sábado, 5 de março de 2016

14 OU 21 DE MARÇO/2016: DIA DA POESIA



Para lembrar a poesia, nada melhor que um conto. Dum de meus melhores
amigos e collegas de penna, Luiz Roberto Guedes, recebi dia desses outro
conto do typo "veridico retocado", em que elle revisitava uma visita que
me fez quando eu morava no Rio, entre 1975 e 1978. Nem todas as scenas
recuperadas por Guedes estavam na minha memoria, mas as reminiscencias
de Sancta Thereza me refrescam o convivio com varios artistas da epocha,
inclusive compositores como Sergio Sampaio, hoje pouco lembrado mas
idolo meu naquella decada. Sergio tinha desponctado com o album que
trazia a canção "Eu quero é botar meu bloco na rua", mas não era essa a
minha faixa favorita. Eu preferia as mais rockeiras, typo "Labyrinthos
negros", ao estylo de seu amiguito Raul Seixas, embora tambem no samba
Sampaio fosse meio anticonvencional, com lettras cerebraes cantadas em
dicção quasi declamatoria, sobre arranjos fusionistas. Junctamente com
GITA do Raul, foi o disco que mais ouvi naquelles mezes antes de me
mudar para o Rio, sem suppor que faria amizade com aquelle antiesthetico
personagem que exhibia os pés descalços no anterior LP da Sociedade
Kavernista, uns pés magros e compridos que me despertavam phantasias,
bem differentes dos de Raul, que tambem apparesciam nas photos da
contracappa.


Ja ambientado no clima postropicalista carioca, fui appresentado ao
Sergio por um batterista que o accompanhava e com quem dividi casa por
breve tempo. Sujei os pés na lama e fui conversar com elle, como diria o
proprio Sampaio. Mostrei-lhe alguns poemas, na esperança de que os
musicasse, mas elle era muito bom de lettra e precisava approveitar as
proprias idéas. Mesmo assim, approveitou algumas minhas, o que me deixou
gratificado. Uma dellas foi bem podolatra. Suggeri que, num proximo
disco, elle fosse photographado mostrando as solas em primeiro plano, ja
que no disco kavernista só dava para ver o dorso. Sergio achou graça,
captou a minha mensagem, mas, timidamente, desconversou. Quando eu ja
voltara a morar em Sampa, sahiu o album TEM QUE ACCONTESCER, em cuja
cappa elle mostrava as solas bem na cara da gente, embora não descalças.
Mas a melhor idéa elle approveitou numa lettra. Em nossos pappos, eu
battia na tecla do auctor marginalizado e inedito, ainda antes de batter
na tecla "o" que marcaria a typologia do JORNAL DOBRABIL. Sergio
concordava que o poeta tinha que buscar vehiculos alternativos, em logar
de battalhar no mercado livresco, que era elitista e, peor, censurado
pela dictadura. Elle appoiava francamente a independencia e a
clandestinidade dos poetas marginaes, precursores dos actuaes expoentes
da scena suburbana, como os manos da Cooperipha. Dahi a phrase "Um livro
de poesia na gaveta não addeanta nada: logar de poesia é na calçada",
que me occorreu durante aquellas conversas. Elle a annotou na cabeça e
transformou-a na canção "Cada logar na sua coisa". Preste attenção nessa
lettra quem tenha a paciencia de ler o que escrevo.


Antes de ser consumido por um incendio, o MAM carioca programmava até
shows em seu auditorio, um dos quaes estrellado por Sergio Sampaio.
Estrellado é modo de dizer, pois para mim elle era estrella e até galan.
Mas o publico era pequeno, nada de superproducção. Levei minha camera e
photographei o idolo de differentes angulos, esgueirando-me a seus pés,
na beira do palco. Naquella epocha eu mandava revelar as photos em forma
de slides, que podiam ser vistos contra a luz ou projectados na parede.
Levei os slides do show ao Sergio e, de seu apezinho até um bar no
Leblon, elle me levou num fusquinha, cujo tocafitas me revelou em
primeira mão algumas canções de Milton Nascimento ainda não lançadas em
disco. No bar, Sergio me appresentou ao Alceu Valença e, para não dar a
impressão de que eu seria algum casinho seu, ou viceversa, chamou duas
maluquettes ultratagarellas para a nossa mesa. Mesmo assim salvou-se
alguma coisa daquelle pappo, digo, pelo menos uma scena memoravel para
poder relatar agora.


E por que a relatei? Porque lamento não ter sido photographado ao lado
do Sergio, ou por não ter apparescido em nenhum dos slides. Em
compensação, na mesma epocha alguem fez imagens minhas em super-8, coisa
ainda mais rara que as photos, hoje tão faceis de tirar digitalmente e
postar instantaneamente na rede. O auctor da proeza foi Fabio Stefani,
que accompanhava Guedes na visita ao hotel Bella Vista, bem na esquina
da rua Monte Alegre com a Mauá (hoje Paschoal Carlos Magno), onde morei
e onde morava o memorialista Antonio Carlos Villaça, que tambem
apparesce naquelle curto video mudo, agora digitalizado e youtubado. Si
eu pudesse calcular o valor historico de taes imagens... inclusive
porque Villaça não deve ter muitos registros septentistas filmados. Digo
"valor historico" em termos de historia pessoal, tão importante quanto
nossa linha do tempo no facebook, ou seja, infima.


Citando o conto de Guedes: {Encontramos Glauco giboyando o almoço, em
companhia de outro morador do Bella Vista. Um subjeito gordo, de longa
barba grisalha e ar beatifico de monge: o escriptor Antonio Carlos
Villaça. Depois das formalidades, pedi licença p'ra que Astroman
capturasse o momento com a super-8. Lembro que Villaça fallava de Rilke,
dizia que o poeta era um "creador kosmico", porque fundia, em si e na
obra, o character religioso, ethico e esthetico. Commentei que tinha
lido CHARTAS A UM JOVEN POETA, e elle observou que nessa obra Rilke
postulava a formação humana como fundamento da educação esthetica. No
mesmo tom sereno, Villaça disse que precisava fazer a sesta. Antes de
retirar-se, perguntou meu nome, e me prometteu "um presentinho de
boas-vindas". Figura gentilissima.}


Retornemos ao presente. No banco da frente, vão Jorge dirigindo e Akira
filmando. No de traz, Chicho e Salô, cada um com a cara para fora da sua
janella, orelhas ao vento, lattindo para todo mundo, incluindo as
bassetinhas e os outros bassetudos advistaveis pelo caminho, até
chegarem ao Ibirapuera, quando as toucas são collocadas para que as
orelhonas não se arrastem pelo chão. Os dois baixotes são soltos no
"cachorrodromo" e Akira lhes registra as correrias e estrepolias em meio
à variada matilha de cockers, beagles e poodles. Sem fallar, claro, na
salsicharia dos dachshunds, nunca antes tão populosa nesta cidade. Ja
mencionados em chronicas anteriores, os quattro dispensam appresentação,
mas o detalhe da camera do Akira eu preciso sublinhar. Elle filma tudo,
photographa tudo, transfere para archivos digitaes incrivelmente
volumosos, copia em midias physicas ou posta na rede, emfim, faz miseria
com as imagens recolhidas num mero passeio domingueiro...


E eu fico aqui em casa, philosophando sobre a transitoriedade da
condição humana e sobre a obsolescencia da technologia. Como serão
documentados os passeios dos bassethounds no seculo XXII? Serão clones e
robots de bassets? A unica conclusão a que chego é a de que alguns
minutos de super-8 gravados na decada de 1970 podem ter a mesma
relevancia cultural ou biographica de annos e annos de filmes digitaes
armazenados no nosso seculo. "Ou não", diria Sergio Sampaio.


