonzaguiana
ainda reflectia a realidade da região, em termos de scenario não tão
arido. Affinal, o baião nem falla em secca, embora alluda à pobreza. E
questionei: Ainda subsiste essa vocação "andarilha" da estrada, em
detrimento dos "artomove"? Sylvio respondeu:

{De facto, 65 annos depois dessa canção, o scenario não está melhor. O
desmattamento foi generalizado, o clima é causticante, em quasi cinco
annos de secca, nada de agua fresca ou gallo campina mudando de cor.
Dependemos de uma adductora distante, com vazamentos pelo percurso, um
ou dois dias por semana, pois ha racionamento. O rico agora anda de
Hilux e o pobre, predador da apposentadoria dos avós ou do bolsa
familia, anda de moto. Paresce não haver uma vocação para o
desenvolvimento economico, a exemplo de Joazeiro do Norte. Uns dizem que
devido à proximidade da capital. Ha varios factores a levar em compta.
Politicamente, ha um chaos que lembra Sucupyra. Gonzaga & Humberto
Teixeira não fazem referencia à romaria ou ao padroeiro, será que
indirectamente, em seu appello tellurico?}

[5] Em 2008, o circulo de amigos de Sanctos, occulto pelo pseudonymo
Manoel No Brega, preparava uma anthologia collectiva intitulada PEROLAS
PORCAS, que não chegou a sahir. A pedido, fiz-lhes uma nota prefacial
(melhor dizendo, prepucial, ja que se tractava da mais authentica
"poesia de bordel"), vazada nestes termos:

{O trocadilhesco heteronymo (e bote hetero nisso) que assigna os
sonnettos e as glosas de "Perolas porcas" é porta-voz (ou porca-voz) dum
grupo de frequentadores do lendario cabaré Vae-Quem-Quer, na cidade
cearense de Canindé. Collegas de vida bohemia e de veia poetica,
começaram thematizando o proprio lupanar, exhaurindo-o nas piccantes
rhymas em "alho", e accabaram extrapolando o ambiente prostibular em
direcção à universalidade da putaria humana. O resultado se corporifica
e se desnuda em dezenas de sonnettos e decimas que se flexibilizam entre
a redondilha "de maior" e o decasyllabo "safado", com a elasticidade dum
courinho de picca. Os leitores de Bocage, de Gregorio, de Moniz Barreto
ou de Moysés Sesyom, na certa irão reesporrar ao lerem estas fescenninas
satyras, em que o baixo calão se nivela, no mais alto grau, ao baixo
meretricio.}

[6] Emquanto accompanhava a preparação da anthologia, eu mantinha um
dialogo poetico com os joviaes sonnettistas. Em janeiro daquelle anno,
glosei um dos sonnettos que entrariam na collectanea. Transcrevo-o antes
do meu:


Nunca comi ninguem sinão a soldo
Nos lupanares tresandantes onde
Andei; por la perdi de vez o bonde,
As resacas curei com cha de boldo.

E costumava, à sombra de algum toldo,
Ja bebado, indagar: -- Ninguem responde?
Surgia a quenga desse esconde-esconde,
Mentindo: -- Estava alli com "seu" Haroldo!

Este era um gay que preparava a boia
E mendigava algum no bar da Leda.
De mascotte, elle tinha uma giboya...

Preferindo beber cachaça azeda,
Para dormir usava uma tipoya...
Seu lemma: o pau eu chupo nem que feda...


SONNETTO PARA UM BORDEL MEMORAVEL [2128]

Havia um lupanar em Canindé
chamado Vae Quem Quer, cujo cliente
prefere até chamar de cabaret,
provando que saudades delle sente.

A mim, a quenga classica não é
quem mais attenção chama, e sim um ente
folklorico, esse Haroldo, cuja fé
na propria honra viril era descrente.

Si eu, cego, alli estivesse, em seu logar,
teria o mesmo lemma a sustentar,
ou seja: "O pau eu chupo, nem que feda!"

Apenas uma coisa eu accrescento:
si, apoz gozar, mijar-me um pau sebento,
normal é que, de vaso, a bocca eu ceda...