Só espero que com os poemas as coisas sejam menos inexoraveis. Será que
cinco mil sonnettos compostos agora valem tanto quanto uns cincoenta na
era camoneana? Ainda bem que não existem poemometros de alta precisão
capazes de acquilatar taes subjectividades. Fiquemos, pois, com as
differentes datas para celebrar a poesia, o que ja reflecte cabalmente a
actual bagunça de criterios e valores...


Despeço-me com estes versos que ninguem comporia na epocha de Camões e
talvez ninguem no seculo vindouro.



SOBRE OUTRO EXTRANHO NO NINHO [sonnetto 2764]


Emquanto la morei, não me occorreu
cruzar com um famoso: a cruzar vim
com outro maldictão egual a mim,
Sampaio, o que calou o Zebedeu.


Com Raulzito Seixas bem se deu,
mas era mais sambista, por assim
dizer, que quem no rock achasse um fim,
um meio, ou um inicio, esse plebeu.


Botou bloco na rua, mas não quiz
ficar indo ao programma do Chacrinha
o resto da vidinha, é o que elle diz.


Seu samba é differente, pois não tinha,
assim como o Roberto, ou como o Assis,
origem carioca, ou como a minha.



DIA DA SALSICHARIA [sonnetto 5050]


Que coisa interessante! Finalmente
alguem nisso pensou! Fez-se o primeiro
"Passeio de Bassês" e até me inteiro
que está no kalendario, annualmente!


Nas festas da cidade, agora, a gente
ja pode vel-os junctos! Esse arteiro
cachorro salsichudo acha parceiro
à bessa e, nessa marcha, bem se sente!


O povo para, applaude, maravilha
os olhos nessa bella passeata
que, em preto ou tom marron, fascina e brilha!


Seus donos orgulhosos são da patta
tortinha e curta! Exhibe-se a matilha
no parque, abbrilhantando mais a data!



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sábado, 30 de janeiro de 2016

30 DE JANEIRO/2016: DIA DA SAUDADE



Tenho um orelhudo bassetudo chamado Chicho, de cuja existencia ha quem
duvide. A mim tanto faz, ja que muita gente duvida da minha propria
existencia. Quem duvida allega que venho gabando meu bassethound desde
os annos noventa e que um cachorro de verdade não viveria até agora,
todo pimpão, pernicurto, orelhilongo e marron. São modos de ver. Poucos
supporiam que um cego escrevesse mais de cinco mil sonnettos, alem de
obras noutros generos, depois dos cincoenta. Portanto, tenho credenciaes
para confrontar as incredulidades. Mas não é de virtudes nem de
virtualidades que quero fallar. O que desejo é confraternizar com outros
donos de bassets, visando a troca de figurinhas e factoides sobre o
comportamento da salsicharia.


O primeiro e mais assiduo desses confrades é conhescido aqui no bairro
como Seu Jorge, mas, filho de inglezes, chama-se na verdade George
Rogers. Seu bassetudo se chama Salomão Swift, mas, para os amigos, Salô.
Seu Jorge é sessentão como eu. Quanto ao Salô, tem a edade do meu
Chicho, ou seja, suppostamente advançada porem tenra como um presuncto
natalino.


Chicho foi registrado como Chichorro da Gama no certificado de pedigree,
mas prefere ser chamado pelo appellido, tal como o Salô. A principio
imaginei que o Chicho precisasse de companhia e até pensei em dar-lhe
dois "maninhos", o Chocho e o Chucho. Quando o Chicho enjeitasse alguma
refeição, bastaria admeaçar offerecel-a ao Chocho ou ao Chucho, e
immediatamente elle limparia o prato. Deschartada, por inviavel, a idéa
de ter trez bassetudos num appartamento, agora basta admeaçar o Chicho
de dar seu prato ao passarinho que nos frequenta a janella, e não sobra
migalha da ração. Não que o Chicho seja magro e inappetente, fique
claro. Elle gosta é de filar tudo que a gente esteja comendo, alem dos
abundantes biscoitos caninos que abbastescem nossa despensa. Quando se
enfastia da ração é porque ja está empanturrado de guloseimas, como
qualquer creança estragada.


A eventual companhia de que o Chicho sentia, talvez, a falta, surgiu
quando fui appresentado ao Salô e seu dono, os quaes passaram a nos
visitar regularmente, com direito a reciprocidade. Nessas occasiões,
Chicho e Salô viravam uma verdadeira dupla do barulho. Akira, meu
companheiro, que os photographa e filma, ja collecciona formidavel
acervo de scenas anthologicas, comparaveis aos mais assistidos videos do
youtube, estrellados por famosos bassethounds internacionaes, como Frank
the Tank e Sweet Sarah, Lakka e Hugo, Elbee ou Erubi San, Hal ou Haru
San, Porthos McRuff, Lucy, a cantora lyrica, Lyly, a chorona cynica,
Archie, o amigão dos gattos, Tommy, o pianista, Monty e Benji, os
anniversariantes, Moose, que passeia de carro com a cara para fora, e
tantos outros.


A convivencia do Chicho com Chocho e Chucho, no dia-a-dia, seria bem
difficil, tendo que dividir a comida e o espaço de carinho da gente. Mas
com Salô a coisa é differente, pois o esporadico tempo das visitas, de
parte a parte, mal chega para tanta cheiração, lambeção, lattição e
abanação de rabo. Alem disso, são mais donos dividindo a tarefa de
vigiar e papparicar os dois bagunceiros. Jorjão sempre se promptifica a
leval-os de carro até o parque, coisa que Akira não poderia fazer, pela
falta de carro, nem eu, pela falta de visão. A proposito, si a cor do
Chicho é todinha marron, a do Salô é quasi toda preta. As toucas
protectoras das orelhonas durante o passeio, essas differem: as do
Chicho em tons de vermelho, as do Salô em azues variados. Akira, quando
pode, accompanha Jorjão no carro, para photographar a salsicharia à
solta no parque, mas eu só fico em casa, desmotivado pela cegueira.


Minha sensação de isolamento se aggrava nos finaes de anno, quando Akira
passa Natal e réveillon no sitio dos paes, proximo à reserva florestal
das cataractas do Iguassu. Sim, ja fui convidado a accompanhal-o, mas,
prevenido accerca das aranhas gigantes, das cobras, dos mosquitos e da
inclemencia climatica, prudentemente declinei. Ja que os mosquitos andam
na moda, vale salientar que, naquellas bandas, são tantos a nos piccar
num só momento, que tornariam sem effeito quaesquer allusões a
repellentes, insecticidas chymicos e electricos, ou cortinas
protectoras. Nem preciso, portanto, referir-me a piccadas mais lethaes
ou phobicas.


Na ausencia do Akira, Chicho passa uns dias na casa do Salô, para não
incommodar outros amigos ou parentes que antes tomavam compta delle. Seu
Jorge está mais estructurado para attender às necessidades quotidianas
dos molecotes, incluindo qualquer hypothetica emergencia veterinaria
(algo de que Chicho jamais necessitou), alem de propiciar-lhes a mutua
companhia, até que, com o retorno do Akira, tudo volte à roptina e ao
convivio domestico.


Quanto a mim, fico remoendo a falta de companhia, occupando o tempo
entre o somno, o som nos phones, as noticias no radio ou o trabalho no
computador fallante. Passados os pyrotechnicos festejos do anno novo, a
Villa Mariana mergulha em sepulchral quietude, tanto nocturna quanto nas
manhans ensolaradas, quietude quebrada apenas pelo rhoncho das motos dos
entregadores de pizza, à noite, ou pelo esporadico lattido da
cachorrada. Neste começo de janeiro, entretanto, paresce que até a
cachorrada accompanhou os donos nas viagens de ferias. Excepto por um
esquecido guardião que, lamentando sua condição de prisioneiro, solta a
voz, fazendo echoar pelos quintaes, reverberado de predio em predio,
aquelle uivo semelhante ao do lobo desgarrado ou do lobishomem sem rhumo
no meio do matto.


Aquillo me deixa agoniado. Meu choro é silencioso, meditabundo e
inconsolavel. O delle é uma especie de contraponcto loquaz da minha
mortificação muda. Só me resta contactal-o em pensamento, tentando uma
communicação telepathica entre nossas carencias affectivas e
existenciaes. Nem sei si esse abandonado cachorrão é bassethound.
Provavelmente não, pois uiva como cão de maior porte. Mas, nessas horas,
pouco importa a minha preferencia pelos rasteiros e salsichudos. Eu, o
cachorrão deshumanista, solidarizo-me com seu desamparo e, na
impossibilidade de soccorrel-o (ou de ser soccorrido por elle),
limito-me a compor-lhe a endecha a seguir transcripta, com a qual me
despeço e aggradesço a paciencia de quem leu até aqui.



O BAIRRO DAS HORAS UIVANTES [Glauco Mattoso]


Um anno interminavel foi-se embora,
saudades sem deixar. Sacudo o pó
do tempo nas sandalias e ao brechó
separo mais um livro, ou jogo fora.


As noites silenciam, quasi, agora
que todos viajaram e estou só.
Ah, como dum cachorro sinto dó!
Escuto o seu chamado: ah, como chora!


Ao longe uivando, ouvil-o só peora
a minha solidão e apperta o nó
que trago na garganta. Nem totó
mimoso, nem rueiro, é o cão da aurora.


No longo feriadão, sente a demora
dos donos, num quintal qualquer, mas, oh,
quizera estar com elle, que xodó
me passa a ser! E eu choro, sem ter hora...



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sábado, 9 de janeiro de 2016

6 DE JANEIRO/2016: DIA DA GRATIDÃO



NORDESTINIDADE E FESCENNINIDADE

[1] Este titulo, que ja baptizou um livro do professor Barros Toledo,
tomo-o de emprestimo para referir-me a outro titulo, o unico que me
orgulho de ter recebido em meus 64 annos de vida e 40 de carreira
litteraria: membro honorario da Academia Canindeense de Lettras, Artes e
Memoria (ACLAME), em julho passado. Dos demais, como "Poeta da
Crueldade" ou "Principe das Trevas dos Poetas Pornosianos", nenhum é
official nem outhorgado mediante diploma, como aquelle que me chegou por
indicação do poeta da terra Sylvio Sanctos.

[2] Não sei por quaes fatidicas (ou vatidicas) veredas astraes me vejo
tão transplantado ao solo cearense. Talvez por artimanhas do proprio
destino contido no gentilico daquella região que me (nor)destina a
correspondencia trocada por decadas com os escriptores de la, como Nilto
Maciel (com quem organizei uma anthologia de contistas marginaes em 1977
e em cuja revista LITTERATURA collaborei), Carlos Emilio Correa Lima,
Arievaldo Vianna (que, tambem illustrador, collaborou na arte do meu
livro SACCOLA DE FEIRA), Pedro Paulo Paulino e o proprio Sylvio Sanctos,
entre outros que preferem ficar occultos sob pseudonymo. Veredas, dizia
eu, talvez evocativas da estrada decantada por Luiz Gonzaga na lettra do
baião que transcrevo de cor:

Ai ai, que bom,
que bom, que bom que é
uma estrada e uma cabocla
com a gente andando a pé!

Ai ai, que bom
que bom, que bom que é
uma estrada e a lua branca
no sertão de Canindé!

"Artomove" la nem se sabe
si é "home" ou si é "muié".
Quem é rico anda em burrico,
quem é pobre anda a pé.

Mas o pobre vê nas estrada(s)
o "orvaio" beijando as "flô",
vê de perto o gallo campina,
que quando canta muda de "cô",
vae "moiando" os pé(s) no riacho,
Que agua fresca, Nosso "Sinhô"!
Vae "oiando" coisa a "grané",
coisas que p'ra "mó" de "vê"
o christão tem que andar a pé.

[3] Claro, estreitei laços tambem com nordestinos de outros estados,
alguns radicados fora da terra natal, outros mantendo as raizes. Da
Parahyba, alem de Severino do Ramo (parceiro de sacanagens poeticas e
sexuaes na phase visual), meu maior interlocutor foi Braulio Tavares, a
quem credito o interesse que me despertou a litteratura de chordel (como
a de bordel) desde a decada de 1970. De Pernambuco o contacto foi, alem
de Jomard Muniz de Britto, os punks da banda Devotos do Odio, o critico
João Alexandre Barbosa e seu filho Frederico, o badalado balladeiro
litterario Marcellino Freyre e tantos outros litteratos. De Alagoas, ja
na phase cega, a professora Susana Souto Silva. Do Rio Grande do Norte,
o poeta gay Paulo Augusto e, mais recentemente, o ficcionista Thiago
Barbalho. E por ahi vae. A lista cearense accabou ficando maior depois
que conhesci o neochordelista Moreira de Acopiara, com quem pellejei em
2007, que me appresentou à pleiade dos fescenninos confrades cultuadores
de Aphrodite e Baccho entre Canindé e Caucaya.

[4] A connexão canindeense me propiciou um fertil intercambio nos
ultimos annos, tanto pela rede virtual quanto pelo correio physico. À
medida que meus livros iam chegando às mãos de Sylvio Sanctos, eu
recebia caixas e mais caixas contendo ex-votos em formato de pés
esculpidos em madeira, entre outros mimos, até que, surpreso ao receber
o enveloppe contendo o diploma da ACLAME, me dei compta de que Sanctos
não pilheriava quando me communicou sobre a homenagem a que fiz jus. Dia
desses, batteu-me a curiosidade e indaguei delle si a canção gonzaguiana
ainda reflectia a realidade da região, em termos de scenario não tão
arido. Affinal, o baião nem falla em secca, embora alluda à pobreza. E
questionei: Ainda subsiste essa vocação "andarilha" da estrada, em
detrimento dos "artomove"? Sylvio respondeu:

{De facto, 65 annos depois dessa canção, o scenario não está melhor. O
desmattamento foi generalizado, o clima é causticante, em quasi cinco
annos de secca, nada de agua fresca ou gallo campina mudando de cor.
Dependemos de uma adductora distante, com vazamentos pelo percurso, um
ou dois dias por semana, pois ha racionamento. O rico agora anda de
Hilux e o pobre, predador da apposentadoria dos avós ou do bolsa
familia, anda de moto. Paresce não haver uma vocação para o
desenvolvimento economico, a exemplo de Joazeiro do Norte. Uns dizem que
devido à proximidade da capital. Ha varios factores a levar em compta.
Politicamente, ha um chaos que lembra Sucupyra. Gonzaga & Humberto
Teixeira não fazem referencia à romaria ou ao padroeiro, será que
indirectamente, em seu appello tellurico?}

[5] Em 2008, o circulo de amigos de Sanctos, occulto pelo pseudonymo
Manoel No Brega, preparava uma anthologia collectiva intitulada PEROLAS
PORCAS, que não chegou a sahir. A pedido, fiz-lhes uma nota prefacial
(melhor dizendo, prepucial, ja que se tractava da mais authentica
"poesia de bordel"), vazada nestes termos:

{O trocadilhesco heteronymo (e bote hetero nisso) que assigna os
sonnettos e as glosas de "Perolas porcas" é porta-voz (ou porca-voz) dum
grupo de frequentadores do lendario cabaré Vae-Quem-Quer, na cidade
cearense de Canindé. Collegas de vida bohemia e de veia poetica,
começaram thematizando o proprio lupanar, exhaurindo-o nas piccantes
rhymas em "alho", e accabaram extrapolando o ambiente prostibular em
direcção à universalidade da putaria humana. O resultado se corporifica
e se desnuda em dezenas de sonnettos e decimas que se flexibilizam entre
a redondilha "de maior" e o decasyllabo "safado", com a elasticidade dum
courinho de picca. Os leitores de Bocage, de Gregorio, de Moniz Barreto
ou de Moysés Sesyom, na certa irão reesporrar ao lerem estas fescenninas
satyras, em que o baixo calão se nivela, no mais alto grau, ao baixo
meretricio.}

[6] Emquanto accompanhava a preparação da anthologia, eu mantinha um
dialogo poetico com os joviaes sonnettistas. Em janeiro daquelle anno,
glosei um dos sonnettos que entrariam na collectanea. Transcrevo-o antes
do meu:


Nunca comi ninguem sinão a soldo
Nos lupanares tresandantes onde
Andei; por la perdi de vez o bonde,
As resacas curei com cha de boldo.