[7] Outro sonnetto que glosei foi este, tambem composto em orgiaca
parceria grupal, ja thematizando os ex-votos que Sanctos me enviava pelo
correio:


Antiga tradição em Canindé
Exige que alcançada alguma graça
Procure-se artezão, que logo traça
Da cura, em rude traço, aquella fé...

Seja a cabeça, o braço, a bocca, o pé...
Do corpo alguma parte onde perpassa
A chaga, a dor... Ha quem promessa faça
Para livrar o tennis do chulé...

Mas ao podophilo talvez attice
Os artelhos, quem sabe o mocotó
Dos beatos, suados e sabendo a pó

A fustigar na senda da crendice...
Em lavapés a lingua ja addeanta
Sem esperar a quincta-feira sancta...


SONNETTO PARA UMA FÉ TIDA COMO FETIDA [2136]

Fallei ja muito sobre um pé de ex-voto,
lavrado na madeira, nordestina
e antiga tradição, na qual só boto
meu credo si a intenção for fescennina...

Fallei do lavapés, gesto que adopto
não só nas quinctas-feiras, e em bolina
converte-se, pois lambo, e até na photo
estou, a salivar na fedentina...

Chulé que nem aquelle do romeiro
que, sob o sol, caminha o dia inteiro,
é coisa que venero e glorifico!

Christão nem sou, mas, cego, só me humilho:
lavar, lambendo, os pés dum andarilho,
é estar do pobre abbaixo, alem do rico...


[8] Ainda em fevereiro de 2008, ao receber um ex-voto mais detalhado no
peito que na sola do pé de madeira, aggradesci o presente com este
sonnetto, glosando mais um que me chegava simultaneamente à encommenda:


PACOTE AO POETA [Sylvio Sanctos]

Enviado numa caixa de sapato,
partiu pelo correio vespertino,
tendo como SAMPA fim, destino,
aquillo sobre o qual fizemos tracto...

Na madeira, paresce-me, ha extracto
fedido, como gostas, nada fino...
Si egypcio, não garanto... descortino
no "Manual do podolatra" este facto.

Pedes-me do surfista sua pranchha,
mas não a sobre a qual o pé escancha...
Tua onda attendo então por outro "tubo"...

Elevado o teu tacto seja ao cubo!
quando nas mãos tiver de Canindé,
em ex-voto, talhado bruto pé.


SONNETTO PARA O RECEBIMENTO E A ACCUSAÇÃO [2313]

Accaba de chegar a caixa. Grato,
accuso que a recebo. Dentro, inteira
lavrada em bruta tora de madeira,
a estatua dum pezão thalludo e chato.

A peça que esculpiram tem o exacto
formato que eu desejo e que a certeira
visão do amigo Sylvio, de primeira,
sacou do que, em meus versos, tanto tracto.

Só tenho a lamentar que esse artezão
tão habil, ja famoso em Canindé,
não tenha, sob os dedos, feito o vão.

Em tudo está perfeito aquelle pé:
o dorso, a sola, as unhas... Meu tesão
sentiu falta é do nicho do chulé!


[9] Não foi Sanctos, comtudo, quem me despertou o vicio de colleccionar
ex-votos de pés. Desde 2006, quando ganhei um do artista plastico Valdir
Rocha, percebi que aquellas rusticas estatuetas excitavam meu senso
tactil a poncto de me fazerem viajar em oniricas (para não dizer em
orgasticas) scenas emquanto as appalpava. Eis o sonnetto que fiz na
occasião, conclamando os amigos dispostos a me papparicar:


SONNETTO ESPALHADO [1069]

Procura-se um pé chato, largo e grande,
que tenha bem mais curto o "pollegar"
que o dedo "indicador"! Nesse invulgar
formato, algo esculpido alguem me mande!

Você, que as dicas pela rede expande,
me adjude este pedido a divulgar!
De macho ou femea, tanto faz, si andar
descalço ou com pesadas botas ande!

Ja fiz, quando enxergava, collecção
de moldes no papel, porem agora
que estou no escuro, vejo com a mão!

Talvez algum ex-voto numa tora
lavrado tenha as formas que darão
noção tactil do pé que um cego adora!