E costumava, à sombra de algum toldo,
Ja bebado, indagar: -- Ninguem responde?
Surgia a quenga desse esconde-esconde,
Mentindo: -- Estava alli com "seu" Haroldo!

Este era um gay que preparava a boia
E mendigava algum no bar da Leda.
De mascotte, elle tinha uma giboya...

Preferindo beber cachaça azeda,
Para dormir usava uma tipoya...
Seu lemma: o pau eu chupo nem que feda...


SONNETTO PARA UM BORDEL MEMORAVEL [2128]

Havia um lupanar em Canindé
chamado Vae Quem Quer, cujo cliente
prefere até chamar de cabaret,
provando que saudades delle sente.

A mim, a quenga classica não é
quem mais attenção chama, e sim um ente
folklorico, esse Haroldo, cuja fé
na propria honra viril era descrente.

Si eu, cego, alli estivesse, em seu logar,
teria o mesmo lemma a sustentar,
ou seja: "O pau eu chupo, nem que feda!"

Apenas uma coisa eu accrescento:
si, apoz gozar, mijar-me um pau sebento,
normal é que, de vaso, a bocca eu ceda...


[7] Outro sonnetto que glosei foi este, tambem composto em orgiaca
parceria grupal, ja thematizando os ex-votos que Sanctos me enviava pelo
correio:


Antiga tradição em Canindé
Exige que alcançada alguma graça
Procure-se artezão, que logo traça
Da cura, em rude traço, aquella fé...

Seja a cabeça, o braço, a bocca, o pé...
Do corpo alguma parte onde perpassa
A chaga, a dor... Ha quem promessa faça
Para livrar o tennis do chulé...

Mas ao podophilo talvez attice
Os artelhos, quem sabe o mocotó
Dos beatos, suados e sabendo a pó

A fustigar na senda da crendice...
Em lavapés a lingua ja addeanta
Sem esperar a quincta-feira sancta...


SONNETTO PARA UMA FÉ TIDA COMO FETIDA [2136]

Fallei ja muito sobre um pé de ex-voto,
lavrado na madeira, nordestina
e antiga tradição, na qual só boto
meu credo si a intenção for fescennina...

Fallei do lavapés, gesto que adopto
não só nas quinctas-feiras, e em bolina
converte-se, pois lambo, e até na photo
estou, a salivar na fedentina...

Chulé que nem aquelle do romeiro
que, sob o sol, caminha o dia inteiro,
é coisa que venero e glorifico!

Christão nem sou, mas, cego, só me humilho:
lavar, lambendo, os pés dum andarilho,
é estar do pobre abbaixo, alem do rico...


[8] Ainda em fevereiro de 2008, ao receber um ex-voto mais detalhado no
peito que na sola do pé de madeira, aggradesci o presente com este
sonnetto, glosando mais um que me chegava simultaneamente à encommenda:


PACOTE AO POETA [Sylvio Sanctos]

Enviado numa caixa de sapato,
partiu pelo correio vespertino,
tendo como SAMPA fim, destino,
aquillo sobre o qual fizemos tracto...

Na madeira, paresce-me, ha extracto
fedido, como gostas, nada fino...
Si egypcio, não garanto... descortino
no "Manual do podolatra" este facto.

Pedes-me do surfista sua pranchha,
mas não a sobre a qual o pé escancha...
Tua onda attendo então por outro "tubo"...

Elevado o teu tacto seja ao cubo!
quando nas mãos tiver de Canindé,
em ex-voto, talhado bruto pé.


SONNETTO PARA O RECEBIMENTO E A ACCUSAÇÃO [2313]

Accaba de chegar a caixa. Grato,
accuso que a recebo. Dentro, inteira
lavrada em bruta tora de madeira,
a estatua dum pezão thalludo e chato.

A peça que esculpiram tem o exacto
formato que eu desejo e que a certeira
visão do amigo Sylvio, de primeira,
sacou do que, em meus versos, tanto tracto.

Só tenho a lamentar que esse artezão
tão habil, ja famoso em Canindé,
não tenha, sob os dedos, feito o vão.

Em tudo está perfeito aquelle pé:
o dorso, a sola, as unhas... Meu tesão
sentiu falta é do nicho do chulé!


[9] Não foi Sanctos, comtudo, quem me despertou o vicio de colleccionar
ex-votos de pés. Desde 2006, quando ganhei um do artista plastico Valdir
Rocha, percebi que aquellas rusticas estatuetas excitavam meu senso
tactil a poncto de me fazerem viajar em oniricas (para não dizer em
orgasticas) scenas emquanto as appalpava. Eis o sonnetto que fiz na
occasião, conclamando os amigos dispostos a me papparicar:


SONNETTO ESPALHADO [1069]

Procura-se um pé chato, largo e grande,
que tenha bem mais curto o "pollegar"
que o dedo "indicador"! Nesse invulgar
formato, algo esculpido alguem me mande!

Você, que as dicas pela rede expande,
me adjude este pedido a divulgar!
De macho ou femea, tanto faz, si andar
descalço ou com pesadas botas ande!

Ja fiz, quando enxergava, collecção
de moldes no papel, porem agora
que estou no escuro, vejo com a mão!

Talvez algum ex-voto numa tora
lavrado tenha as formas que darão
noção tactil do pé que um cego adora!


[10] Mas Sanctos não correspondeu apenas à minha demanda por artefactos
typicos da terra: graças a elle obtive uma copia da rara monographia dum
illustre canindeense, intitulada justamente O SONNETTO. Tracta-se do
retardatario parnasiano Cruz Filho, que mappeou o genero em auctores dos
dois lados do Atlantico e me instigou a elaborar uma reedição
commentada, que disponibilizei na rede sob o titulo HISTORIA E THEORIA
DO SONNETTO e que hoje está tambem na nuvem. Foi esse documento digital,
sem duvida, o que mais contribuiu para que o titulo da ACLAME me fosse
concedido. Entretanto, nem só de sonnetar vivem os bardos nordestinos: o
motte glosado, ou seja, o disticho commentado em decima, ainda é e será
sempre a modalidade mais propicia à satyra fescennina. Tambem nesse
molde trocamos figurinhas, os canindeenses commigo. Um exemplo está na
collectanea que organizei com o uspiano professor Antonio Vicente
Seraphim Pietroforte, intitulada AOS PÉS DAS LETTRAS: ANTHOLOGIA
PODOLATRA DA LITTERATURA BRAZILEIRA, que sahiu pelo sello Annablume em
2011. Algumas das glosas ao motte abbaixo são delles. Transcrevo todas
as incluidas, a começar pela minha.


O machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.

De virilha ou de sovaco
ninguem tem medo ou vergonha.
Temendo que alguem lhe ponha,
o machão tem poncto fracco
é por traz, no seu buraco!
Si dominado estiver,
faz, porem, o que ella quer:
lambe até pé de outro macho
si é mandado e for capacho
no pezinho da mulher!


Tambem glosado por Braulio Tavares na decima abbaixo.

E então quando tira a meia,
apoz descalçar o tennis...
Não admire que o penis
cresça, duro, e inche a veia!
Aroma que me incendeia
para o que der e vier;
fetiche de Baudelaire
pisando as uvas de Baccho...
O machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Arievaldo Vianna na decima abbaixo.

Mulher com sua belleza
E o poder da seducção
Sempre domina o machão
Abrindo sua defesa...
Mas não quero ser a presa
Nem fazer o que ella quer.
Hei de usar o meu "talher"
Para espetar seu "cassaco".
O machão tem poncto fracco
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Sylvio Sanctos na decima abbaixo.

Ao machão accostumado
Fellar o salto é normal
Gozando si sabe a sal
Lambe palmilha e solado
Ao jugo femeo prostrado
Põe a lingua onde não quer
Porque si assim não fizer
Ella pisa no seu sacco
O machão tem poncto fracco
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo cearense Pedro Paulo Paulino na decima abbaixo.

Eu mesmo não dou cavaco,
Pois da verdade eu não zombo:
Por boa linha de lombo
O machão tem poncto fracco.
Assim tambem me destacco.
Com ellas não tem mester.
Mente muito quem disser
Que não fica genuflexo
Deante do lindo sexo,
No pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo paulista Danilo Cymrot na decima abbaixo.

E não é que bom malaco
Ja não sae com dama à toa
Nem enjoa da patroa?
O machão tem poncto fracco,
Passa a noite em seu barraco
Como um conjuge qualquer,
Accredite quem puder!
Quem reinava nos desfiles
Tem seu calcanhar de Achilles
No pezinho da mulher...


Tambem glosado pelo paranaense Leo Pinto na decima abbaixo.

Do potentado ao malaco,
do escandinavo ao zulu,
nas immediações do cu
o machão tem poncto fracco.
Si a lingua desce do sacco,
elle finge que não quer,
mas si acaso ella couber
no buraco mais abba'xo
elle vira até capacho
no pezinho da mulher.


Tambem glosado pelo pernambucano Pedro Americo na decima abbaixo.

Depois de Glauco Mattoso
de Braulio e Arievaldo
com que osso faço o caldo
neste thema tão mimoso?
Si me inspirar o tinhoso
si um pé bonito tiver
e ainda o verbo vier
na lei de Eros e Baccho
o machão tem poncto fracco
no pezinho da mulher.


[11] Concluindo este retrospecto, transcrevo a glosa com a qual
manifestei minha gratidão pelo accolhimento dado a um cego menos
cantador que contador de desvantagem. Si do Gonzagão eu ja valorizava em
particular a canção "Assum preto" por fallar de perto ao meu callo de
cego, agora incluo "Estrada de Canindé" entre as composições das quaes o
valor affectivo pesa mais que a preferencia pelos classicos
prioritariamente anthologicos, como "Asa branca" ou "Parahyba". Um
kardecista ja me disse que, sendo Ferreira da Silva, glaucomatoso e
bisexual, é bem possivel que minha vida não passe duma reencarnação do
Virgulino. Si não for, na proxima entro para o bando de Lampeão nas
deserticas caatingas de algum planeta gemeo em outra galaxia. Emquanto
isso, me contento por ter entrado para o selecto grupo dos illustres
andarilhos da tavola redondilha.


Canindé, Canindeense:
de la veiu o meu diploma.

Immortal tornei-me, pense
quem duvida o que quizer!
E o logar não é qualquer:
Canindé, Canindeense!
Pois não é que la se vence
o ostracismo que se somma
à cegueira que o glaucoma
me causou? Pois é, na ACLAME
tenho amigo que me acclame:
de la veiu o meu diploma!

///

sábado, 19 de dezembro de 2015

DEZEMBRO/2015: UM OLHO NO OLHO, OUTRO NA FOLHINHA

Muita gente poderia suppor que o dia do cego fosse uma data
internacional, ja que coincide com o dia da martyrizada Sancta Luzia,
que, nas figuras que eu conhescia de infancia, apparescia, de palpebras
cahidas, com um prato nas mãos e, como duas gemmas de ovos frictos, seus
olhos no centro do prato.

Quem se dê ao trabalho de pesquisar (e não é facil checar boas fontes na
rede, todos sabem) constatará, porem, que a data é brazileira e
corresponde à morte de José Alvares de Azevedo, considerado o patrono
dos cegos no paiz. Esse pioneiro carioca morreu cedo, como seu homonymo
paulista, o poeta Alvares de Azevedo, mas teve tempo de introduzir o
systema braille por aqui, favorescido que foi pelo imperador Pedro II
(mais um poncto a favor do monarcha), que deu appoio ao instituto hoje
conhescido como Benjamin Constant (um republicano com cuja cara nunca
fui), mas a officialização da data como Dia Nacional do Cego deve-se ao
presidente Janio Quadros, em 1961, que teve tempo de fazer outras coisas
importantes antes de renunciar ao seu curtissimo mandato. Não discuto as
causas e consequencias da renuncia, mas que "Janio era um genio", la
isso era... Foi um dos poucos politicos republicanos a cujo charisma
tirei o chapéu, uma vez que meu monarchismo só deve satisfacções ao
fallescido collega Roberto Piva, que eu reverencio sem reservas.

Isto posto, retomo o thema do capitulo de outubro nesta columna para
abbordar a cegueira sob o angulo da diversidade. Digo isto porque uma
das coisas que mais me indignaram quando perdi a visão foi o tractamento
padrão dado a todos os cegos pelas instituições assistenciaes, não sei
si por culpa de deficiencias methodologicas ou por simples preguiça
mental. Ora, si entre os "normovisuaes" cada caso é um caso, por que
cada cego não saberia onde lhe apperta o passo? Não! A fundação à qual
recorri queria me "treinar" como si eu fosse um robô sem formatação que
precisasse ser programmado. Eu teria que apprender braille, porque as
caixas de remedio trazem relevo de fabrica e porque os cardapios agora
ja estão em braille. Teria que usar uma vara metallica dobravel cujo
comprimento attinge meu peito, só porque alguem decidiu que todo cego
precisa disso e não, por exemplo, duma bengala com cabo de guardachuva
da altura do meu umbigo, que acho muito mais practica por ser penduravel
no braço emquanto tenho de usar ambas as mãos, sem ter de arrastar pelo
chão um troço preso por elastico ao meu pulso. Teria que saber andar
bengalando sozinho e, caso dispuzesse de grana, preparar-me para
adquirir um cão guia da raça labrador, sendo que minha raça favorita é o
basset hound e não tenho a menor intenção de sahir à rua desaccompanhado
dum "normovisual" em cujo hombro possa me appoiar. Em summa, os
educadores ou rehabilitadores de cegos não querem nem saber si você
ficou assim ou é de nascença, muito menos si você ja conhesce o
alphabeto romano, inclusive distinguindo uma familia typographica da
outra (como a fonte garamond da times) e nem supporta appalpar aquelles
ponctinhos salientes que mais parescem gergelim no pão que algo escripto
e legivel. Ora, nada tenho contra um systema que permitte que os cegos
se alphabetizem, mas eu ja tinha curso superior e ja era escriptor
quando fiquei totalmente cego, porra! Eu preciso é dum computador
fallante como este no qual redijo minha collaboração, este sim,
utilissimo e adequado ao meu caso.