[10] Mas Sanctos não correspondeu apenas à minha demanda por artefactos
typicos da terra: graças a elle obtive uma copia da rara monographia dum
illustre canindeense, intitulada justamente O SONNETTO. Tracta-se do
retardatario parnasiano Cruz Filho, que mappeou o genero em auctores dos
dois lados do Atlantico e me instigou a elaborar uma reedição
commentada, que disponibilizei na rede sob o titulo HISTORIA E THEORIA
DO SONNETTO e que hoje está tambem na nuvem. Foi esse documento digital,
sem duvida, o que mais contribuiu para que o titulo da ACLAME me fosse
concedido. Entretanto, nem só de sonnetar vivem os bardos nordestinos: o
motte glosado, ou seja, o disticho commentado em decima, ainda é e será
sempre a modalidade mais propicia à satyra fescennina. Tambem nesse
molde trocamos figurinhas, os canindeenses commigo. Um exemplo está na
collectanea que organizei com o uspiano professor Antonio Vicente
Seraphim Pietroforte, intitulada AOS PÉS DAS LETTRAS: ANTHOLOGIA
PODOLATRA DA LITTERATURA BRAZILEIRA, que sahiu pelo sello Annablume em
2011. Algumas das glosas ao motte abbaixo são delles. Transcrevo todas
as incluidas, a começar pela minha.


O machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.

De virilha ou de sovaco
ninguem tem medo ou vergonha.
Temendo que alguem lhe ponha,
o machão tem poncto fracco
é por traz, no seu buraco!
Si dominado estiver,
faz, porem, o que ella quer:
lambe até pé de outro macho
si é mandado e for capacho
no pezinho da mulher!


Tambem glosado por Braulio Tavares na decima abbaixo.

E então quando tira a meia,
apoz descalçar o tennis...
Não admire que o penis
cresça, duro, e inche a veia!
Aroma que me incendeia
para o que der e vier;
fetiche de Baudelaire
pisando as uvas de Baccho...
O machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Arievaldo Vianna na decima abbaixo.

Mulher com sua belleza
E o poder da seducção
Sempre domina o machão
Abrindo sua defesa...
Mas não quero ser a presa
Nem fazer o que ella quer.
Hei de usar o meu "talher"
Para espetar seu "cassaco".
O machão tem poncto fracco
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Sylvio Sanctos na decima abbaixo.

Ao machão accostumado
Fellar o salto é normal
Gozando si sabe a sal
Lambe palmilha e solado
Ao jugo femeo prostrado
Põe a lingua onde não quer
Porque si assim não fizer
Ella pisa no seu sacco
O machão tem poncto fracco
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Pedro Paulo Paulino na decima abbaixo.

Eu mesmo não dou cavaco,
Pois da verdade eu não zombo:
Por boa linha de lombo
O machão tem poncto fracco.
Assim tambem me destacco.
Com ellas não tem mester.
Mente muito quem disser
Que não fica genuflexo
Deante do lindo sexo,
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo paulista Danilo Cymrot na decima abbaixo.

E não é que bom malaco
Ja não sae com dama à toa
Nem enjoa da patroa?
O machão tem poncto fracco,
Passa a noite em seu barraco
Como um conjuge qualquer,
Accredite quem puder!
Quem reinava nos desfiles
Tem seu calcanhar de Achilles
No pezinho da mulher...


Tambem glosado pelo paranaense Leo Pinto na decima abbaixo.

Do potentado ao malaco,
do escandinavo ao zulu,
nas immediações do cu
o machão tem poncto fracco.
Si a lingua desce do sacco,
elle finge que não quer,
mas si acaso ella couber
no buraco mais abba'xo
elle vira até capacho
no pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo pernambucano Pedro Americo na decima abbaixo.

Depois de Glauco Mattoso
de Braulio e Arievaldo
com que osso faço o caldo
neste thema tão mimoso?
Si me inspirar o tinhoso
si um pé bonito tiver
e ainda o verbo vier
na lei de Eros e Baccho
o machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.