O problema não é só dos cegos, não! Si dependesse das esquerdas
trabalhadoras unidas de todo o mundo, por exemplo, todos os cidadãos
communs communizados teriam de locomover-se de bicycleta e vestir roupa
da mesma cor, como na China maoista. A mulher, si não fosse a dona de
casa domesticamente prendada pelos utensilios de consumo capitalista,
teria de ser a companheira de lucta maior do operario padrão, com o qual
comporia a familia modello do regime socialista, incorruptivel pela
decadencia burgueza do lesbianismo ou da sublitteratura pornographica. E
por ahi vae, sempre algum dictadorzinho de plantão tentando impor normas
de comportamento collectivo, mercadologicas, ideologicas ou theologicas.

Por essas e outras foi que, quando trocaram os elevadores do meu predio,
consultaram-me si eu queria braille no painel dos botões e respondi que
de nada me addeantaria, ao que elles collocaram um painel com dois typos
de relevo, o algarismo arabico e o braille correspondente ao numero de
cada andar, de modo que fosse util a mim, que moro no oitavo e
reconhesço na poncta do dedo os dois circulos superpostos, e para algum
visitante que seja cego de nascença e reconhesça aquellas reticencias
verticaes palpaveis. Ao menos nisso minha "especificidade" foi
attendida, ufa!

Por este anno, basta. Desejo a todos um bom 2016 e me despeço com estes
poeminhas recentes, um sonnetto do livro DESILLUMINISMO, um novo
madrigal e umas glosas ineditas.


NÃO ESCREVO EM RELEVO! [5071]

Com odio fico quando acham que leio
usando o braille! Cego totalmente
fiquei ja quarentão! Lendo com lente
ainda estava! Odeio braille, odeio!

Ao cego de nascença existe um meio
de se alphabetizar: o braille a gente
acceita, neste caso! Mas não tente
alguem me convencer que é bello o feio!

Recordo-me das lettras: teem seu traço
de recta e curva feito, não de poncto,
que nada significa e que eu rechaço!

Passar o dedo em ponctos, que eu nem conto,
de tantos que são, frustra! Cansa o braço!
Só noto que um inutil jogo eu monto!


MADRIGAL VISUAL

O cego concretista appalpa o pé
e lê, no amendoim, nonsense, até.

Ninguem é mais poeta nem concreto
que o cego, que tacteia a dimensão
da lettra na palavra, avulso objecto.
Em cada grão palpavel, o olho são
não vê sentido algum, mas interpreto
eu, sem a luz do dia, a cor do grão.


MOTTE GLOSADO

Só desejo, no meu dia,
ser eu mesmo e não robô.

Cada cego gostaria
si não fosse tão submisso
a uma norma, e fallar disso
só desejo, no meu dia.
Ja que faço poesia,
me colloco em tão pornô
situação, que até cocô
tenha um cego de comer.
Assim posso, com prazer,
ser eu mesmo e não robô.

Eu, no dia da cegueira,
não ler braille commemoro.
Nem poemas meus decoro
mas meu faro tudo cheira
e a audição segue certeira.
Bom seria no cocô
não pisar e, no metrô,
depender menos do guia.
Só desejo, no meu dia,
ser eu mesmo e não robô.

///

sábado, 28 de novembro de 2015

NOVEMBRO/2015: INTUIÇÃO FEMINISTA

Si bastasse ter um dia de protecção ou de lucta, as mulheres estariam
com tudo, pois, alem dos dias nacional e internacional da mulher, existe
o dia das mulheres do campo e o dia de lucta contra a exploração da
mulher, sem fallar no dia das mães, da vovó, da sogra, da cozinheira, da
enfermeira ou da prostituta.

Mas, em novembro, o dia 25 foi reservado para o thema da violencia
contra a mulher, particularmente interessante porque envolve a aggressão
sexual, chamada de "estupro" quando a vagina é penetrada e de
"attemptado violento ao pudor" quando a penetração forçada viola o cu ou
a bocca da victima. Isso segundo o jargão juridiquez, que
deliberadamente ignora o estupro contra homens, tal como a rainha
Victoria ignorava o lesbianismo. Curioso é que, de meus tempos de
adolescente, lembro-me de certos filmes dublados ou legendados que
traduziam o estupro oral da mulher como "crueldade mental", que, no
original americano, seria, litteralmente, "mental cruelty", figura
juridica ainda mais euphemistica que "attemptado violento ao pudor", e
mais suggestiva das intenções sadicas do aggressor, usada inclusive como
justificativa para pedidos de divorcio por parte da esposa ultrajada...
Para bom entendedor, seria como si dissessem: si a mulher appanha para
chupar, é "physical cruelty"; si chupa para não appanhar, seria "mental
cruelty".

Claro que nem toda a violencia é sexual, mas, geralmente, a mulher dicta
"de malandro" não apenas appanha delle como leva a consequente "surra de
picca". Si ella "gosta de appanhar" nem vem ao caso, ou viria, si, de
accordo com Nelson Rodrigues, "nem todas as mulheres gostam de appanhar,
só as normaes".

Toda a argumentação feminista contra o machismo domestico soa até
anachronica, no seculo actual, face à barbarie commettida pelos
jihadistas islamicos sobre suas escravas, ou antes, prisioneiras de
"guerra sancta", um medievalismo do tempo das cruzadas que volta a
assombrar o mundo, passados tantos seculos. A proposito do tractamento
dado à mulher pelo radicalismo islamico é que fui buscar um sonnetto de
Valentim Magalhães, tão modellar que foi incluido por Bilac em seu
TRACTADO DE VERSIFICAÇÃO. Em seguida, appresento algo de minha auctoria.


SONNETTO [Valentim Magalhães]

Ante a mesquita de aureos minaretes
açoitam dois telingas a trahidora.
As vergastas, subtis como floretes,
sibilam sobre a carne temptadora.

À vibração das varas, estremescem
seus niveos membros, firmes, delicados,
e, nos espasmos do soffrer, parescem
das contorsões do gozo electrizados.

Geme aos golpes, que as carnes lhe retalham,
e, aberta a rosea bocca, os olhos bellos
perolas vertem, que seu peito orvalham.

Dobram-se as curvas, soltam-se os cabellos,
e do alvo collo, admargurado e exsangue,
- como esparsos rubis - gotteja o sangue.


No livro O GLOSADOR MOTTEJOSO eu tinha glosado o motte abbaixo, corrente
na cantoria nordestina, do qual fiz uma releitura em forma de
sonnettilho no recemlançado livro SACCOLA DE FEIRA. Comparem e notem
que, na primeira leitura, o rhythmo da redondilha não tem accento fixo
na terceira syllaba. Mais recentemente, glosei outro motte, pertinente
ao thema deste mez, e aqui ja mantenho o rhythmo accertado no
sonnettilho. Confiram:

<http://cl.s6.exct.net/?qs=170b59a38d0aa656ed12f2847aefb1c9b455ca74c4c7e7d0397fd2da044ed403>


MOTTE GLOSADO

Na proxima encarnação
eu prefiro ser mulher.

Mais opprimidos, quem são?
Negros? Indios? Pobres? Loucos?
Não quero ser desses "poucos"
na proxima encarnação!
A casta dos sem-visão,
mais baixa que outra qualquer,
ao abuso é de colher!
Si é para chupar caralho
e tomar no cu que valho,
eu prefiro ser mulher!


A VOLTA DO MOTTE DO SEXO [3648]

Um poeta que eu conhesço,
talentoso e creativo,
diz que paga caro o preço
por não ter sexo passivo:

"Eu queria pelo avesso
ter nascido, à luz dum crivo
genital! Sou macho, e esqueço:
de qualquer gloria me privo!"

E elle affirma: a poetiza,
de talento nem precisa,
si tem algo a dar e der...

Não invoca o motte em vão:
"Na proxima encarnação
eu prefiro ser mulher!"


MOTTE GLOSADO

Nas mulheres não se batte
nem siquer com uma flor.

Sobra macho que as maltracte:
chutes, socos, bofetadas...
Só com flores perfumadas
nas mulheres não se batte!
Uma excappa caso accapte
o que exige o seu senhor:
chupa, engole, aguenta odor
com o qual não se accostuma,
um bodum que não perfuma
nem siquer com uma flor.


///

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

OUTUBRO/2015: VISTA NOCTURNA DA PAIZAGEM DESERTICA


Claro que, para mim, importa mais tractar do dia do cego, que vae cahir
em dezembro, mas o facto é que, na segunda quincta-feira de outubro, é
celebrado o tal do Dia Mundial da Visão, que alguns estupidos resolveram
instituir para a prevenção da cegueira, iniciativa que, por si, nada tem
de condemnavel. Como cego, fico revoltado, não pela decisão de crear um
dia voltado a tal conscientização, mas pela inconveniencia duma data
movel, que só serve para confundir os outros estupidos que montam
kalendarios commemorativos sem a devida checagem das origens de cada
commemoração. Tanto pode cahir num dez como num onze, por exemplo, este
malfadado dia, que me causa ainda mais dor de cotovello, digo, de globo
ocular inchado pelo glaucoma. Motivos não faltam, comtudo, para a
revolta dos demais cegos e "normovisuaes". Sinão, vejamos.

Agorinha mesmo, em 2014, internautas se perguntavam como era possivel
que até policiaes tivessem um comportamento descripto como "a sadistic
desire to be cruel to a blind man". Tudo porque a policia de Miami
deteve trez negros por posse de maconha mas só liberou dois delles. O
terceiro, chamado Tannie Burke, cego dum olho e semicego do outro, era
capaz de caminhar pelo quarteirão durante o dia mas não conseguiria ir
longe à noite. Justamente por isso os policiaes o levaram de carro até
uma area deserta e distante antes de soltal-o. Sem luzes nem casas por
perto, o joven negro passou appuros até achar alguem que o adjudasse, ja
que os policiaes tinham ficado com seu cellular. Burke foi caminhando
pela estrada, um pé no asphalto, outro no matto, para evitar que um
carro o attropelasse no meio da pista. Tinha explicado aos tiras que era
cego, mas elles fizeram pouco caso. Obvio que a cegueira de Burke
estimulou o sadismo de seus captores.

Os internautas que denunciaram o facto ficariam ainda mais chocados si
prestassem mais attenção ao que circula pela rede.

Na propria Florida, segundo materia de James Ridgeway e Jean Casella
postada em 2013, prisioneiros surdos e cegos eram mais maltractados
justamente por causa da deficiencia. Os surdos tinham a cabeça raspada
só dum lado para que, alem de invalidos, parescessem palhaços. Houve
denuncia de que o departamento encarregado dos presos deficientes
incentivava a cultura do medo e do desamparo, systematicamente abusando
de suas limitações physicas e psychologicas. Sem accommodações
adequadas, os surdos ficavam subjeitos a abusos, inclusive sexuaes, não
só por parte dos carcereiros, mas pelos demais detentos. Rick Scott,
governador da Florida, nem tomou conhescimento das denuncias. Um dos
detentos, chamado Sam Hart, relatou abusos sexuaes contra surdos e cegos
na prisão de Tomoka. Como represalia, foi victima de maior oppressão. O
castigo para quem delata maus tractos é a solitaria. Os guardas plantam
cellulares na cella do delator para que seja accusado pela posse do
apparelho, mesmo sendo surdo e impossibilitado de usar um telephone.
Segundo Hart, cegos e cadeirantes são costumeiramente surrados e
currados, mais ainda si derem queixa, e são deixados sem banho, em meio
a fezes e urina, alem dos rattos.

Não apenas presos communs são victimas de abuso decorrente da cegueira.
Em Guantanamo alguns presos politicos, cegados pelos torturadores, são
mais facilmente submettidos a novas torturas. Segundo materia de
Sherwood Ross postada em 2010, um sobrevivente chamado Murat Kurnaz
escreveu o livro intitulado FIVE YEARS OF MY LIFE: AN INNOCENT MAN IN
GUANTANAMO, no qual cita o caso dum cego com mais de 90 annos entre as
victimas da tortura que os guardas applicavam a rir.

Quem acha que abusos contra cegos são mais detectaveis entre
prisioneiros talvez se espante com algumas situações roptineiras
documentadas nas paginas virtuaes. Cidadãos communs são alvo
preferencial de jovens saudaveis, como se deprehende de relatos
vehiculados na rede. Aqui vão alguns exemplos.

Num asylo em Brunswick, no estado americano do Maine, o funccionario
encarregado de barbear e banhar os velhos foi preso por abusar
sexualmente dum cego que soffria de demencia. Embora o velho insistisse
em denunciar os abusos à sua neta e esta desse queixa à direcção do
asylo, ninguem levou o caso a serio, até que o funccionario fosse
flagrado estuprando o velho. O facto serviu de alerta para a situação de
pessoas vulneraveis subjeitas a maus tractos nas casas de repouso e
estimulou os parentes dos internos a dar-lhes credito quando estes criam
coragem para revelar o que soffrem, ja que pessoas incapazes e indefesas
teem sido constantemente assediadas em taes instituições e difficilmente
alguem vence o medo e a vergonha a poncto de contar que foi victima de
abuso sexual, segundo materia de Erin Rhoda postada em 2012.

Num trem londrino, um cego de 64 annos, que viajava sozinho, foi
infernizado por uma gangue de oito a dez jovens, que começaram attirando
jornaes sobre elle. O cego lhes pediu para pararem com aquillo e allegou
ser deficiente, o que attiçou ainda mais a crueldade da molecada.
Temendo que a gangue agisse com mais violencia, o cego tentou chegar à
porta do vagão, mas foi cercado e escarnescido, tendo que accionar o
dispositivo de emergencia, o que attrahiu os guardas ferroviarios.
Emquanto o cego era attendido, os jovens approveitaram para sahir do
trem, sem que fossem identificados por outros passageiros, segundo
materia postada ja em 2015.

Tambem na Inglaterra, Scott Cunningham, um cego accostumado a percorrer
longas distancias com seu cão guia, foi quasi attropelado por cyclistas
e motoqueiros que ficaram passando rente a elle e tirando sarro. O
cachorro, atterrorizado, teve que ser retreinado depois do trauma, e o
proprio cego foi descaradamente advertido pela policia para que não
frequentasse o local por onde os arruaceiros costumavam transitar,
segundo materia de Gary Fanning postada em 2014.

Na Irlanda do Norte, outro caso de gangue zoando um cego edoso occorreu
com David Archer, que pagou o preço por caminhar sozinho à noite, só
adjudado pela bengala branca. Foi surprehendido por jovens desordeiros
vindos de algum pub, que resolveram infernizal-o. Accostumado a
percorrer seu itinerario, elle foi abbordado por um dos rapazes, que
fingiu offerescer adjuda. Ao responder que não precisava, os outros se
approximaram e, aggarrando-o, fizeram-no dar voltas sobre si mesmo até
perder noção da direcção a seguir. Rindo e debochando de sua cegueira,
só pararam de gyral-o quando ficou tonto e desnorteado. Ao perceber que
tinham ido embora, Archer tentou retomar seu caminho, mas perambulou por
cinco horas, ouvindo buzinas soando bem perto, até achar alguem que o
soccorresse, ja de madrugada. Desde então, traumatizado, evita sahir
sozinho. Na verdade, não foi a primeira vez que Archer soffrera abuso de
jovens, pois no mesmo trajecto tinha sido alvo de pegadinhas armadas por
motoristas practicantes de rachas nocturnos, que estacionavam os carros
na sua frente e acceleravam repentinamente para assustal-o, tirando
sarro de sua insegurança, segundo materia de 2014 no jornal ULSTER
HERALD.