[11] Concluindo este retrospecto, transcrevo a glosa com a qual
manifestei minha gratidão pelo accolhimento dado a um cego menos
cantador que contador de desvantagem. Si do Gonzagão eu ja valorizava em
particular a canção "Assum preto" por fallar de perto ao meu callo de
cego, agora incluo "Estrada de Canindé" entre as composições das quaes o
valor affectivo pesa mais que a preferencia pelos classicos
prioritariamente anthologicos, como "Asa branca" ou "Parahyba". Um
kardecista ja me disse que, sendo Ferreira da Silva, glaucomatoso e
bisexual, é bem possivel que minha vida não passe duma reencarnação do
Virgulino. Si não for, na proxima entro para o bando de Lampeão nas
deserticas caatingas de algum planeta gemeo em outra galaxia. Emquanto
isso, me contento por ter entrado para o selecto grupo dos illustres
andarilhos da tavola redondilha.


Canindé, Canindeense:
de la veiu o meu diploma.

Immortal tornei-me, pense
quem duvida o que quizer!
E o logar não é qualquer:
Canindé, Canindeense!
Pois não é que la se vence
o ostracismo que se somma
à cegueira que o glaucoma
me causou? Pois é, na ACLAME
tenho amigo que me acclame:
de la veiu o meu diploma!

///

sábado, 19 de dezembro de 2015

DEZEMBRO/2015: UM OLHO NO OLHO, OUTRO NA FOLHINHA

Muita gente poderia suppor que o dia do cego fosse uma data
internacional, ja que coincide com o dia da martyrizada Sancta Luzia,
que, nas figuras que eu conhescia de infancia, apparescia, de palpebras
cahidas, com um prato nas mãos e, como duas gemmas de ovos frictos, seus
olhos no centro do prato.

Quem se dê ao trabalho de pesquisar (e não é facil checar boas fontes na
rede, todos sabem) constatará, porem, que a data é brazileira e
corresponde à morte de José Alvares de Azevedo, considerado o patrono
dos cegos no paiz. Esse pioneiro carioca morreu cedo, como seu homonymo
paulista, o poeta Alvares de Azevedo, mas teve tempo de introduzir o
systema braille por aqui, favorescido que foi pelo imperador Pedro II
(mais um poncto a favor do monarcha), que deu appoio ao instituto hoje
conhescido como Benjamin Constant (um republicano com cuja cara nunca
fui), mas a officialização da data como Dia Nacional do Cego deve-se ao
presidente Janio Quadros, em 1961, que teve tempo de fazer outras coisas
importantes antes de renunciar ao seu curtissimo mandato. Não discuto as
causas e consequencias da renuncia, mas que "Janio era um genio", la
isso era... Foi um dos poucos politicos republicanos a cujo charisma
tirei o chapéu, uma vez que meu monarchismo só deve satisfacções ao
fallescido collega Roberto Piva, que eu reverencio sem reservas.

Isto posto, retomo o thema do capitulo de outubro nesta columna para
abbordar a cegueira sob o angulo da diversidade. Digo isto porque uma
das coisas que mais me indignaram quando perdi a visão foi o tractamento
padrão dado a todos os cegos pelas instituições assistenciaes, não sei
si por culpa de deficiencias methodologicas ou por simples preguiça
mental. Ora, si entre os "normovisuaes" cada caso é um caso, por que
cada cego não saberia onde lhe apperta o passo? Não! A fundação à qual
recorri queria me "treinar" como si eu fosse um robô sem formatação que
precisasse ser programmado. Eu teria que apprender braille, porque as
caixas de remedio trazem relevo de fabrica e porque os cardapios agora
ja estão em braille. Teria que usar uma vara metallica dobravel cujo
comprimento attinge meu peito, só porque alguem decidiu que todo cego
precisa disso e não, por exemplo, duma bengala com cabo de guardachuva
da altura do meu umbigo, que acho muito mais practica por ser penduravel
no braço emquanto tenho de usar ambas as mãos, sem ter de arrastar pelo
chão um troço preso por elastico ao meu pulso. Teria que saber andar
bengalando sozinho e, caso dispuzesse de grana, preparar-me para
adquirir um cão guia da raça labrador, sendo que minha raça favorita é o
basset hound e não tenho a menor intenção de sahir à rua desaccompanhado
dum "normovisual" em cujo hombro possa me appoiar. Em summa, os
educadores ou rehabilitadores de cegos não querem nem saber si você
ficou assim ou é de nascença, muito menos si você ja conhesce o
alphabeto romano, inclusive distinguindo uma familia typographica da
outra (como a fonte garamond da times) e nem supporta appalpar aquelles
ponctinhos salientes que mais parescem gergelim no pão que algo escripto
e legivel. Ora, nada tenho contra um systema que permitte que os cegos
se alphabetizem, mas eu ja tinha curso superior e ja era escriptor
quando fiquei totalmente cego, porra! Eu preciso é dum computador
fallante como este no qual redijo minha collaboração, este sim,
utilissimo e adequado ao meu caso.