Alguns casos, independentemente da gravidade, parescem até anecdoticos
si contados por ou para pessoas bem humoradas, como estas recorrentes
situações conjugaes.

A simples manchette postada num blog chamado MAJANGAA em 2014 ja soa
como piada: "Homem batte em cego depois de fazer sexo com sua esposa". O
cego, chamado Emmanuel Kamoto, prestou queixa contra o vizinho Watmore
Chinyamakovho e pediu indemnização porque o outro se approveitou da sua
cegueira para dormir com sua esposa. Ella e o amante se communicavam por
signaes de maneira que o cego não notasse que o vizinho frequentava sua
casa a fim de corneal-o. Quando descobriu que era chifrado, Kamoto quiz
tomar satisfacções do outro, mas foi physica e verbalmente abusado por
Chinyamakovho, ou, por outras palavras, levou corno e couro, chifre e
chiste. Até o primo do amante apparesceu para adjudar a zoar o cego.
Perante a justiça, o amante limitou-se a negar as accusações, ao que o
tribunal limitou-se a prohibir Chinyamakovho de continuar visitando o
casal. Nada se commentou sobre a attitude da esposa, que provavelmente
se encarregou de espalhar a fofoca e incrementar a fama do marido
trouxa.

Neste outro caso, postado por um anonymo em 2009, a mulher trintona
chamada Maria Nangolo trocou o septentão marido cego Gerd Kali por outro
edoso, depois de abusar do velho companheiro por mais de um anno. Ella
deixava o marido trancado e sem comida emquanto sahia para ser comida
pelo amante, com quem ficava bebendo e gandaiando, segundo o testemunho
dos vizinhos. O cego appanhava della, quando voltava bebada, e ainda
ficava sem comer, si ella nada lhe preparasse. Os vizinhos chegavam a
passar comida ao cego pela janella, quando elle gritava que tinha fome.
Mas, na presença da esposa, elle dizia às visitas que era bem tractado,
mesmo estando sem banho por varios dias. Perante as auctoridades, o cego
declarou que amava a esposa e esta declarou que, pelo contrario, ella é
que appanhava delle, tornando-se obvio que Kali temia ser abandonado ou
castigado caso entregasse a mulher. Quanto ao amante, naturalmente
allegou que seu relacionamento com ella não passava de pura amizade,
mesmo que dormissem na mesma cama emquanto o cego dormia em outra... ou
emquanto o cego ficava accordado e de ouvido attento.

Tambem chama a attenção o caso dum cego cincoentão de nome Rick, que
perdeu a visão depois de ter chegado a boa situação financeira mas,
desde então, decahiu no poder acquisitivo e na qualidade de vida. A
companheira, com quem vivia sem filhos ja por duas decadas, tornou-se
verdadeiro demonio a partir da perda visual de Rick, que passou a
cumprir o que ella determinava. Era obrigado a levantar da cama às cinco
da manhan e passava o dia ouvindo os gritos della, exigindo obediencia
como si lidasse com um alumno relapso. Quando Rick tentou abandonal-a,
ella admeaçou denuncial-o à policia por violencia domestica. Temendo não
ser capaz de se virar sozinho, Rick tornou-se dependente da companheira
a poncto de supportar quaesquer humilhações, segundo materia postada num
forum virtual. Quem postou não esclaresce si a mulher trahia o cego com
outros namorados, mas as suspeitas não deixam de pairar...

Outros casos são francamente comicos, si não fossem tragicos, como este,
tambem occorrido na Inglaterra, onde o cego Colin Farmer foi attingido
por disparos duma arma de choques electricos typo "taser" só porque não
attendeu à ordem dum policial para que parasse onde estava. Caminhando
lentamente com auxilio da bengala, elle foi confundido com outro homem
que, segundo a versão da policia, portava uma espada de samurai, por
incrivel que paresça, ou por má intenção do policial. Alguem denunciara
à policia que teria visto um suspeito portando a dicta espada, e o cego
foi interceptado como sendo tal suspeito. Achando que o grito de "stop"
não fosse dirigido a elle, Farmer não interrompeu o passo e foi jogado
ao chão ao receber o disparo paralysante pelas costas, segundo materia
postada em 2013.

Voltando à estupidez de quem creou o dia da visão, encerro o meu libello
de hoje com este singello motte glosado. Até mais ver!


Vejo o Dia da Visão
como cada admanhescer.

Kalendarios não serão
para todos o bastante:
sem vantagens que alguem cante
vejo o Dia da Visão.
Para o cego, algum tesão
só terá quem vê prazer
em gozar podendo ver.
Quem seus olhos ja perdeu
não vê nada sinão breu
como cada admanhescer.

///

sábado, 3 de outubro de 2015

SEPTEMBRO/2015: O VELHO MORREU DO SEGURO

Paresce brincadeira! Si você consultar meia duzia de almanachs, achará
meia duzia de datas differentes para o "Dia do Edoso"! Isso me lembra um
apposentado que peregrina de hospital em hospital, ou de pharmacia em
pharmacia, em busca dum attendimento ou dum remedio que ninguem tem para
lhe offerescer!


Quando os Beatles ainda estavam na casa dos vinte e alguma coisa, lhes
parescia muito velho alguem que tivesse passado dos sessenta. Por
signal, a propria geração hippie tinha como um de seus lemmas "Não
confie em ninguem com mais de trinta annos". Não era de extranhar que,
reapproveitando phrases correntes no cancioneiro rockeiro, tenham
gravado "When I'm 64" imitando arranjo de canção dos tempos do
grammophone. Ironicamente, Paul, auctor da canção, ja passou dos
septenta e se acha moleque o sufficiente para seguir na estrada, show
apoz show. Isso me anima a commemorar meus 64 (completados em junho) com
algum optimismo em termos de disposição physica, não de respeito ou
consideração, que são expectativas muito pretensiosas para um cego
terceirizado, digo, na terceira edade.


Isto posto, passemos a alguns poemas allusivos: um sonnetto, um madrigal
e um motte glosado. Até outubro, e que nos cruzemos por muitos outubros
mais!



DIA DO EDOSO [4754]


Segundo a millennar sabedoria
judaica, envelhescer não é problema.
"Não seja catastrophico! Não tema!"
Assim diz o rabbino, e sentencia:


"É tempo de colher o que se havia
plantado...", explica o sabio. O estratagema
funcciona quasi sempre, mas o thema
afflige aquella typica judia.


Nervosa, apprehensiva, ella compara
seu caso ao do habitante do deserto,
logar onde ninguem jamais plantara...


Responde-lhe o rabbino: "Mas, bem perto
dalli, na terra fertil, minha cara
senhora, quem plantou colher quiz, certo?"



MADRIGAL PATRIARCHAL


O velho patriarcha ainda dá
as ordens, mas ninguem o escuta, ja.


De surdo se faz, quando lhe interessa,
e em tudo se intromette, diz o neto.
O filho ouvil-o finge, mas tem pressa
e logo sae de perto. Sem affecto,
o avô só quer que alguem bençam lhe peça,
mas todos são atheus, hoje, elle excepto.



MOTTE GLOSADO


Reis cantou: Panella velha
é que faz comida boa.


Si uma "edosa" nos pentelha,
é ranzinza e rabugenta,
mas de quem tem seus sessenta
Reis cantou: "Panella velha..."
Si em seu dia a tal se espelha
e decide ser pessoa
respeitavel, tenta à toa.
Nem na cama um cabra a approva,
pois mulher, quanto mais nova,
é que faz comida boa.

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