O problema não é só dos cegos, não! Si dependesse das esquerdas
trabalhadoras unidas de todo o mundo, por exemplo, todos os cidadãos
communs communizados teriam de locomover-se de bicycleta e vestir roupa
da mesma cor, como na China maoista. A mulher, si não fosse a dona de
casa domesticamente prendada pelos utensilios de consumo capitalista,
teria de ser a companheira de lucta maior do operario padrão, com o qual
comporia a familia modello do regime socialista, incorruptivel pela
decadencia burgueza do lesbianismo ou da sublitteratura pornographica. E
por ahi vae, sempre algum dictadorzinho de plantão tentando impor normas
de comportamento collectivo, mercadologicas, ideologicas ou theologicas.

Por essas e outras foi que, quando trocaram os elevadores do meu predio,
consultaram-me si eu queria braille no painel dos botões e respondi que
de nada me addeantaria, ao que elles collocaram um painel com dois typos
de relevo, o algarismo arabico e o braille correspondente ao numero de
cada andar, de modo que fosse util a mim, que moro no oitavo e
reconhesço na poncta do dedo os dois circulos superpostos, e para algum
visitante que seja cego de nascença e reconhesça aquellas reticencias
verticaes palpaveis. Ao menos nisso minha "especificidade" foi
attendida, ufa!

Por este anno, basta. Desejo a todos um bom 2016 e me despeço com estes
poeminhas recentes, um sonnetto do livro DESILLUMINISMO, um novo
madrigal e umas glosas ineditas.


NÃO ESCREVO EM RELEVO! [5071]

Com odio fico quando acham que leio
usando o braille! Cego totalmente
fiquei ja quarentão! Lendo com lente
ainda estava! Odeio braille, odeio!

Ao cego de nascença existe um meio
de se alphabetizar: o braille a gente
acceita, neste caso! Mas não tente
alguem me convencer que é bello o feio!

Recordo-me das lettras: teem seu traço
de recta e curva feito, não de poncto,
que nada significa e que eu rechaço!

Passar o dedo em ponctos, que eu nem conto,
de tantos que são, frustra! Cansa o braço!
Só noto que um inutil jogo eu monto!


MADRIGAL VISUAL

O cego concretista appalpa o pé
e lê, no amendoim, nonsense, até.

Ninguem é mais poeta nem concreto
que o cego, que tacteia a dimensão
da lettra na palavra, avulso objecto.
Em cada grão palpavel, o olho são
não vê sentido algum, mas interpreto
eu, sem a luz do dia, a cor do grão.


MOTTE GLOSADO

Só desejo, no meu dia,
ser eu mesmo e não robô.

Cada cego gostaria
si não fosse tão submisso
a uma norma, e fallar disso
só desejo, no meu dia.
Ja que faço poesia,
me colloco em tão pornô
situação, que até cocô
tenha um cego de comer.
Assim posso, com prazer,
ser eu mesmo e não robô.

Eu, no dia da cegueira,
não ler braille commemoro.
Nem poemas meus decoro
mas meu faro tudo cheira
e a audição segue certeira.
Bom seria no cocô
não pisar e, no metrô,
depender menos do guia.
Só desejo, no meu dia,
ser eu mesmo e não robô.

///